Sonhos não envelhecem | Plural
7 jun 2019 - 12h00

Sonhos não envelhecem

Em sua estreia em Plural, Sérgio Menezes fala sobre show de Milton Nascimento em Curitiba

Poderia ter escolhido título melhor, menos previsível, para o meu texto de estreia aqui no Plural, sobre o show da turnê Milton Nascimento Clube da Esquina, em Curitiba, no último sábado, dia 1º, no grande auditório (lotado) do Teatro Guaíra. A ideia da turnê de Milton e sua banda foi trazer de volta ao palco um disco clássico: Clube da Esquina, lançado em 1972, tocado quase na íntegra. Quem foi ao show também poderia esperar algumas faixas do segundo disco do “Clube”, Clube da Esquina 2, lançado seis anos depois. Foram oito faixas. “Canción Por La Unidad Latinoamericana”, do cantor e compositor cubano Pablo Milanés, adaptação de Chico Buarque, em off, durante a despedida dos músicos e do show, com a equipe de produção chamada ao palco por Milton, a começar pelo seu segundo filho adotivo, Augusto, enquanto todos tentavam reaver a consciência para achar a saída do teatro.

Capa do disco Clube da Esquina

Milton Nascimento é um caso notório de timidez, disfarçada por bonés, óculos escuros, reclusão e nada sobre sua vida pessoal. Em tempos de histeria e afirmação nas redes sociais, em que supostos artistas se valem justamente disso, Milton é uma exceção. Sempre foi. Mas ele falou no show. Do seu jeito, contido, nervoso, conversou com a plateia repetindo duas ou três histórias que tem contado nos seis shows da turnê até aqui. Milton Nascimento Clube da Esquina começou em março, em Juiz de Fora, onde ele mora, e já passou por Belo Horizonte, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro antes de chegar a Curitiba, sempre com lotações esgotadas.

Quem acompanha o Clube já conhecia uma das histórias de Milton, exatamente a do surgimento do Clube da Esquina. Tocando contrabaixo na noite com o Berimbau Trio ao lado de Wagner Tiso e do baterista Paulinho Braga, Bituca resistia à carreira de músico, optando pela segurança de um emprego como escriturário no escritório das Centrais Elétricas de Furnas. Foi Márcio Borges quem o convenceu a ver um filme que estava passando no Cine Tupi, Jules et Jim, do diretor François Truffaut, em 1964. Por alguma razão, Marcinho, que já tinha visto o filme, achava que o amigo também deveria vê-lo. Entraram no cinema para a sessão das duas e só saíram às dez horas da noite direto para o apartamento da família Borges, no Edifício Levy, centro de Belo Horizonte. Compuseram três músicas, Márcio escrevendo e Milton tocando violão: “A paz do amor que vem (Novena)”, “Gira, girou” e “Crença”, as duas últimas gravadas três anos depois, em 67, no primeiro disco de Milton, Travessia.

Jules et Jim, de François Truffaut

Em seu livro Milton Nascimento e Lô Borges Clube da Esquina (Coleção O Livro do Disco, Cobogó, 2018), Paulo Thiago de Mello afirma que “o papel de Bituca como alma central do Clube da Esquina nasce nesse momento crucial proporcionado por Truffaut e suas personagens… Mais do que isso, a conversão de Milton em compositor deu a ele uma autoridade, reconhecida por todos os envolvidos naquela efervescência criativa, que permitiu reunir em torno de si a constelação dos membros do Clube da Esquina.” A esquina propriamente dita é a das ruas Divinópolis com Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza em BH, próxima a um bar. Ali, sentados numa calçada em subida, Milton e outros futuros integrantes do Clube cantavam, tocavam e compunham inspirados pelos Beatles e as montanhas da Serra do Curral.

Milton Nascimento e Lô Borges Clube da Esquina, de Paulo Thiago de Mello

Bituca passou a frequentar o Edifício Levy sempre que podia, sendo acolhido como um filho pelos Borges, o décimo segundo. Eram cinco irmãs e seis irmãos, quase todos tocavam e cantavam. Milton vivia de perto o que talvez o tivesse encantado em Jules et Jim, o triunfo da amizade. Um dos meninos, Salomão (mesmo nome do pai), não tirava os olhos de Bituca, fascinado com a música, o violão, o talento e o carisma de Milton, que também passou a prestar atenção nele, chamado simplesmente de Lô pelos irmãos.

Em 1968, a convite de Eumir Deodato, Milton grava o segundo disco, Courage, nos Estados Unidos, acompanhado por orquestra e sopros. Além de Eumir Deodato, que produziu, arranjou e regeu os músicos, Milton foi acompanhado por Airto Moreira na percussão, Hubert Laws na flauta e Herbie Hancock no piano, entre outros. No ano seguinte, lança Milton Nascimento, onde aparecem novas parcerias com Fernando Brant, Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Nelson Ângelo. Em 70, Milton traz a banda Som Imaginário acompanhando Bituca, dois novos parceiros, Toninho Horta e Lô Borges, além dos músicos Wagner Tiso, Luiz Alves, Robertinho Silva e Naná Vasconcelos. É um disco importante na discografia de Milton. Ali estão “Para Lennon e McCartney” (Márcio, Lô e Fernando Brant) e “Clube da Esquina” (Milton, Lô e Márcio). Lô também canta e toca na faixa. As duas estavam no setlist do último sábado. Milton era o marco zero do que viria dois anos depois.

Liberdade e colaboração

Em 1972, Milton Nascimento era um artista em ascensão dentro do que foi chamado de Música Popular Brasileira, categoria de nomeação criada pela crítica, que começava a ganhar relevância por aqui. A MPB tentava um amálgama que parecia impossível: juntar o legado da canção universitária dos festivais; da bossa-nova e da esquerda bossanovista que revalorizou o samba de morro, da inventividade antropofágica do movimento tropicalista, do pop-rock da Jovem Guarda ou da canção romântica popular. Ao mesmo tempo, novas informações e fusões começavam a aparecer e a tornar mais difícil a tarefa de uma suposta MPB. Na mesma época, os bailes black no Rio de Janeiro apresentavam a nova música negra. As fusões de músicas regionais, principalmente do Nordeste, traziam guitarra, zabumba e novos cantadores urbanos. Em tese, o metagênero MPB deveria reunir Odair José e Tim Maia, Roberto Carlos e Alceu Valença, Elis Regina e Paulo Sérgio. Não tinha como dar certo. A proposta de Milton para o disco que queria gravar era outra, bem mais ambiciosa.

Clube da Esquina foi feito em um ano e meio, depois que Milton convenceu os executivos da Odeon a bancarem um disco, duplo, que ele dividiria com um garoto desconhecido de apenas 20 anos. O primeiro álbum duplo lançado no Brasil saiu um ano antes de Clube da Esquina, Fa-tal – Gal a todo vapor, gravado ao vivo. Era uma novidade assustadora, mas não para Milton e Lô, que já tinha se mudado para a apartamento de Bituca no Rio de Janeiro junto com Beto Guedes. Depois, alugaram um casarão na praia de Mar Azul, Piratininga, em Niterói, onde Milton e Lô continuaram a criar as 21 canções do Clube da Esquina. Somente “Dos Cruces” e “Me deixa em paz”, de Monsueto e Ayrton Amorim, cantada por Milton e Alaíde Costa, não eram originais do Clube. Rubinho, Tavito, Robertinho Silva, Luiz Alves, Toninho Horta, Nelson Ângelo e Paulinho Braga se juntaram ao grupo no casarão. Os compositores Fernando Brant e Márcio Borges, que moravam em BH, apareciam por lá para conhecer os temas e fazer as letras, além de Ronaldo Bastos. Os arranjos eram entregues a Eumir Deodato, Paulo Moura e Wagner Tiso, tudo sob a orientação de Milton, mas com total liberdade criativa e abertura para que todos pudessem colaborar na construção do disco. Clube da Esquina foi concluído nos estúdios da Odeon, no centro do Rio, e lançado em março de 1972.

Lô Borges e Milton Nascimento

A versão brasileira da revista Rolling Stone coloca Clube da Esquina como como o sétimo melhor disco brasileiro de todos os tempos. Coincidentemente, o primeiro e o sexto colocados na lista também são de 72, Acabou Chorare (Novos Baianos) e A Tábua de Esmeralda (Jorge Ben). Nesse mesmo ano, ainda seriam lançados Transa (Caetano Veloso), Expresso 2222 (Gilberto Gil), Elis (Elis Regina) e A Dança da Solidão (Paulinho da Viola), todos discos definidores da nova música brasileira junto com Clube da Esquina. Outra coincidência: o Clube também está presente no LP de Elis em “Nada será como antes” e “Cais”, ambas do disco do Clube, e em “Casa no campo”, de Tavito e Zé Rodrix, ex-integrande do Som Imaginário. E uma curiosidade: a famosa letra de Clube da Esquina 2, escrita por Márcio Borges, não está no Clube da Esquina. A faixa que aparece no disco é instrumental. A versão completa da canção só apareceria em Via Láctea, terceiro disco de Lô Borges, de 79. Lô que lançou seu disco de estreia, Lô Borges, aquele com o par de tênis da capa, também em 72.

Ouvintes da Rádio Eldorado FM e leitores dO Estado de São Paulo elegeram Clube da Esquina o segundo melhor disco brasileiro da história. A crítica especializada, naturalmente, não avaliou bem o álbum. A começar pela capa, do fotógrafo Cafi, sem nenhuma indicação do nome do disco ou dos artistas; o formato; a inclassificável fusão musical que o trabalho propunha, onde a toada e o acalanto estavam ao lado do jazz-rock, do pop britânico, da música latina, do rock progressivo e até do samba; as vinhetas; as letras compostas e editadas como filmes (lembre-se de que o Clube começou como um cine-clube); era tudo arejado demais, singular demais, introspectivo demais, novo demais. E é justamente isso que faz de Clube da Esquina um disco que dá a impressão de não pertencer a tempo algum, portanto capaz de se impor e encantar em qualquer tempo. Essa é a sua beleza. Canções que explodem lenta e insistentemente durante anos, décadas, alojadas em algum lugar de nossa memória afetiva.

Capa de Clube da Esquina 2

Clube da Esquina 2, lançado em 1978, e com mais sócios no Clube, também é um álbum duplo e é muito bom, mas não teve, nem de longe, o mesmo impacto do primeiro. Em que pese a timidez e os 76 anos de Bituca, ele conseguiu uma conexão genuína e intensa com a plateia. Destaque também para o cenário de Os Gêmeos e a banda de apoio, formada por alguns músicos que já acompanham Milton há anos e pelo novato Zé Ibarra, 22 anos, vocalista da banda Dônica, que fez as vezes de Lô, a quem o amigo e “irmão mais velho” dedicou o show. A turnê Milton Nascimento Clube da Esquina agora parte para a Europa. “Sou do mundo, sou Minas Gerais…”. “Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina” é também o nome do livro de Márcio Borges, lançado em 1996 pela Geração Editorial. Pensando bem, não poderia mesmo ter um título melhor lá em cima.

Setlist do show em Curitiba

  1. “Tudo Que Você Podia Ser” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972)
  2. “Nada Será Como Antes” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972)
  3. “Clube da Esquina” (Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges, 1970)
  4. “Cais” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972)
  5. “Nascente” (Flávio Venturini e Murilo Antunes, 1977)
  6. “Mistérios” (Joyce Moreno e Maurício Maestro, 1978)
  7. “Cravo e Canela” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1971)
  8. “Casamiento de Negros” (tema tradicional do folclore chileno adaptado por Violeta Parra e Polo Cabrera, 1978)
  9. “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972)
  10. “Os Povos” (Milton Nascimento e Márcio Borges, 1970)
  11. “Dos Cruces” (1972)
  12. “Para Lennon & McCartney” (Márcio Borges, Lô Borges e Fernando Brant, 1970)
  13. “San Vicente” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1972)
  14. “Trem de Doido” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972)
  15. “Clube da Esquina 2” (Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges, 1972)
  16. “Estrelas” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972)
  17. “Lilia” (Milton Nascimento, 1972)
  18. “Paixão e Fé” (Tavinho Moura e Fernando Brant, 1978)
  19. “Um Gosto de Sol” (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, 1972)
  20. “Paisagem da Janela” (Lô Borges e Fernando Brant, 1972)
  21. “O Que Foi Feito Devera / O Que Foi Feito de Vera” (Milton Nascimento e Márcio Borges, 1978)
  22. “Maria Maria” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1978)
  23. “O Trem Azul” (Lô Borges e Ronaldo Bastos, 1972)

Retorno ao palco

  1. “Francisco” (Milton Nascimento, 1976)
  2. “Ponta de Areia” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974)
  3. “Paula e Bebeto” (Milton Nascimento e Caetano Veloso, 1975)

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