22 fev 2022 - 10h30

Ainda somos antropofágicos?

A proposta dos modernistas era assimilar as técnicas de movimentos que estavam ocorrendo na Europa, como o Expressionismo Alemão, Surrealismo e Cubismo e aplicar em um universo essencialmente brasileiro

Chegamos então ao centenário do evento que, nas tardes e noites de fevereiro de 1922, abalou as estruturas do que se fazia em termos de arte até então. Aquela moçada, em sua grande maioria, filhos da elite paulista e carioca, que haviam tido contato com os movimentos vanguardistas europeus do começo do século XX, perceberam que somente juntos conseguiriam romper com o conservadorismo e atraso do que se produzia artisticamente no Brasil.  

O centenário da Semana de Arte Moderna (e também o bicentenário da Independência do Brasil), que ocorrem esse ano, são eventos que servirão para uma série de revisões e reflexões sobre nossa identidade enquanto nação, e também na arte que produzimos atualmente. Teríamos ainda alguma herança dos modernistas de 1922? Lembrando sobre a proposta que os modernistas pretendiam, a de assimilar as técnicas de movimentos que estavam ocorrendo na Europa, como o Expressionismo Alemão, Surrealismo, Cubismo, entre outros, mas aplicar em um universo essencialmente brasileiro.  

A grande sacada foi a apropriação de um ritual dos povos nativos do Brasil (e outros pontos no mundo), a antropofagia, que consistia em sacrificar os melhores guerreiros inimigos, capturados em guerras, e deglutir sua carne. Com isso acreditavam que suas qualidades seriam assimiladas, como força, coragem, inteligência, por exemplo. Dessa ideia surge o Manifesto Antropofágico, elaborado em 1928 por Oswald de Andrade, um dos integrantes do chamado Grupo dos 5 (grupo formado também por Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia e Mário de Andrade). Portanto, essa ideia de “devorar” e estrangeiro para melhorar nossas próprias qualidades, se torna o modo de produção, não apenas dos modernistas de 22, mas do que veremos dali em diante. Esse mix que artistas como Anita Malfatti produziu, ao vermos uma pintura sua, onde temos as técnicas do Expressionismo Alemão presentes, mas aplicadas em uma paisagem interiorana do Brasil, ou o grande maestro Heitor Villa-Lobos, que combinou a música erudita de orquestra com a música caipira.  

Os ecos desse pedregulho no lago ainda puderam ser sentidos nas décadas seguintes. Movimentos como o Tropicalismo, feito por artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Mutantes, entre outros, deu continuidade à prática antropofágica. Como exemplo, podemos ver a influência da invasão britânica, capitaneada por bandas como Beatles e Rolling Stones, nas produções desses artistas, mas ao mesmo tempo também víamos a música nordestina ou a música caipira do interior de São Paulo. O cinema de Glauber Rocha trazia a influência francesa do movimento Nouvelle Vague, mas ambientava a trama no sertão nordestino, na obra Deus e o Diabo na Terra do Sol. Nos anos 1990 podemos ver (e ouvir) novos ecos no movimento pernambucano Mangue Beat, comandado por artistas como Chico Science, Jorge Cabeleira, Mundo Livre S.A, entre tantos, onde os tambores do Maracatu, Ciranda, Côco, eram somados às guitarras com overdrive do Grunge vindo de Seattle . 

Com isso, podemos pensar que esse modo de produção da arte brasileira hoje, ainda carrega a herança do que os modernistas lá de 1922 nos deixaram? Creio eu, que a respostas para a pergunta título desse artigo seria SIM, ainda somos antropofágicos no modo de produção artística. O que se torna inclusive marca registrada nossa em termos de arte. Acho que as ondas do pedregulho no lago ainda podem reverberar por mais 100 anos, quem sabe? 

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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