Putin, o eterno | Jornal Plural
20 fev 2020 - 21h09

Putin, o eterno

Presidente russo quer a imortalidade política a qualquer custo

O mandato de Vladimir Vladimirovitch Putin termina em 2024, completando 25 anos de poder absoluto na Rússia. Somente Stalin ficou tanto tempo no Kremlin, 26 anos. Preocupado com seu trono, possivelmente os próximos cincos anos serão para formatar a sua continuidade no poder. Pela lei atual, não é possível se candidatar a mais uma reeleição. Ou cria um substituto fiel, ou modifica a Constituição russa novamente. É possível que Stalin fique em segundo lugar como o governante mais importante da história russa moderna.

Em busca da mitificação definitiva, é mais do que possível que as regras do jogo político sejam modificadas para satisfazer seu apetite pelo poder. Até onde sabemos, e que é muito pouco, Putin era um funcionário apagado da KGB, sem nenhum contato com o alto escalão da instituição. Conseguiu como poucos sair das sombras da insignificância para se tornar o braço direito do primeiro presidente eleito pelo povo na história da Rússia, Boris Yeltsin. Um feito respeitável.

O ex-KGB conseguiu erguer um país ajoelhado após o fim da União Soviética em 1991. Uma Rússia pobre, sucateada, violenta, carcomida pelas décadas de comunismo. Em dez longos anos, conseguiu recuperar minimamente a economia e o orgulho dos russos, impedindo o caos completo de uma sociedade excluída por várias gerações de quase tudo que o mundo poderia oferecer.

Reconstruir a economia de um país comunista em compasso de destruição, tem um custo altíssimo. Começando com a falta de comida, empregos, moeda forte, medicamentos, ordem social e esperança. Em seguida descobre-se podres de todos os tipos envolvendo seus líderes e como eles usaram os dividendos do país para si, ao mesmo tempo em que são revelados os crimes contra civis. A lista de abusos daria muitas páginas.

Vamos colocar na planilha de custos os acordos com os muito ricos (bilionários, cuja fortuna coincidiu com o início do governo do ex-presidente Bóris Yeltsin, e que atuam em áreas diversas, como engenharia, petróleo, futebol e mídia), os militares e a “turma” dos negócios escusos (podemos chamá-los de máfia). Alías, ele disse certa vez que “Máfia não é uma palavra russa”.

Para que um país comunista atinja o nível básico de organização é prioritário distribuir muito dinheiro, cargos e controle de regiões para todos eles. Caso isso não seja a agenda do dia, o caos socioeconômico se somará aos assassinatos, a evasão de divisas, pressões empresárias de todos os tipos. Sem tirar o olho dos militares comunistas que detém os “mecanismos práticos” para modificar o eixo do poder quando desejarem, promovendo golpes e carnificinas a torto e a direito.

Nesse contexto, correndo por fora há os formadores de opinião, com seus anseios por garantia da liberdade individual, livre comércio e um sistema democrático transparente. Pura “ingenuidade”. Sob a presidência de Putin, morreram empresários, jornalistas e dissidentes que o enfrentaram pela imprensa, pelos tribunais e politicamente. Um caso de repercussão mundial foi o assassinato da respeitada repórter Ana Politkovskaya em 2006, quando denunciou crimes de guerra promovidos pela Rússia na Chechênia. Um dia antes de seu artigo ser publicado e correr pelo mundo, foi morta dentro do elevador do prédio em que morava.

“Você pode fazer muito mais com armas e polidez, do que apenas polidez”, já disse Putin.

Quando tudo isso começa a ser resolvido num país comunista, o próximo passo é se aproximar de nações que sintonizem com os seus valores, o mais rápido possível, sob o ônus de ficar isolado e fragilizado perante os liberais do Ocidente, dando preferência aos amigos (antigos ou novos) que, se não possuem grandes forças militares e econômicas, têm poder de produzir muito barulho sobre amigos dos seus inimigos. Manter a fidelidade dessas “amizades”, dinheiro e armas são enviados.

A relações com a Síria, Líbano, Cuba, Venezuela, Irã, entres outros impedem parcerias amplas com os países democráticos do Ocidente. Com o apoio desses crápulas declarados, a Rússia mina a total influência americana na região e por tabela mantém Israel sob os constantes ataques de seus inimigos.

Putin entendeu muito bem a regra do jogo e fez mais. Seus fiéis amigos da cinzenta KGB, tornaram-se milionários da noite para o dia vendendo matérias primas que foram abandonadas no processo de dissolução da União Soviética, assim como armas leves e pesadas para outros países.  Putin deu liberdade total: os companheiros podiam “pegar” e vender, recebendo uma porcentagem justa pelas benesses.

Um cinturão de proteção governamental foi sendo criado pelos amigos dos amigos dos amigos….

O presidente russo ganhou muito dinheiro após sua ascensão ao Kremlin. Segundo o CEO da Hermitage Capital Management, Bill Browder, que trabalhou com investimentos russos de 1996 a 2005, afirmou em depoimento para o Comitê de Justiça do Senado dos EUA em 2017, fato de Putin ter aproximadamente US$ 200 bilhões em investimentos. Se ele estiver certo, Putin é o homem mais rico do mundo, ultrapassando bilionários ocidentais. Sua filha mais nova, Keterina, possui uma fortuna estimada em US$ 2 bilhões, de acordo com investigação feita pela Reuters. Além disso, o cidadão russo conhece bem os hábitos nada modestos de seu líder.

Mas “essas histórias” não interferem na imagem que o presidente russo propaga para o mundo: um homem forte, duro, lutador, vencedor e corajoso. Que defende seu país com foices, martelos e kalashnikovs. Ao contrário de seu colega, Donald Trump, que prefere outros tipos de holofote; Putin frequentemente aparece caçando, pescando, atirando, pilotando, discursando, nadando, se banhando no gelo, discutindo, negociando, cavalgando, lutando…. Não há registro na história política moderna de um presidente ser sua própria religião: o culto ortodoxo à personalidade. É plausível que ele queira superar a imagem que o comunismo criou para Lenin e Stalin.  

O objetivo de Putin em 2020 é perpetuar a sua história como o homem que salvou a Rússia da decadência completa. O homem biônico de 67 anos obteve seu último mandato com uma maioria histórica, quase 77%, agora precisa lidar com a periclitante economia e a crescente desconfiança social, a qual o cidadão já faz uma pergunta: “Será que não é a hora de outro rumo para o país”?

Uma silenciosa crise se aproxima, advinda da diminuição do poder de compra (até mesmo de alimentos) nos últimos quatro anos , expondo a frustração e ansiedade dos cidadãos. As sanções ocidentais, a fuga de investimentos e a mudança na aposentadoria foram sucessivamente a gota d’água para o desgaste. Os russos se mostram cansados do isolamento de seu país com o Ocidente. Se em 2017 só 24% dos cidadãos consideravam necessário melhorar definitivamente as relações com os Estados Unidos e União Europeia, esse índice subiu para 36% no ano passado. 

O governo tem medo que se cristalize a insatisfação e se espalhe por todo o país, criando um tecido social resistente. Autocrata que é, neutralizou a oposição combatendo-a pelas redes sociais e com ações policiais constantes em seus escritórios, casas e trabalhos. Restringiu o direito de manifestação, cria fake news contra seus dissidentes. Até mesmo a música, principalmente o rap, que conceitualmente é música de protesto por natureza está sob observação do governo.

Um fato é que o cidadão russo tem mais liberdade individual hoje do que na época soviética, mas comparado com democracias da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, ele está décadas atrasado. Czarismo, comunismo, putinismo….

“Ninguém e nada vai parar a Rússia no caminho para o fortalecimento da democracia e garantia dos direitos humanos”, disse Putin.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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