A China do coronavirus | Jornal Plural
5 mar 2020 - 20h49

A China do coronavirus

Um vírus escancara o totalitarismo de Pequim

Criado pelo jurista e filósofo nazi Carl Schmitt o conceito de totalitarismo (totalstaat) prega a servidão do indivíduo para com o Estado; o controle da vida pública e privada; o militarismo como única forma de ordem e valor social; o culto à personalidade viva ou morta e a repressão seguida de assassinato de seus críticos. Resumindo: uma ideologia que produz terror como mantenedor da ordem. Como sabemos, o totalstaat foi adotado rapidamente pelo fascismo, nazismo e “stalinismo” logo após sua conceituação.

“Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”, dizia Mussolini. Tanto o totalitarismo de “esquerda” quanto o de “direita” se opõem ao pensamento democrático liberal. A lista de países com essa patologia ideológica é extensa: Sudão, Líbia, Síria, Irã, Bielorrússia, Vietnã, Tunísia, vários países africanos, Cuba, Venezuela, Coreia do Norte, Rússia e a…China.

Um breve contexto

Pois bem, a China se mantém nas manchetes diárias de notícias há muitos anos, seja por sua crescente economia, seja pelos embates comerciais com os americanos, entretanto essa notoriedade, pelo menos em parte, é uma miragem. É verdade que 200 milhões de chineses afortunados trabalham inseridos num mercado global em expansão e desfrutam do seu padrão classe média. Os 1 bilhão restantes permanecem entre as pessoas mais pobres e mais exploradas do mundo, carecendo de direitos e serviços públicos minimamente dignos. Vivem e trabalham em locais insalubres, sem nenhuma perspectiva de melhoria social.

São esses trabalhadores que mantém uma fatia considerável da economia mundial funcionando. A exploração sem meandros do ser humano mantém a ordem, a produção e o pensamento da grande maioria da população focada nas diretrizes governamentais.

O Partido Comunista Chinês, com seus 60 milhões de membros, há muito determinou que o rumo da China no mundo é transformá-la na fábrica das fábricas, onde mais cedo ou tarde, países democráticos ou não, viriam negociar a produção de seus bens de consumo a preços mais baratos, legitimando seus métodos de produção de riqueza. Mao diria “eles precisarão dos nossos braços e do nosso dinheiro”. Paris que o diga.

O consumo de bens pelo mundo rasga em pedacinhos a Declaração Universal dos Direitos Humanos, redigida em 1948 pela ONU. Nós aceitamos os produtos produzidos pelo totalitarismo chinês porque eles nos proporcionam mais conforto, saciando nossas vontades, e tanto faz as condições através das quais ele foi feito. A única ideologia capaz de enfraquecer outras ideologias com seus conceitos magnos é a do dinheiro. Simples assim. Vale lembrar que a governança vertical rígida do comunismo não tem como objetivo desenvolver a sua sociedade, e sim manter o poder concentrado em poucas mãos. Controlar tudo e todos requer muito dinheiro, energia e zero empatia. Segundo a Reuters, a China conta com um orçamento anual de US$ 200 bilhões para o mecanismo de vigilância total, que entre outros aparatos, possui cerca de 200 milhões de câmeras de vigilância espalhadas pelas principais cidades e planeja instalar mais 626 milhões até 2022.

O vírus ataca o governo

O coronavírus fez o governo chinês abrir (a contragosto) os olhos para a ineficácia de seu sistema de controle social. Assim que as primeiras informações sobre a doença saíram dos muros chineses, viram-se as contradições do funcionamento de suas políticas públicas.

Caso #1

Em dezembro passado, o oftalmologista Li Wenliang  teve contato com pacientes do Hospital Central de Wuhan e logo foi diagnosticado com um tipo de pneumonia que teria o nome de Covid-19 – o corona vírus. Ele foi o primeiro a publicamente revelar pelo WeChat (WhatsApp chinês) que uma epidemia estava a caminho,… “sete pacientes de um mercado local de frutos do mar foram diagnosticados com uma doença do tipo Sars e ficaram em quarentena em meu hospital”…, disse ele. As mensagens trocadas com seus colegas médicos foram logo identificadas pelo governo, e Wenliang foi preso por “espalhar mensagens falsas” e forçado a assinar um termo em que admitia ter “interrompido a ordem social”. Li Wenliang morreu em fevereiro em decorrência do vírus.

Caso #2

Esse é o padrão de reação do governo chinês: negar tudo em primeira instância. Em segunda instância prender os que insistem em viver a verdade. Em terceira instância, os isolamentos das áreas afetadas e só depois de tudo isso, avisar a comunidade internacional. Foi assim com a Aids, o Sars e agora o coronavirus.  

Repórteres estrangeiros e locais que tiveram acesso a moradores da região de Wuhan – o epicentro da doença e a sétima cidade mais importante da China – afirmam que o governo da cidade permaneceu em reuniões políticas por dias, até tomar alguma providência contra a epidemia eminente. Uma inércia burocrática típica de sistemas comunistas que custou caro, como sabemos.

Caso #3

Pequim demorou semanas para fechar os mercados de animais selvagens (que comercializam ratos, cobras, aranhas, gatos, roedores e muitas espécies de aves) já ciente que o surgimento do vírus foi fruto do consumo de algum tipo de animal com essas características em Wuhan. O temor de manchar a imagem de um costume alimentar milenar no desenrolar de uma epidemia bacteriológica, mostrou que a China nada mais é que um país culturalmente retrógrado.

Alguns animais são consumidos por seu gosto, como uma iguaria, enquanto outros são consumidos como prática medicinal. Sabe-se que restaurantes sofisticados em várias partes da China servem pratos como sopa de morcego (com todo o morcego dentro), cobra frita, pata de urso assada, e outras “excentricidades” estão no cardápio.

Há um proposital desconhecimento de que mais de 70% das infecções emergentes em seres humanos provêm de animais (selvagens).

Caso #4

Em Pequim, a verdadeira privacidade só é possível em locais públicos; qualquer comentário de teor “crítico” sobre a epidemia pelo app WeChat é identificado pelos algoritmos de controle social, sendo logo apagados e os dados do usuário repassados para os órgãos competentes. Em até 72 horas o indivíduo será chamado para dar explicações. Lembrando que a China tem seus próprios portais de busca e conteúdo, Google, Facebook, Twitter, Instagran, YouTube e WhatsApp estão proibidos na China. Eles criam sua própria realidade face à distopia.

O departamento de propaganda chinês deu ordens claras a mídia oficial após o anúncio oficial da epidemia feito pelo presidente Xi Jinping em 20 de janeiro de 2020: apenas divulgue informações positivas sobre a realidade do vírus.

Com medo do governo, os cidadãos chineses ficam teatralmente passivos e silenciosos diante de todo tipo de situação de risco, seja ela real ou virtual. O chinês das grandes cidades sabe que não pode acreditar que haverá liberdade de expressão e que a punição pelas autoridades locais é rápida. É uma vida vigiada 24 horas pela tecnologia, pela mentira e pelo medo.

Caso #5

Obcecada pela centralização, Pequim proibiu iniciativas médicas internacionais, decretando que a assistência social deveria ser canalizada apenas através de organizações afiliadas ao Partido. Ciente da natureza desestabilizadora de uma crise que afeta todos os seus cidadãos, qualquer que seja sua classe social, o todo-poderoso líder Xi Jinping desapareceu dos holofotes, deixando seu primeiro-ministro na linha de frente. 

A China não tem preocupação alguma se sua imagem fique degradada perante à comunidade internacional, pois ela sabe que isso ocorre no âmbito intelectual e midiático. No interior das salas de negócios, a relação de compra e venda continuará sem maiores transtornos.

Bom, eu não toquei na questão econômica da crise, mas quem em sã consciência desejaria a queda da China?

Até a semana que vem!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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