A bruxa do Irã | Jornal Plural
16 jan 2020 - 22h42

A bruxa do Irã

O regime de Teerã diz claramente que quer o fim de Israel

No funeral do general iraniano Qassen Soleimani, sua filha, a jovem Zeinab Soleimani proferiu para uma multidão de pessoas em Teerã, que a morte de seu pai traria dias mais escuros para os Estados Unidos e seus amigos sionistas (diga-se Israel). Soleimani até então o segundo homem mais importante do Irã foi morto numa operação pontual por um míssil americano no último dia 3 janeiro em Bagdá, Iraque.

As lágrimas do aiatolá Khamenei em frente ao esquife, o cortejo fúnebre com milhares de pessoas, e as pragas de Zeinab, são imagens arquetípicas: o rei chorando pela morte do filho, a corte atrás dele, os súditos em procissão e a bruxa que profere tempos negros com a perda do comandante.

A bruxa é a mãe má, segundo Freud e a mãe negativa de Jung, e seus ditos afetam negativamente a psique coletiva que não é iluminada pela consciência. Zeinab fez muito bem esse papel, seu discurso foi político, oficial.

O Irã patrocina a desarmonia no Oriente Médio (e pelo mundo) desde o fim da década de 1970, quando os aiatolás foram alçados ao posto de seres supremos, fechando o país para o Ocidente com temor da sua influência cultural, e tendo como política externa regional a eliminação de Israel. Desde então Teerã patrocina grupos extremistas por todo o Oriente Médio e norte da África, como os “famosos” Hezbollah no Líbano e Hamas na Palestina, que tentam de todas maneiras possíveis ceifar a vida dos judeus e de seus aliados na região.

Soleimani era o cérebro militar e geopolítico dessas ações “por procuração”, um grupo menor produz ações para desestabilizar oponentes e assim enfraquecê-los, e quem sabe logo depois dar um golpe fatal. Ele foi um linha-dura dominante, que construiu alianças e milícias no Líbano, Iêmen, Iraque e Síria, à custa de milhões de dólares, enquanto as sanções dos EUA empobrecem muitos Iranianos. Soleimani arquitetou o atentado que matou mais de 200 americanos no Líbano em 1982.  Se envolveu diretamente na carnificina no núcleo da comunidade judaica de Buenos Aires em 1994, que matou mais de 80 civis e feriu mais de 200. A ação que matou 6 turistas israelenses e deixou 32 feridos na Bulgária em 2012…são apenas as primeiras linhas de seu imenso currículo.

Em 2015, Khamenei afirmou em nota oficial que “(…) primeiro vocês (Israel) não estarão por aqui nos próximos 25 anos e, se Alá quiser, não existirá regime sionista daqui a 25 anos. Segundo, durante este período, o espirito de luta, do heroísmo e da Guerra Santa, deixarão vocês preocupados a todo momento”.  

Um modelo de pensamento arcaico e grotesco, fora dos anseios do nosso tempo, da realidade do bem-estar promovida pela produção e consumo de bens. O desejo da maioria dos povos espalhadas pelo mundo. Paradoxalmente, igualmente querem consumir todos os tipos de bens matérias produzidas pelos infiéis do Ocidente.

Como “mundo” me refiro aos Estados Unidos e Israel. Graças a esse duo, temos o cinema, seus cineastas…Woody Allen. Temos artes plásticas e visuais que reinventaram o mundo das imagens. Temos a literatura, pensadores incríveis. Temos a internet, as ciências, as curas, uma noção de organização e postura social, direitos e deveres, empatia mínima para com a vida, a valorização da mulher, o ir e vir. Temos a crítica ao sistema, a liberdade de orientação sexual. Temos uma ampliação crescente do saber no Ocidente, graças a esses dois povos.  Isso é um fato!

O Ocidente não é o dono da racionalidade, entretanto não é o lugar onde a racionalidade é suprimida. O Ocidente criou suas crenças com o aval da Razão: a crença na ciência, na razão, no progresso, na economia, na consciência coletiva.

E o Irã, o que ele proporcionou para o mundo nas últimas décadas? Essa é uma pergunta objetiva.

A produção e manutenção de ódio e destruição é o PIB de vários países, eles não produzem ou vendem outra coisa.

Um outro fato: sem a interferência americana, estaríamos em pior situação. A Europa não dá conta e a Rússia não tem interesse em interferir no sangramento dos seus colegas americanos e europeus. Israel fica de vigília 24hs por dia.

Seja pela criação do Estado de Israel (para muitos desprezando as realidades árabes na região), seja pelo “grande Satã Estados Unidos” com seus perigosos prazeres, seja por qualquer outro motivo que eles possam representar, Cuba, Irã, Iraque, Marrocos, Líbia, Líbano, Kuwait, Argélia, Afeganistão, Paquistão, Tunísia, Arábia Saudita e outros, não aceitam a existência, permanência e riqueza dos judeus naquela região. Um desespero constante para quem ainda acredita que existe luz no fim de tudo.

Penso aqui que a compreensão é um mecanismo cuja especificidade não é somente da ordem da cultura, é também da biologia. Quem nasce com ela, produz um mínimo de mundo melhor, na medida em que possui a oportunidade de agregar ao status quo chances de transformações que acompanham as novas necessidades da sociedade.

Zeinab a Bruxa reforça a imagem pavorosa de si mesma, já cristalizada no Ocidente e estruturada desde sua Revolução Islâmica em 1979, tornando-se para as gerações posteriores, descendentes dessa ideologia, um fundamento axiomático.

Ela manifesta a continuidade da negação das conquistas psicológicas, sociais e intelectuais do nosso mundo nos últimos 200 anos. A jovem bruxa persa vive uma ficção, não possuindo ferramentas de reflexão. Seu adestramento gerou clausura, portanto ela não sabe, não experienciou nada fora do reino. Nascida, como tantos outros jovens, num território ideológico e fundamentalista, o exercício da alteridade não tem espaço. Vive numa matrix do começo dos tempos. Diferente de muitos jovens de sua geração, uma imensa população (dois terços dos 78 milhões de iranianos têm menos de 35 anos segundo pesquisa da Deutsche Welle), muito bem-educada e consciente das tendências culturais e econômicas contemporâneas do Ocidente.  Por esse motivo estão conscientes o rumo político de seu país.  Ávidos por liberdade e o que ela proporciona, cerca de 15 mil jovens deixam o país todos os anos. 

O Oriente Médio não é apenas um lugar do conflito árabes x israelenses ou islâmicos x judaicos, também é palco de exaltações onde se enfrentam os antagonismos fundamentais do globo: os hiperdesenvolvidos contra os menos desenvolvidos, o progresso material em oposição ao atraso ideológico, os países jovens contra países velhos, o Oriente contra o Ocidente, o secular contra o religioso, a razão contra o desconhecimento. Uma zona árida, perigosa e velha demais. Nem as Américas, nem a Europa conseguem impor um propósito comum, um viés para um progresso material, intelectual e porque não religioso. Eles são impotentes. Nós também somos.

O filósofo francês Edgar Morin tem uma frase ótima para os nossos repetitivos dias “ (…) trata-se de civilizar as relações humanas”.

Todas essas questões estavam na ponta do míssil que pulverizou Soleimani. Como uma hidra, outras cabeças surgirão e o sistema continuará a sua retroalimentação. O efeito rebote de todo luto e dor, pede-se o surgimento de um gozo. O motivo é que a morte cria o mártir, produz orgulho totêmico, reajusta laços, instituí uma nova crença: desejo e confiança em seguir com seus obscuros objetivos.

Enquanto a nossa espécie não estiver em extinção nada irá mudar.

O contra-ataque americano acontece por várias frentes além do militar, e uma delas é o poder da indústria cultural. O Irã tem pavor e ódio total desse tipo de ofensiva, um dos motivos para seu fechamento cultural com o Ocidente.

Aqui uma pequena lista de filmes americanos pós 11 de Setembro que lidam com a questão Oriente Médio. Com destaque maior para Argo, uma história real passada nos primeiros dias da Revolução Islâmica no Irã em 1979:

Syriana – 2005

Soldado Anônimo – 2005

Leões e Cordeiros – 2007

Guerra ao terror – 2008

Zona Verde – 2010

Argo – 2012

A Hora mais escura – 2012

Até a semana que vem!

Silvio Eduardo Crisóstomo

Artista Visual, Cineasta, Coach para a Fotografia e Vida.

Últimas Notícias