Como um pão de queijo me deprimiu na quarentena | Jornal Plural
21 abr 2020 - 18h03

Como um pão de queijo me deprimiu na quarentena

Café e pão de queijo sempre foram meu símbolo de um mundo normal

Abro a porta do carro e entro rápido. É um dia de sol entre nuvens e, na rua larga de três pistas (mais o lado de estacionar, na esquerda) o brilho da manhã entra atravessando as folhas das árvores imensas que estão ali. Acabo de voltar da padaria. Era para comprar pão pra deixar em casa, congelado, para os próximos dias. A gente aprendeu um truque de deixar o pão congelado e, de manhã, descongela ele com um pouquinho de água e tem pão fresquinho todo dia. Mas não é sobre isso. No meio de uma pandemia, onde a gente tem evitado todo o tipo de delivery (tanto pelo estranho medo de contaminação mágica que possa vir dentro da pizza quanto pelos aplicativos que maltratam entregadores), acabei de cometer um “pecadinho”: comprei meu primeiro café espresso com pão de queijo em mais de um mês.

Primeiro, é importante você saber que eu gosto de café. Muito. Muito. Não estou mais nos meus tempos áureos em que bebia duas térmicas de manhã, sozinho, enquanto escrevia. Esse tempo passou. Mas ainda assim, bebo. Sem açúcar, como todo o chato que fica azucrinando você a beber café “de verdade”. Não sou nenhum expert, não sinto as notas frutadas, não identifico em que área da língua o sabor ficou mais marcante, nem nada disso. Mas gosto o suficiente pra ficar puto quando escrevem espresso com “x”.

Meu código de normalidade, meu assentar a alma num lugar (especialmente quando estou viajando) é tomar um espresso com pão de queijo. Apesar do pão de queijo ter suas origens mineiras, sua receita e expertise se espalharam para todos os cantos do país. Estando no Brasil é um pedido fácil de fazer e, rapidamente, você está com aquela calorzinho no corpo, com aquela massinha na boca, e tudo está bem.

Com essa lembrança, em meio a uma pandemia, entro no carro num dia ensolarado e me preparo para matar a saudade. Mas primeiro:

  • Passa na mão o álcool-gel (não vou chamar isso de álcool em gel depois de passar uma década chamando de álcoogel, só coloquei com hífen primeiro em respeito aos puristas, àqueles que também ficam putos quando leem espresso com “x”) para tirar a máscara do rosto.
  • rasga o pacote do pão de queijo, abre o pacote, deixe ele como se fosse um pratinho no banco do pasageiro
  • Na dúvida, passa álcoogel (respira, purista) no copo do café e na mão, de novo, só por garantia.

A sensação de nostalgia está no corpo, antes mesmo de começar a sorver a minha combinação favorita. Estou muito feliz, especialmente depois de mais de um mês sem um café espresso e um pão de queijo. É agora!

Bebo.

Como.

Bebo e novo.

Como de novo.

A sensação é uma pura e absoluta… decepção.

Quase sinto que fui enganado e que a padaria me vendeu outras coisas no lugar da minha dupla favorita. Cheiro, ambos, para ter certeza – é ótimo, porque além de conferir se são mesmo um café e um pão de queijo, de lambuja verifico se estou com COVID ou não (ele ataca as células olfativas). Não fui enganado, comprei numa padaria que eu gosto e continuo a me sentir decepcionado. O que mudou?

Eu mudei. Percebo o quanto o pão de queijo é uma alimentação inútil (com todo o respeito a você, amante de pão de queijo, ou a você, pessoa que simplesmente porque este texto está na internet te dá uma vontade de dar print e mandar um milhão de hacker amantes de pão de queijo me cancelar pelo resto da minha vida online pra eu aprender) e quanto o café, no seu amargor, tem sido empurrado na gente porque seu estímulo ressona com o discurso de ser produtivo, o tempo todo. Café estimula, pão de queijo satisfaz (pobremente) e bóra trabalhar.

Tô ali, decepcionado, triste mesmo com meu paladar e com os hábitos do meu antigo eu. Tenho esse momento de epifania de que, se é pra essa pandemia monstruosa servir de alguma coisa, seria pra gente repensar nossos velhos hábitos rapidamente. Um vírus a gente ainda tem a pior perspectiva de fazer isolamentos sazonais por cinco anos, mas no caso de um aquecimento global a gente pode ter que passar o resto da nossa curta existência isolados, só esperando a morte chegar.

Ali, na rua, com o sol entre as folhas, numa manhã curitibana, eu só queria que os líderes mundiais comessem seus pães de queijo e bebessem seus cafés e tivessem essa epifania logo. Antes que não sobre nada pra gente sentir saudade.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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