O atavismo da perda no Brasil | Jornal Plural
28 maio 2020 - 20h34

O atavismo da perda no Brasil

O consórcio ganhar/perder é a base de nossa sociedade

O Brasil está na pindaíba moral e econômica pela milésima vez. Acertos de um lado, confusões do outro. Mediocridades políticas aqui, resultados infelizes ali. Ganhos justos, perdas desnecessárias. É assim que esse país se comporta há décadas, numa dicotomia sisífica sem fim.

Já fomos o país dos caudilhos e visionários; dos guerrilheiros e ditadores. O país dos aventureiros, banqueiros e oligarcas. Já houve a vez dos proletários e dos intelectuais. O Brasil hoje está mais para o país dos bêbados e dos equilibristas. O que virá depois… é para depois. É uma lazeira.

É assustador o que conseguimos fazer com a política, e economia nos primeiros 20 anos desse século. Ninguém se salva. Nada dura ou permanece. Ganhamos isso, perdemos aquilo e aquilo outro. Sempre em déficit. Nelson Rodrigues foi um visionário, “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”. Voltamos à estaca (quase) zero.

Existe sem dúvida um certo atavismo em repetir o ganhar, e depois na mesma medida perder. Uma espécie de boicote para a estabilidade e riqueza social. Vivemos na impermanência estrutural, a realidade se mostra como um processo descontinuado, danoso para a população. É uma construção de país baseada na aposta, na sobra da riqueza que conquistou e que logo será dilacerada.

Perder é um verbo comumente utilizado no Brasil, através de seus sinônimos: desperdiçar, esquecer, abandonar, confundir-se, atrapalhar etc. O inato da geração de crise é uma realidade no país. Nós como povo, ainda não tivemos o gosto de viver sem “crises” e “déficits” desde o início da Primeira República.

Abaporu, pintura a óleo de Tarsila do Amaral de 1928.

Nós já tivemos a Primeira República (1889–1930) maculada, entre outras coisas, pelo clientelismo, o mandonismo, e o coronelismo; ou seja, a troca de favores para ganho próprio; o forte controle de proprietários de terras sobre a população, e consequentemente influenciando o rumo do governo. A primeira Constituição republicana é criada. A partir de então, mudanças de tempos em tempos nas regras do jogo da governança são a marca da administração brasileira.

Em seguida veio o Governo Provisório e Constitucional de Vargas (1930-1937), marcado pelo choque entre a administração militar e dos coronéis. Ganhos sociais, leis pró-trabalhadores e eleições indiretas garantiram a permanência do governante vigente. Inaugura-se nesse período a figura do populista, do culto à imagem do salvador do povo. Uma segunda Constituição foi promulgada.

O Estado Novo (1937-1945) perseguiu opositores, fortaleceu ainda mais o totalitarismo estatal, restringindo a liberdade democrática. Conflitos e mais conflitos atrasaram a entrada do Brasil no mundo do desenvolvimento político, social e econômico. Na sequência tivemos a Quarta República (1945-1964), a Ditadura Militar (1964-1985) e a atual, a Nova República, iniciada em 1985. Ufa!

Não é possível comparar o Brasil com outros país, principalmente os que são chamados de “primeiro mundo”. Países mais estáveis, mais ricos e com visão minimamente centrada de futuro para seu povo. São nações que decidem, cada qual em seu tempo histórico recente, que a estabilidade política e uma certa dose de ambição como nação, são as únicas maneiras de produzir riqueza por longo prazo. Ainda assim, guerras e conflitos regionais aconteceram na tentativa de minar por completo a estabilidade promovida pela pluralidade de aplicação do poder público.

Temos muitas explicações para o atavismo brasileiro do ganho seguido de perda: muitos anos de escravidão; o poder nas mãos de poucos; somos uma república jovem; o não investimento na educação social e intelectual do povo; a desigualdade social fruto da concentração de riqueza e corrupção; somos apenas uma junção de povos, e não uma civilização etc. Todos os estudos feitos de caráter sociológico, antropológicos e econômicos são de importância ímpar. Factíveis sem dúvida. Todavia, o nosso destino é marcado por uma força densamente enraizada, a da frivolidade do pensamento coletivo e político. Diante de tantas repetições que deveriam nos ensinar a não cometer erros crassos, segue-se uma desgraça sistêmica perene.

Quadro A Cuca, de Tarsila do Amaral. A obra é de 1924.

Como disse Paulo Francis, “talvez o Brasil já tenha acabado e a gente não tenha se dado conta disso”.

Para embrulhar essa raiz hereditária de querer ser o último da fila, criamos um conceito coletivo de otimismo exacerbado, em conjunto com a crença no realismo mágico que promove comodismo como cidadãos. Acreditamos que apenas “crer” e “trabalhar” será o antidoto contra os males e acalento para enfrentar (sempre) a trajetória de incertezas, que mais cedo ou tarde, causará danos a todos. Insistimos como sociedade em não reconhecer, nem exigir com firmeza a resolução de questões capitais, tais como a execução de decoro político exemplar e a cobrança de resultados dos mesmos.

“Todo otimista é um mal informado”, diria Paulo Francis.

Diante das recorrências de crises, é fato que não sabemos cobrar nossos direitos, visto que pagamos para tê-los. Ainda não tomamos ciência que só queixas não resolvem absolutamente nada. Para agravar a situação da não tomada de consciência republicana, temos a inundação de besteiras que assolam o país (parafraseando Sérgio Porto), por todos os meios de comunicação: quem acompanha a crônica diária, fica desinformado. Se acompanhar, fica mal informado.

Realidade ou pessimismo? Além do conceito das palavras, e suas aplicações, tanto uma quanto outra pede ações competentes, complexas, duradouras, com resultados sólidos de ganhos e impedindo, a todo custo, a necessidade de boicote coletivo que adoramos praticar.


Até a semana que vem!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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