Não teremos o controle tão cedo | Jornal Plural
14 set 2020 - 21h28

Não teremos o controle tão cedo

Pesquisas na pandemia mostram hábitos e tendências na indústria da música e do entretenimento. Os mais velhos, além de ficar em casa, estão sendo esquecidos

Cansados. Não vemos a hora de sair disso. E aqui, em Curitiba, ainda não é hora de sair. Pensei que só morava em uma cidade conservadora, para dizer o mínimo. Na pandemia, descobri que moro também, junto com a maioria dos meus e das pessoas que amo, em uma cidade irresponsável, do poder público à vida privada de seus cidadãos e cidadãs. Mesmo com o que estamos vivendo, muitos não estão nem aí com as maiores restrições impostas à nossa liberdade e ao nosso ego desde que consigo me lembrar. É difícil de controlar, mas é preciso.

O controle, as proibições e restrições atingiram em cheio a indústria do entretenimento. Foi uma das áreas mais atingidas pela pandemia por razões óbvias: cancelamento de todo tipo de eventos; shows; turnês; festivais; apresentações ao vivo, em favor do isolamento social para a segurança de artistas, técnicos, fãs e público em geral. E vai demorar para voltar “ao normal”. “Novo normal”, como estão dizendo, conceito que divide opiniões. A Normose causa angústia, frustração, patologia identificada na psicologia como aversão à normalidade. Talvez por isso, o cuidado em cunhar o termo “Novo Normal”, que ainda assim é dúbio, porque não podemos voltar onde já estivemos e deu errado. O que a gente vivia já não era normal, a menos que você considere uma sociedade doente como normal.

O “novo” é uma palavra nobre e edificante, que tem sustentado inúmeras tentativas de reação às normas, incluindo farsas e charlatanices, mas tem perdido sentido e relevância há pelo menos 100 anos, desde que as vanguardas europeias do início do século passado fracassaram ao apresentar um “novo” em que quase ninguém estava interessado ou tinha acesso. O “novo rejeitado”, ainda assim, mesmo contra o senso comum e a maioria das opiniões, promoveu transformações importantes na arte, na estética, na cultura e no pensamento do que viria depois. Sempre foi assim: o novo nunca foi bem aceito. Há inúmeros estudos que comprovam a tese. Mas as palavras “novo” e “normal” juntas em uma única expressão, tecnicamente, são perfeitas, mesmo embutindo um oxímoro e uma contradição: “novo normal”, aversão e aceitação ao mesmo tempo. Há controvérsias.

Em casa, em casa

Passamos mais tempo em casa, levando a um aumento no uso de serviços de streaming, áudio e vídeo, videogames, redes sociais e TV, segundo pesquisa do Kantar/Barômetro Brasil, publicada em abril desse ano. Outra pesquisa, pelo Datafolha/Folha de S.Paulo, em julho passado, “A Nova Realidade de Hábitos e Consumo – Marcas de Destaque”, é reveladora sobre o que estamos consumindo em música e entretenimento nesses dias e meses. A pesquisa, que há 30 anos tem sido publicada como Top of Mind, lembrança de marca, awareness, foi inteiramente modificada este ano em função do cenário atual. Se até o ano passado a pergunta era, por exemplo: quando você pensa em desodorante, qual é a primeira marca que vem na sua cabeça? Em 2020, mudaram as perguntas: qual é a marca em que você mais confia e que cumpre um papel social em benefício das pessoas?  

O Spotify foi lembrado por 34% dos entrevistados como a marca mais confiável entre os aplicativos de música. O serviço foi lançado em 2008, com uma versão estável entre nós somente em 2010. O Deezer foi lançado um ano antes, em 2007. O Rdio desapareceu em 2015. A Apple Music, lançada em 2015, demorou ainda mais para chegar ao Brasil, o que só aconteceu em 2017. Mais recentemente, tivemos a entrada no Brasil da Amazon Music Unlimited, com a promessa de mais de 60 milhões de músicas, mais ou menos a mesma cifra dos concorrentes, com nova vantagem do Spotify, que tem mais músicas em seu catálogo. A plataforma, segundo relatório dos resultados financeiros de suas operações no primeiro trimestre deste ano, divulgados em abril, tem 286 milhões de assinantes, registrou lucro e não sentiu os efeitos da pandemia. No final de abril, cumprida a primeira etapa de uma quarentena (40 dias), aprendemos que a ideia de quarentena no Brasil e no mundo era bem mais elástica, podendo chegar a quatro meses. É bem provável que o Spotify tenha aumentado sua base de assinantes de lá para cá, além de estar contribuindo decisivamente para o crescimento dos podcasts.

Tem muita música no Spotify. Tudo para as novas gerações. Quase tudo para quem não está no radar das novas gerações. A indústria da música da qual o Spotify faz parte, praticamente exercendo o papel das antigas “majors” que dominaram esta indústria até o surgimento da internet, precisa entender melhor o comportamento das pessoas, consumidores e consumidoras além dos 20 anos e mais, muito mais, agora divididos em grupos e nichos cada vez maiores (ou menores) e mais segmentados com interesses diferentes, mesmo em uma mesma faixa etária. É tendência, fato, está no mainstream determinando novos padrões de comportamento e consumo diferentes. Estamos envelhecendo e queremos ouvir mais música, mas não as mesmas de sempre. Os algoritmos ainda não entenderam isso muito bem porque não consideram, com a devida atenção, públicos acima dos 50/60 anos. O Spotify tem um plano familiar premium, pago, do qual sou assinante, mas não me sinto inteiramente representado.

Apesar dos acertos dos “Daily Mix”, que tentam organizar nossos gostos a partir de buscas, audições e recomendações, do “Radar de Novidades” e das “Descobertas da Semana”, ainda falta ao Spotify ajustes mais finos e certeiros sobre a jornada dos desterrados que não estão nas gerações X, Y (millenials) e Z. Não quero que o Spotify persiga o imaginário e o inconsciente coletivos da minha geração, mas a inteligência artificial – os superalgoritmos – e o rastreamento de dados estão aí para isso ou não? Tomara que não e talvez sim, desde que o compartilhamento de dados de ouvintes não virem mais uma “commodity pública” para marcas invadirem e divulgarem nossa privacidade, passado e memória oferecendo o que não precisamos.

Netflix concorre com jogo

Na mesma pesquisa Folha/Datafolha, o Netflix foi lembrado por 68% dos entrevistados(as) como aplicativo de filme, marca mais confiável e quem tem feito mais em benefício das pessoas. Um dos índices mais altos da pesquisa, que deve ser entendido além dos números. O tédio do confinamento inflou todas as pesquisas de plataformas on-line e serviços de streaming que oferecem conteúdos e entretenimento para quem está em casa.

Os números também cresceram em plataformas concorrentes como Amazon Prime e Globoplay, além dos games, que concorrem com todas elas com números ainda mais expressivos. O próprio Netflix já disse que seu maior concorrente é o Fortnite, jogo que rouba a sua audiência. Durante a pandemia, a marca investiu 150 milhões de dólares em fundos que amparam profissionais do audiovisual. 5 milhões de reais para o Instituto de Conteúdos Audiovisuais Brasileiros. O Netflix precisa de conteúdos locais para continuar existindo e para alimentar e renovar sua programação.

Mais sintonia das rádios

A mesma lógica do Spotify se aplica ao rádio, mídia que vem perdendo espaço entre ouvintes e anunciantes, ainda que tenha sobrevivido com dignidade nesses dias, porque estamos mais em casa e ouvindo mais rádio. Tomara que continue assim, estável e crescendo. Uma das sortes do rádio é estar diversificando formatos, que às vezes nem parecem rádio, mas que devem ao rádio sua origem e existência como os podcasts, vídeos, lives e rádios on-line. Na maioria das vezes, é o mesmo formato em outras plataformas e com mais recursos.

As chamadas “rádios rock”, “college radios”, “rádios flash back”, posicionamentos que definem a programação das emissoras, também não entenderam o cenário da pandemia no que se refere aos ouvintes que passaram a ouvir mais rádio, muitos deles mais velhos do que os perfis de audiência disponíveis nos kits de mídia e nos sites das emissoras que definem o público-alvo para os anunciantes. É só uma impressão desse colunista. Temos pelo menos três exemplos desse posicionamento em Curitiba. As tabelas foram revistas, preços idem, mas não o perfil de ouvintes na pandemia. Todas elas tentam atingir “públicos mais adultos”, 25, 30, 35 anos para mais. Outra vez, targets (públicos-alvo) desterrados, quem tem mais de 50/60 ficaram de fora.

As tabelas e kits das emissoras não incluem públicos bem mais adultos, superadultos, chame como quiser, que darão sobrevida e engajamento a essas emissoras na pós-pandemia. Todas as emissoras nessas categorias têm prestado serviços e informado seus ouvintes sobre a Covid-19 e promovido ações comunitárias. O que é bom, muito bom e, mais do que isso, ações necessárias em se tratando de empresas que têm uma concessão pública para atuar – e que, portanto, devem satisfações à sociedade.

O mesmo acontece com as concessões de TV.  A pergunta que fica é a seguinte, para além da pandemia e já pensando na sustentabilidade da audiência dessas emissoras: até quando iremos ouvir os mesmos hits surrados de sempre, de 30, 40, 50 anos atrás? Será que essas emissoras acreditaram naquela pesquisa do Spotify publicada anos atrás que dizia que as pessoas param de ouvir novidades aos 33 anos? Verdade. Pós-verdade: não é verdade.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Últimas Notícias