Como eu posso te explicar | Plural
2 dez 2019 - 22h14

Como eu posso te explicar

Há quem ache que o trabalho no teatro é fácil. Não é bem assim

Acorda. De madrugada. Joga uma água na cara. Não precisa ir no depósito porque vocês colocaram tudo na carretinha ontem de noite. Se for muito cedo, vai de Uber até o ponto de encontro – porque os ônibus ainda não começaram a circular. Lá está a van, atrás dela a carretinha com o cenário. Do lado de fora da van tem uns dois, três integrantes da peça. Talvez um deles esteja fumando. Dentro da van tem mais dois, meio que tentando continuar a dormir. Não dá pra sair ainda porque alguém tá atrasado. A pessoa atrasada chega, a van sai, em direção a apresentação.

A van segue pela estrada algumas horas. Para num posto pra todo mundo – especialmente o motorista – tomar um café. A produção dá uma grana na mão, que é a diária, que você tem que esticar pra pagar o café da manhã, o almoço e a janta. A van segue viagem, logo depois que a pessoa atrasada chega atrasada de novo – foi no banheiro, tinha esquecido de ir antes.

A van chega na cidade, vamos ao teatro. Descarrega a carretinha, monta cenário, arruma a luz para o espetáculo. Epa, não tem todos os equipamentos que tinham prometido. Como não? Não tem. E agora? Agora a gente se vira ou aluga. Aluga onde? Aqui na cidade tem um cara que aluga. Quanto custa? Custa caro. Então adapta. Adapta como? A gente não faz aquela luz, que era legal, mas é menos importante, e faz essa. Ok? Ok.

Monta tudo. Vamos fazer ensaio nesse teatro diferente. Faz ensaio, passa tudo. Que horas são? Quase hora de começar. Já? Sim, já. Corre passar maquiagem e colocar figurino. Corre verificar se esta tudo no lugar mesmo. Corre verificar se pode começar. Pode começar? Começa.

Apresenta.

Termina de apresentar, cumprimenta a plateia. Muito legal a sua apresentação! Muito obrigado. Eu tinha visto na sua cidade. Que bom! Por que não tinha aquela luz lá, que era legal? Ah, coisas da vida, não deu. Ah, que pena, aquela luz era legal. Era mesmo.

Começa a desmontar tudo pra colocar na carretinha. A gente vai ficar na cidade? Não, não vai, não deu pra cobrir essa diária de hotel, nós vamos voltar hoje mesmo, o motorista tá descansado porque dormiu na van o dia todo. Bora? Bora, assim que a pessoa atrasada voltar pra buscar o celular que esqueceu no teatro.

Chega na cidade de madrugada. É tarde, mas nesse horário vai descarregar a carretinha. Arruma as coisa no lugar, se despede da van. Não tem ônibus circulando ainda, então volta pra casa de Uber. No outro dia acordo meio torto, num sono meio de van meio de cama, mas vai no evento do almoço de família. Chega o tio, que quase nunca fala com você.

– Ainda fazendo teatro?

– Ainda.

– Tua mãe falou que vocês foram pra outra cidade apresentar?

– Ontem.

– Ah, que beleza. Como é legal ter um trabalho fácil, né?

Nem tentei explicar. Na viagem seguinte amarrei meu tio na carretinha. Assim ele entende e me ajuda a explicar pros outros.

Últimas Notícias