A anatomia do ódio | Jornal Plural
4 jun 2020 - 16h50

A anatomia do ódio

Nascemos com uma força destruidora e incontrolável

Nós expressamos o ódio com emoções negativas, intensas e objetivas: o desprezo, a raiva, o nojo, fúria, ira etc. Causado pela crença numa relação de contraste, de que o outro é um ser baixo, sem caráter e perverso. Um estado de excitação e de obsessão pelo odiado toma o corpo, e estimulam silenciosamente desejos de vingança. O julgamento é inevitável, e o impulso de retaliação é desastroso. Todo “troco” provoca danos colaterais, físicos, financeiros e humanos em todos nós.

Podemos sentir o ódio como foro individual (colegas de trabalho, vizinhos, políticos) e também como país, nação. Vide o nazismo, guerras étnicas etc. Num estágio mais objetivo e incivilizado, destinamos contra negros, índios, judeus, LGBTQI+, mulheres, crianças, pobres … a lista é grande.

Divergências identitárias que são obrigadas a conviver num mesmo ambiente geográfico, é brutalidade na certa. A hostilidade em relação a um grupo diferente, aumenta a solidariedade e a coesão do próprio grupo, fortalecendo-o e justificando a violência iminente. Somos seres com a capacidade de odiar e destruir sem aviso prévio.

Sentir ódio é ruim? Não é essa a questão. Sentimos.

O ódio produz uma desvalorização sistemática do indivíduo. Sua identidade como ser humano é destituída, tornando-se “uma coisa” na mão de um grupo, de um poder institucionalizado. A desumanização é transmitida de geração para geração, numa dialética negativa entranhada nos hábitos e costumes da sociedade.

Dança da Morte, obra de Otto Dix.

Odiar em grupo é mais fácil e seguro. O estimulo constante dos pares propicia abusos sem limites, aumentando sua autoestima (como indivíduo ou grupo) e os impedindo de refletir sobre suas ações. O ódio é especialmente mais grave quando, além de contaminar pensamentos e emoções, prega a condenação moral e física dos odiados. Um prazer intrínseco pela destruição do outro. Uma paixão incondicional pela animalidade.

Na psicanálise de Lacan, o ódio estabelece-se pela relação entre o saber e o querer do outro. O que ele quer afinal? Nas paixões do Ser, encontramos três possibilidades de vedar uma falta que o indivíduo carrega em seu inconsciente: temos o amor ao saber do outro, suposto como Um. Já na ignorância, trata-se de um não querer saber do vazio que o outro carrega em seu saber. O ódio por sua vez tem o propósito de sentir o gozo no vazio do saber do indivíduo. Se existe amor, um conceito que é trabalhado arduamente por certos povos, o preço pago pela sua valorização é o ódio. Simples assim.

“O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e existe somente enquanto o grupo se conserva unido.”

Hannah Arendt.
Hannah Arendt

Ideologias, religiões e seitas produzem ódio coletivo desde que o mundo existe. Não é possível conter seu crescimento subterrâneo e explosivo pela objetiva razão de que (mais uma vez), se existe muito amor, o contrário é na mesma proporção. Uma condenação humana? Uma harmonia injusta? Uma sina da existência? Perguntas difíceis, com respostas estudadas por todas as áreas do saber do comportamento humano: antropologia, sociologia, história, psicanálise e psiquiatria.

Como podemos enfrentar o ódio sem praticar violência? A história do homem afirma que isso não é possível. Nós o vigiamos, controlamos, sancionamos, punimos, e mesmo assim ele está aí, afirmando-se como uma força, cujas as raízes são profundas e além de nossa total compreensão.

Impossível viver sem ideologias. Por outro lado, é um inferno conviver com o fanatismo de doutrinas visivelmente arcaicas, que insistem em preservar as bestialidades que seus antepassados promoveram. Portanto, um imaginário venenoso e imperativo é adotado por certos povos, etnias e grupos sociais espalhados pelo mundo. Eles negam (ou não entendem) a conquista do entendimento do que chamamos de razão, utilizando brutalidades de todos os tipos com intuito de impedir dissidências. Se a razão prega a conversa, o ódio prega a ação, explicita e desmedida.

“O bem está condenado a ser fraco, isso quer dizer que é preciso abandonar todo sonho de perfeição, de paraíso, de harmonia. Ele sempre é ameaçado, perseguido. Isso quer dizer também que ele induz a uma ética de resistência.”

Edgar Morin.
Edgar Morin é um antropólogo, sociólogo e filósofo francês.

Com a tecnologia, tomamos conhecimento do ódio que carregamos, de tudo e de todos. Vamos aceitar que, como seres humanos, portamos a pulsão animal que foi sofisticada pela evolução dos tempos, e é posta à mesa com requintes de crueldades inimagináveis. Um brinde a seleção natural de Darwin!

Contraditoriamente foi (e ainda é) pelos efeitos tóxicos da aplicação do ódio, que tomamos conhecimento pouco a pouco da necessidade de criação de leis duras e minuciosas, que nos permitem conviver com um mínimo de segurança e controle dessa toxina. Sendo um indivíduo, um grupo, um país, a energia investida para manter a ordem social entre as diferenças é gigantesca.

“É impossível que o mal desapareça. Sim, mas é preciso tentar impedir seu triunfo”, já observava Sócrates em 369 a.c.


Até a semana que vem!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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