O silêncio assusta | Jornal Plural
9 abr 2020 - 22h52

O silêncio assusta

Em tempos incertos, a serenidade para nós torna-se inalcançável

O silêncio sentido nesse momento de crise desgasta nossas forças. Por não se saber o que esperar do dia de amanhã, fomenta o sentimento de impotência diante desta situação que está além de nossas ações. As angústias tendem a se estenderem com as consequências econômicas que vão bater na porta mais cedo ou mais tarde.

O brasileiro é um povo forte e resistente, sem dúvida. Vivemos tropeçando à cada década, e ainda sim estamos convencidos da crença de que “um dia de cada vez” é a receita para os problemas da sobrevivência e se possível da vida. Desde as primeiras horas da manhã nos ônibus, nos carros, e a passos rápidos em direção ao trabalho ou no encontro de um, praticamos a mudez dos resignados. Uma população de milhões de pessoas que não possue voz alguma. Não gritam, não estrebucham, não sentem a vida como a minoria de nós sentimos. Esse silêncio é perene, canibal e irrecuperável.   

Criamos uma sociedade que só funciona com o barulho das mentiras de uns poucos, acrescida da quietude resignada de milhões, que mata centenas de brasileiros em praças públicas todos os dias. A última preocupação desse estrato social é um vírus chinês.

Seja eu, você ou eles; a angústia age na mansidão do isolamento, e toma de assalto as certezas construídas sobre ideais relacionados à família, filhos, casamento, trabalho, dinheiro, sobrevivência… saúde mental e física. Na rotina do trabalho e da vida privada, o tormento se traveste de nomes como, aflição, ansiedade, excitação etc. 

Saber lidar “com a voz do próprio coração” no apagar das luzes no fim da noite é muito difícil, insuportável para muitos. Ele revela quem somos na verdade… “vazios”, “cheios”, “rasos”, “profundos”, “generosos”, “egoístas”? Nessas horas, mentiras são criadas com o objetivo de sobreviver às consequências que a vida proporcionou à pessoa. É uma das provas que somos vários: o “eu” que se mostra aos outros; o “eu” que os outros estão vendo e julgando; e o “eu” que conversa conosco desde o início da vida. Somos uma persona.

Ser cópia mal trabalhada de si mesmo é penoso, mesmo assim conseguimos construir e progredir. Portanto, o mundo da concretude que nos cerca é feito de duplos mal estruturados e angustiados. Zygmunt Bauman foi na fonte da angústia provocada pelo silêncio, “nós pertencemos ao falar, e não ao assunto falado… Pare de falar e você está fora. O silêncio equivale à exclusão”.

A quietação se mostra como a possibilidade de diminuir a falsidade funcional. Pode até mesmo ser uma utopia, pois sabemos que a consciência de cada um depende do seu inconsciente, que foi influenciado pela cultura desde o nascimento. É a roda da vida.

A quarentena pede eupatia e a renúncia da autoajuda e da autoestima exacerbada, um difícil desafio numa sociedade que vive de agrados e adjetivos positivos incessantemente. Renúncia aqui, significa “você conversar com você francamente”. Eu falo com Deus e ele não responde. Mentalizo situações positivas e nenhum resultado prático se apresenta. Recebo mensagens suavizadoras e nenhuma me convence. Esse é o pior e o melhor silêncio. Você chegou ao ponto mais obscuro da alma. Agora só resta se erguer, com uma sabedoria individual e intransferível. Só você sabe quais verdades e mentiras você criou para si. Jorge Forbes disse uma vez que “imagens podem ser roubadas, palavras podem ser copiadas, mas a intimidade real…esta não. Ela é indevassável, exatamente por não ser passível de representação.”

Quando a angústia esmaece, a pessoa consegue sentir um pouco de tranquilidade no coração, na alma, no ser, na mente e no corpo. Em algum lugar em nós ela se manifesta.

O desafio nesse momento é não morrer antes da hora e não levar os seus consigo. A fragilidade da situação, que é real, provoca a mudança dos comportamentos funcionais: trabalhar, fazer compras, levar os filhos à escola e por aí vai. Percebam, portanto, que o que chamamos de socialização diz respeito às funções repetitivas e desmotivantes. As possibilidades para lidar com o fundo da alma são bem-vindas, principalmente quando o conteúdo do que fizemos de nós mesmos é desvelado. Lidar abertamente com as angústias reais é um ganho de vida.

Prestar atenção no que o silêncio nos diz é uma das chaves para avaliar em que estágio estamos na vida consciente e concreta.  Quando tudo está funcionando bem, raramente queremos silêncio, com exceção dos iluminados, que já se dispuseram a entrarem em contato com esse conhecimento fundamental e atípico, para dar sentido ao que chamamos de existência.

No contexto da solidão, para muitos resta esperar a escuta atenta daquilo que se diz apenas para si mesmo, tornar-se íntimo deste código de comunicação, que muito sofisticado pode se manifestar pelos sonhos, sensações fugazes e angústias, ou seja, o impalpável. Um vírus pode ser a porta do antídoto para as patologias silenciosas da alma. O silêncio da espera exige aceitação e força.

Bom, o vírus está e ficará entre nós por longo tempo.  Que ele sirva de pretexto para um conhecimento mais humano de si, com fé ou sem fé vale a pena.

Até a próxima semana!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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