Brittany Howard, Weyes Blood e The Waterboys | Jornal Plural
3 dez 2019 - 23h05

Brittany Howard, Weyes Blood e The Waterboys

Projeto BEST OF 2019 prossegue com mais três faixas que deverão estar na playlist final que será lançada no final do mês

Stay High” – Brittany Howard

Perto de fazer 31 anos, Brittany Howard resolveu dar um tempo em sua carreira de sucesso com o Alabama Shakes. Dois discos aclamados e quatro Grammys depois, a partir de 2012, achou que era hora de parar, pelo menos temporariamente. Foi bom para ela e ainda melhor para nós. Jaime é um dos grandes discos do ano, relativamente distante do seu trabalho com os Shakes.

Está lá um pouco do revivalismo da música negra do sul dos Estados Unidos que definiu o sucesso com a sua banda, mas Jaime é mais interessante e variado. Tem outro padrão de produção e de arranjos, com mais músicos no estúdio do que Brittany costumava ter com os Shakes. O traço em comum é a voz e a impressionante capacidade que ela tem de interpretar e dar vida, força e personalidade a uma canção. Tudo parecendo cru, o que é verdade em Brittany. Ouça com atenção o baixo e a bateria no álbum. A produção sofisticada e delicada realça ainda mais as qualidades de Jaime e de Brittany Howard como cantora e compositora.

Capa de Jaime com Brittany Howard – Crédito da foto: Divulgação.

Jaime é o nome da irmã mais velha que Brittany perdeu para um câncer raro nos olhos quando ainda era adolescente. O disco é dedicado a ela, que deu a Brittany as primeiras noções de piano e composição para fazer músicas. Brittany canta e toca guitarra, acompanhada pelo baixista Shakes Zac Cockrell, o tecladista Dan Horton, o baterista Nate Smith e pelo extraordinário pianista de jazz Robert Glasper.

“Ela definitivamente me moldou como ser humano, mas o disco não é sobre ela, é sobre mim. Eu sou muito sincera sobre mim mesma, em quem eu sou e no que eu acredito. É por isso que precisava fazer isso sozinha.”

Brittany Howard

“Stay High” é uma balada bluesy de Brittany escrita para o seu pai. Fala de um amor para a vida inteira. No belo e singelo clipe da canção, gravado em Athens, Alabama, terra natal de Brittany, aparece quase toda a sua família. Terry Crews, protagonista do clipe, é o mesmo ator que a gente se acostumou a ver em filmes, séries e naqueles comerciais premiados para o desodorante Old Spice.

A Lot’s Gonna Change” – Weyes Blood

Weyes Blood é o nome artístico da cantora, compositora e multi-instrumentista californiana Natalie Mering. “A Lot’s Gonna Change” está no seu quarto disco, Titanic Rising, lançado pela Sub Pop em abril desse ano. Nascida em uma família de músicos, aos 15 anos começou a usar o apelido Wise Blood para escrever suas primeiras canções, homenagem ao romance de mesmo nome da escritora norte-americana Flannery O’Connor. Tudo isso junto, mais a capa e o nome do álbum, além do olhar levemente distante de Mering, dizem muito sobre o que você vai encontrar nesse que é outro dos discos do ano, e o melhor dela até aqui.

Weyes Blood na capa de Titanic Rising – Crédito da foto: Divulgação.

O mundo é estranho e o futuro é incerto. Muita coisa vai mal e os problemas estão no caminho de qualquer um. Weyes Blood vê tudo isso como uma adolescente de 31 anos estóica e ambiciosa, melancólica mas sem perder a esperança, com os dois pés na realidade mas otimista. “Sou uma futurista nostálgica”, como se definiu em entrevista ao site Pitchfork para o lançamento de Titanic Rising.

Tudo é grandioso e fluido no álbum, como convém ao pop sinfônico (ou de câmara, se preferir), dream pop, psicodelia, tanto faz. Os arranjos têm uma beleza rara e são perfeitamente adequados para quem está falando o tempo todo do apocalipse e de uma saída que faça a vida valer a pena. “Eu preciso de um amor todos os dias”, ela canta com serenidade. “Quero garantir que todos sintam que merecem estar vivos”. Em “A Lot’s Gonna Change”, Natalie volta à infância onde o mundo ainda podia ser admirado em todas as suas possibilidades. Um pouco da grandiosidade de Titanic Rising remete ao soft rock dos anos 70, a Joni Mitchell da metade daquela década, a Stevie Nicks com o Fleetwood Mac e aos Carpenters do canto belo e trágico de Karen Carpenter.

“Right Side Of Heartbreak (Wrong Side Of Love)” – The Waterboys

Mike Scott é uma lenda. É daqueles geniozinhos dos anos 80 como bem poucos na mesma década, apesar de uma nova banda ter surgido a cada novo dia naquele período. Ao lado de Scott estão na mesma categoria nomes como Paddy McAloon, do Prefab Sprout; Roland Orzabal, do Tears For Fears; Andy Partridge e Colin Moulding, do XTC; e Robert Smith do Cure. São cantores-compositores, geralmente multi-instrumentistas, produtores e arranjadores que foram capazes de propor uma música e um som realmente novos no cenário criativo e abundante do pós-punk inglês com as suas bandas.

Mike Scott, The Waterboys – Crédito da foto: XSNOISE

A exigente crítica de música pop inglesa reconhece Mike Scott como um dos melhores compositores ingleses dos últimos 40 anos, e ele é escocês, o que fará toda a diferença em sua trajetória com os Waterboys, banda que fundou e da qual continua sendo o único membro original. Na composição de letras com referências literárias e apelo pop nos anos 80 Mike Scott só tem ao seu lado outro escocês, Lloyd Cole (Lloyd Cole And The Commotions) e, talvez, o cada vez mais britânico e inglês Morrissey, dos Smiths. Em 2011, os Waterboys lançaram An Appointment with Mr Yeats, poemas musicados do poeta irlandês William Butler Yeats, uma das maiores referências de Scott. Uma das faixas do disco entrou no BEST OF daquele ano.  

“Right Side Of Heartbreak (Wrong Side Of Love)” foi o single de lançamento de Where The Action Is, décimo terceiro disco dos Waterboys. Parte da crítica torceu o nariz, talvez esperando o rock inventivo dos primeiros tempos da banda ou a orientação folk de Scott em discos clássicos com os Waterboys como A Pagan Place, de 1984, This Is The Sea, do ano seguinte, ou Fisherman’s Blues, de 1988. Bobagem. A faixa escolhida para o THE BEST OF 2019 é vibrante, tem dance music e um órgão Hammond. Mike Scott gravou a faixa em sua casa e mandou para o tecladista atual dos Waterboys finalizar. Por enquanto, não há nada feito em música que não tenha dado certo com um órgão Hammond. Mike Scott errou muito pouco em sua trajetória solo ou com os Waterboys. Gênio.

Para ir além

A playlist final com o THE BEST OF 2019 só será publicada aqui dias antes do Natal. Desde que começou, o THE BEST OF só não foi publicado ano passado. A partir de 2014, migrou do formato físico para o Spotify. As listas de 2014, 2015, 2016 e 2017 ainda estão lá, na minha conta na plataforma – Sérgio Menezes.

BEST OF 2014

BEST OF 2015

BEST OF 2016

BEST OF 2017

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