Enquanto isso... | Jornal Plural
21 maio 2020 - 15h55

Enquanto isso…

Entre as mortes da covid-19, o balançar da economia e um débito social gigantesco, o Brasil se afirma como um país insolúvel

A realidade é uma só, inteira ou pela metade, a vida mundana contínua. Com trabalho ou sem trabalho. Com dinheiro ou sem dinheiro. Com plano médico ou sem algum, todos os dias estão como sempre estiveram… iguais.

Nada do que já existia, deixou de existir com a nova ordem global. Nenhuma epifania humanitária, mística ou religiosa se abateu entre nós. Os conflitos continuam, as brigas não foram apaziguadas nem tão pouco as dívidas foram perdoadas pela iminência de uma quebra econômica em larga e longa escala.

Um cotidiano com mais preocupações, além das já estabelecidas para termos uma vida minimamente digna, é o que temos agora.

É importante observar que a cada década, temos de aceitar e nos adaptar, desde as intermináveis exigências para se manter trabalhando; à utilização em excesso das ferramentas de comunicação, e agora, um vírus que veio para conviver conosco, como qualquer outro afazer.

As mentes pensantes “e” que comandam o mundo estão apreensivas com razão. Entretanto não será dessa vez que o mundo do capital cairá, e com ele levará (e lavará) as vergonhas que promovemos em seu nome nos últimos 120 anos. Houve muitos ganhos sem dúvida e, por isso, aqui estamos, com mais conforto coletivo em grande escala, como nunca existiu em nossa história humana.

Pintura Cabeça Atrás da Persiana, de Lasar Segall.

Em uma considerável parcela geográfica do mundo ainda não conseguimos universalizar o conforto material e o valor à vida. A máquina pragmática da vida continua a funcionar. É a mesma desde a Revolução Industrial. Não há planos melhores e aceitáveis para substituí-la: os miseráveis estão para morrer. Já os pobres estão no definhar de suas vidas. Os medianos estão diminuindo as suas reservas. Os ricos vivem a sua vida de rico… claro. E, por fim, os bilionários continuam rindo e projetando um mundo sem desigualdades. Já que é assim que o mundo funciona há tempos (não conheço outra versão da realidade na história da humanidade) portanto, vivemos na normalidade. Uma regularidade com um drama a mais.

Li certa vez num desses portais de positividades inalcançáveis que a “vida sem drama não seria tão linda quanto é”. Passem longe dessas frases que ajudam você a não se ajudar. Mas vamos voltar ao assunto do contexto da costumeira ordenação dos dias que estão aí, seguindo seu curso.

Na base da pirâmide, no contexto brasileiro, nada mudou: educação, trabalho, saúde e segurança continuam de “ruim” para “muito ruim”, e em alguns locais “péssimos”. Nada que tire o sono das pessoas que já nasceram com essa “qualidade” de serviço. Seria até uma agressão dizer que algo “melhorou”. Não por acaso, usamos costumeiramente a expressão “temos muito a melhorar”, pois ela não define absolutamente nada. Enfim, todos os países têm seus prós e, no caso do nosso, muitos contras.

Um adendo: o Brasil é um país pobre, o sétimo na lista de países com a maior desigualdade social, ficando honrosamente atrás (por enquanto) da África do Sul, Namíbia, Zâmbia, República Centro-Africana, Lesoto e Moçambique, de acordo com o último relatório do Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento, publicado em 2019. Informando que a parcela do 1% dos mais ricos no Brasil concentra 28% do PIB do país. Segundo o IBGE (2019), temos 13,5 milhões de miseráveis, e 54,8 milhões de pobres: 78 milhões de pessoas! A diferença entre um e outro se reduz a miúdos reais.

O pensamento do filósofo Emil Cioran cai bem, “o limite de cada dor é uma dor maior. Enquanto que os outros, redentores e profetas, possuídos por uma ambição sem limites, disfarçam seus objetivos sob preceitos enganosos; afastam-se do cidadão para reinar nas consciências, apoderar-se delas, implantar e criar nelas estragos duráveis, sem ter que, por isso, enfrentar a acusação merecida de indiscrição ou sadismo”.

Para filósofo Emil Cioran “o limite de cada dor é uma dor maior”.

No Brasil, a irresolução para com a pobreza é atávica e beira um orgulho insano. A situação é insolúvel (e insalubre) para os miseráveis e para o restante da população. Para quem nasceu em 1973 (meu marcador temporal pessoal), é fato que nada mudará na estrutura de pensamento que sustenta esse sistema que elimina em massa a vida de 1/3 do país.

Por mais duro que seja, a crise sanitária no Brasil é mais um acontecimento que tira o foco do essencial, atrasando por mais décadas a necessidade de termos vergonha de sermos nulos com a doença maior do nosso país: a falta de sentir constrangimento por não querermos fazer absolutamente nada para virar essa página de nossa velha história. Lembrem-se, temos mais de 500 anos de história, não há mais desculpas para estagnação crônica.

Nesse localizado e esquecido contexto, o vírus não é nada.

A esperança é manifestada para diferentes fins. Uma camada pede aos deuses que haja comida para o dia de hoje. Uma outra linha de ação, pede trabalho para não deixar de comer no dia seguinte. Já em outro patamar de elaboração da questão, as preces são adotadas com fins de gratidão ao que sem tem, em detrimento das duas camadas anteriores. Subindo de patamar não há uma aparente necessidade de pedir ao além, na medida em que a questão é concreta, destituída de quesitos milagrosos e, portanto, esse não é o veículo de aquisição de bens ou respostas matérias que não dependam de si mesmo.

Continuando com Cioran, “o remédio para os nossos males é em nós mesmos que devemos buscá-los, no princípio intemporal de nossa natureza. Se a irrealidade de tal princípio fosse demonstrada, provada, estaríamos irremediavelmente perdidos”.

Em outras palavras, somos seres produtores de fantasiosas esperanças. Eis uma das belezas do viver.


Até a semana que vem!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Últimas Notícias