Uma fraqueza masculina | Jornal Plural
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14 maio 2020 - 19h33

Uma fraqueza masculina

A figura paterna também é sinônimo de abandono e amargor

De acordo com dados do IBGE em 2017, 57 milhões de mulheres são as responsáveis por suas famílias no Brasil. Dessa exorbitante realidade, 32 milhões estão abaixo da linha de pobreza, ou seja, são miseráveis.

É senso comum afirmar que, somente existindo um objetivo nacional de erradicação da pobreza; que tomaria muitos anos na vida de um país; é que seria possível o Brasil eliminar do seu mapa esse estágio desumano de existir. Quando chegássemos lá, grande parte dessas gerações teriam apenas “passado” pela vida.

No seio desse contexto vergonhoso, temos as mães que criam (ou sobrevivem com) seus filhos, efetivamente sem a presença paterna.

Todos nós conhecemos mães que foram deixadas ao deus-dará pelos seus “companheiros”, logo após o nascimento do (s) filho (s), deixando a genitora como a única responsável por prover o sustento e educação dos seus rebentos. A grosso modo podemos afirmar, sem dispor de análises psicológicas, que são homens com “natureza muito frágil” no tocante à responsabilidade social e afetiva, face à mãe e filho (s).

Em todas as camadas sociais brasileiras as situações de abandono paterno se reproduzem: seja pela separação do casal, ou pelo não aceite formal da paternidade sócioafetiva, e até mesmo por não ter nenhuma condição financeira para assumi-la. A decisão é de um egoísmo deplorável.

Quando se está numa situação de miséria social, a questão da criação do (s) filho (s) pertence a um problema de enormes proporções, exigindo paliativos imediatos e soluções complexas a médio e longo prazo, que somente um país verdadeiramente consciente de seus males, e suas consequências nas gerações futuras, pode ser capaz de resolvê-lo. No contexto brasileiro dos alarmantes números do IBGE, sobreviver é a ordem do dia. Viver quem sabe.

Quadro da série Crianças de Açúcar, do artista plástico e fotógrafo Vik Muniz.

Agora, quando a negligência paterna é pratica comum, fora da situação de pobreza e miséria, o julgamento sobre o progenitor se faz necessário.

Homens fracos, afetivo e emocionalmente, produzem estragos em seu ambiente familiar, a partir do nascimento de um (a) filho (a). São muitas situações que afirmam sua incapacidade de lidar com essa responsabilidade capital: se dá conta de sua fragilidade recalcada desde os tempos de infância; não suporta dividir a atenção com um ser, que, por muitos anos, será mais importante que ele; a inveja sai da obscuridade do ser paterno, prejudicando a relação marital pouco a pouco, até a consumação da separação. Nesse último contexto, o pai culpará a mãe pelo desgaste.

Frases como: “não consegui dar conta”. “ Eu tive dificuldade para lidar com essa nova realidade. Era imaturo na época, não sabia o que está fazendo”. “Era muito novo e não consegui assumir a responsabilidade. Foi um erro fazer esse (a) filho (a)”. “Eu pedi para ela abortar. Ela não quis, então fui embora”.  Eu estava crescendo na carreira e cuidar de um (a) filho (a) me atrapalharia muito”. “Minha mulher se tornou outra pessoa com o nascimento do bebê”. “O casamento ficou muito chato depois do nascimento de…”. “Me envolvi com outra pessoa e naturalmente me afastei da minha ex-mulher e filho (a)”.

Mesmo a mãe estando na situação de uma mulher debilitada fisicamente, emocionalmente instável, não é suficiente para o “companheiro” ter empatia e sabedoria para lidar com seus desejos no tempo e espaço apropriados.

Ao distanciar-se emocional e fisicamente de sua paternidade, o homem pune a mãe (talvez até mesmo a que o gerou), dificultando o seu crescimento profissional e consequentemente material. Um pensamento patriarcal ainda muito em voga no Brasil, que em silêncio ou no grito, impõe situações limitadoras para as mulheres.

Temos aqui a questão moral (paternidade), a social (progenitor) e agora, a questão psicológica da situação: existe o egoísmo, a perversão e o narcisismo, embalados por uma cretinice gigantesca.

Gerar é fácil. Prover e educar é no mínimo complexo. Negligenciar é perverso. Abandonar é crime.

Quadro da série Crianças de Açúcar, do artista plástico e fotógrafo Vik Muniz.

Enquanto a mãe se agarra à vida com sua (s) cria (s), o progenitor se sente livre, e “com experiência” para construir a família ideal dessa vez. Nesse ínterim, a criança vive de acordo com as possibilidades afetivas e de segurança que lhe são oferecidas, vindas de tios, avós e amigos de sua mãe.

O vazio sentido pela ausência do pai cria no interior do infante a ideia de desamor, no caso vindo de seu pai. A evolução, bem como o enraizamento desse pensamento no decorrer do tempo, faz surgir sentimentos de autodesvalorização (por não ter recebido aceitação e amor) e culpa, por imaginar que foi a causa da separação e abandono pelo pai. É um desastre, que poderia ter sido evitado com uma simples ação: ser íntegro e fazer o que precisa ser feito, nem que seja agindo apenas por uma questão de responsabilidade, afinal, ninguém é obrigado a amar.

Um grande estudioso do comportamento infantil no século 20, o psicólogo britânico John Bowlby, viu a importância dos pais fornecerem base segura, a partir da qual uma criança ou adolescente pode explorar o mundo exterior, e a eles retornarem certos de que serão bem-vindos, nutridos física e emocionalmente, confortados se houver um sofrimento e encorajados se estiverem ameaçados. A consequência dessa relação de apego é a construção por parte da criança, já a partir dos 3 anos de idade, de um sentimento de confiança e segurança em relação a si mesma e, principalmente, em relação àqueles que a rodeiam.

Se uma criança tem a sorte de crescer em um lar suficientemente bom, com pais emocionalmente equilibrados, responsáveis e protetores, que a apoie incondicionalmente, sem dúvida nenhuma sua estrutura psíquica será forte e segura para enfrentar as dificuldades da construção da vida.

“O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente.”

Mario Quintana

Nota de 2013

De acordo com o censo escolar, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça – CNJ, há 5,5 milhões de crianças brasileiras sem o nome do pai na certidão de nascimento.


Até a semana que vem!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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