Um homem iluminado | Jornal Plural
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27 fev 2020 - 21h09

Um homem iluminado

O tempo vivido pelo poeta Ferreira Gullar

A coluna de hoje não é analítica e sim da ordem do sensível. Um recorte pessoal, atemporal. Eu compilei frases, poesias, entrevistas, ensinamentos e elucubrações desse homem lúcido e genial, que permaneceu íntegro aos seus valores durante toda a vida.

“Eu não sabia o que fazer da vida, vinha tendo muitos problemas na escola onde estudava, de maneira que quando vi que a professora tinha gostado da minha redação, imaginei que eu talvez desse para aquilo, mas como saber? Nessa idade, um menino tem inúmeras possibilidades abertas; pode se tornar muitas coisas, e tem que inventar a si mesmo.”

“Para ser escritor era preciso saber gramática; então passei dois anos livros de gramática, entre 1943 e 1945. Fiz isso sozinho, em casa, porque nesse mesmo período deixei a escola, e minha família não podia fazer nada para me ajudar. Eu vivia dizendo que tinha nascido em Macondo, aquela cidade aonde tudo acontece cem anos depois.”

“Tudo isso fazia parte do cotidiano e ficou gravado na minha memória como uma experiência essencial que ressurge com frequência na minha poesia, porque faz parte do que me constitui, do que me ajudou a ser o que sou. Um macio de casa no Nordeste, com seu quartos e salas, seu banheiro, que esta tarde atravessa para sempre – somos feitos dessas coisas ínfimas que vão se acumulando lentamente em nós. Não creio que haja uma explicação específica para isso.”

A tela A Noite Estrelada, de Vincent Van Gogh.

“Talento depende do meio para se desenvolver, mas eu acho que um dom inato. A pessoa nasce com predisposição para ser poeta ou pintor, e se o meio não permite, porque não oferece a necessária densidade, então esse talento não se desenvolve. Não se enganem, a arte não releva a vida, ela inventa a realidade. Ela acrescenta, enriqueça a vida. De pouco em pouco. Van Gogh quando fez A Noite Estrelada acrescentou as bilhões de noite, mais uma que que só existe na tela que ele pintou.”

“Nunca permiti que a teoria se aposse do meu pensamento a ponto de cegar-me, em toda vez que me pareceu necessário tive a coragem de defender minhas ideias. Para mim, a arte, como todo produto da inteligência, deve nos ajudar a viver, a enfrentar a doença, a dor e a morte. Nossa evolução biológica não nos dotou de inteligência simplesmente para sermos pessoas instruídas, muito menos para buscarmos a morte, mas para ajudar-nos a resolver os problemas que nos desafiam, para sobreviver.”

“Daí que minha poesia, e toda a minha obra, acolha a dor, sim, como uma coisa que faz parte da vida, mas sempre oferece saída. Não é um otimismo bobo, porque todos nós que vivemos a aventura humana conhecemos a dor e a morte, e sofremos com ela, mas no fundo, aspiramos à felicidade. É tudo mentira, poeta não sofre não.  Ele pode ter dificuldades para escrever, mas não sofre não. Escrever é um prazer para o poeta, até a dificuldade é um prazer para ele, porque ele ama o que faz. Quem escreve para provocar sofrimento para os outros está pirado.”

“A pretensão me degrada, a humildade me deprime. E assim a vida é lesada: ora é virtude, ora é crime. No mundo há muitas armadilhas e muitas bocas a te dizer que a vida é pouca. Que a vida é louca.”

“E por que não a bomba? Te perguntam. Por que não a bomba para acabar com tudo (…)? Contudo, olhas teu filho, o bichinho que não sabe; que afoito se entranha à vida e quer a vida e busca o sol.”

“O amor é uma das melhores coisas da vida. No meu modo de ver, o sentido da vida é outro. E a pessoa amada é o outro mais pleno ainda. Quer dizer, é o outro com o qual você tem uma identificação profunda e que é o companheiro ou companheira, com quem você constrói um dia a dia, ou o futuro. O amor também transfigura o relacionamento das pessoas. E tem outra coisa também, o entendimento e a compreensão que estão envolvidos no amor. Quer dizer, o amor não te julga. Pelo menos é o que entendo. Ele é um recanto onde você é aceito sem o julgamento implacável das pessoas.”

“Nós estamos condenados ao futuro, não tem saída. Eu acho que o futuro, de algum modo, é também a esperança. Porque o futuro é a possibilidade da transformação, da mudança, da vida melhor. Quer dizer, se você não tem futuro e é o estrito presente, se o presente está bom, está ótimo. Mas e se o presente estiver ruim? Como é que é? Tem que ter o futuro. ”

“É evidente que quando você tem o seu passado, você tem culpas, lembranças legais e tem coisas que te gratificam. Mas o mais importante de viver muito é que você aprende a ser melhor como ser humano. Tanto sofrimento, tantos amigos que eu perdi. Tanta coisa me dói muito e prefiro não pensar. Você pode pensar no passado para corrigir seus erros, mas não quero saber do sofrimento, quero é felicidade. Não gosto de fazer lamúrias. Uma vez discuti feio sobre determinada situação. Fiquei sozinho em casa, cheio de razão e triste “pra” cacete. Então, para que querer ter sempre razão? Não quero ter razão, quero é ser feliz.”

Ferreira Gullar faleceu em 2016, aos 86 anos, no Rio de Janeiro.

“Júpiter, Saturno. De dentro do meu corpo estou vendo o universo noturno. Venha explosões de gás que meu corpo não ouve: vejo a noite que houve e não existe mais. A mesma, veloz, em Tróia, no rosto de Heitor – hoje na pele do meu rosto (…).”

Para ir além

Ferreira Gullar conversa com Ariel Jiménez – Cosac Naify

Bananas Podres – Leya

Muitas Vozes – José Olympio

Dentro da Noite Veloz – Eulina Carvalho

Entrevista e mais entrevistas – Sites – YouTube


Até a próxima semana!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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