BEST OF 2019 | Jornal Plural
Clube Kotter
20 dez 2019 - 9h00

BEST OF 2019

Fim do suspense: saiu a lista final com os destaques do ano na cena musical

O que seria de nós sem eles, que para a nossa sorte, não estão pensando em aposentadoria?

IGGY POP. O impressionante disco do THE WHO, depois de 13 anos sem gravar. Uma das dez canções perdidas da parceria Lou Reed e NILS LOFGREN, guitarrista, cantor, compositor e multi-instrumentista com carreira solo, que também trabalha com Bruce Springsteen, Ringo Starr e Neil Young. BRUCE SPRINGSTEEN. Neil Young também lançou disco este ano, mas não entrou na lista. LEE FIELDS & THE EXPRESSIONS. SLY DUNBAR e ROBBIE SHAKESPEARE, bateria e baixo, uma das melhores cozinhas do planeta, resolveram homenagear o gênio e a música de Serge Gainsbourg. Uma ideia óbvia, mas nada previsível, já que o francês fez reggae dos bons em sua última fase. O resultado é dub desconcertante para cair o cachimbo. Aviso: se for ouvir, não dirija. Sly & Robbie também estiveram à frente de outro grande disco lançado esse ano: Sly & Robbie Vs. Roots Radics – The Final Battle, verdadeira galeria da fama dos últimos 50 anos do reggae, com a participação de músicos, cantores e compositores fundamentais em cada uma das faixas. Não entrou na playlist e a razão é simples: não consegui escolher uma única faixa, regra pétrea do Projeto BEST OF.

ROBBIE ROBERTSON, guitarrista, cantor e compositor da The Band, banda canadense que além de ter acompanhado Bob Dylan, é uma referência fundamental na definição do roots rock, folk rock e do country rock na transição dos anos 1960 para os 1970, e do que depois seria chamado de Americana. Na faixa escolhida para a playlist, Robbie tem a participação de VAN MORRISON nos vocais. O irlandês também lançou disco em 2019, o impecável Three Chords & the Truth, seu 41.º álbum.

Os brasileiros MARCOS VALLE e JARDS MACALÉ. Macalé lança um disco depois de 20 anos. Naturalmente, ele tem o apoio da nova geração mais antenada em ouvir e entender o que já foi feito de mais interessante, criativo e independente na música brasileira desde o final dos anos 1960. Participam do disco Tim Bernardes, Juçara Marçal Romulo Fróes e Kiko Dinucci. Marcos Valle (75 anos), bossanovista da segunda geração, tocando mais lá fora do que aqui, lançou Sempre a convite do selo inglês Far Out. O mesmo talento, musicalidade e o suingue característico de Valle, com uma letra que faz pensar. Irresistível.

Jards Macalé / Crédito da foto: André Seiti.

Apesar dos “velhos”, não espere uma lista conservadora. Já falei aqui dos discos perdidos de MARVIN GAYE e MILES DAVIS. Tem LEONARD COHEN em Thanks For The Dance, álbum póstumo lançado no mês passado. São excertos das gravações de You Want It Darker, último disco lançado por Cohen, em 2016, semanas antes de morrer. À frente do projeto esteve seu filho Adam, músicos que já vinham tocando com Cohen, como o guitarrista espanhol Javier Mas e o produtor Daniel Lanois, responsável pelos ótimos arranjos do disco. Entre os convidados estão o cantor e compositor irlandês Damien Rice, as cantoras Jennifer Warnes e Leslie Feist, Richard Reed Parry (dos Arcade Fire), Bryce Dessner (The National), o pianista Dustin O’Halloran, os coros Cantus Domus e da sinagoga Shaar Hashomayim, da cidade de Quebec. É tão bom quanto qualquer disco de Leonard Cohen. Sublime e sombrio como seu último disco gravado em vida, aos 82 anos.

As estreias, os novos e novíssimos

Duas estreias em carreira-solo: BRITTANY HOWARD (Alabama Shakes), que lançou disco de inéditas, e MICHAEL STIPE (ex-REM), com apenas um single e de quem se espera muito mais. O soul abrasivo, psicodélico e futurista do inglês MICHAEL KIWANUKA. Depois de apenas um EP lançado em 2017, a galesa STELLA DONNELLY lançou Beware Of The Dogs, seu álbum de estreia. A inglesa NILÜFER YANYA, que manda às favas o que conhecemos como música pop. Primeiro disco de estúdio dos garotos irlandeses talentosíssimos do FONTAINES DC – pós punk revigorado. KING PRINCESS (21 anos). BILLIE EILISH (18 anos). O novo indie rock americano na estreia do BETTER OBLIVION COMMUNITY CENTER. Os australianos do ROLLING BLACKOUTS COASTAL FEVER. A nova geração do soul americano clássico na estreia dos BLACK PUMAS, para fazer companhia a LEE FIELDS aqui na playlist.

Jenny Hval / Crédito da foto: divulgação / site da artista.

WEYES BLOOD. LANA DEL REY. ANGEL OLSEN. A cantora, compositora, produtora musical e romancista norueguesa JENNY HVAL. FION REGAN, outro irlandês. A brasileira YMA (cantora e compositora paulistana Yasmin Mamedio). O BAIANA SYSTEM, com a participação da dupla de cantores e compositores baiana Antonio Carlos e Jocáfi. Você, caríssima leitora e caríssimo leitor, não viveu esse tempo. Ligar o rádio na década de 1970 era quase a mesma coisa do que ouvir Antonio Carlos e Jocáfi.

Os londrinos do VANISHING TWINS. A garagem, a psicodelia e a experimentação dos australianos KING GIZZARD & THE LIZARD WIZARD. O nem tão novo assim, mas bom, CAGE THE ELEPHANT. Mais indie norte-americano com o BIG THIEF, que lançou dois discos em 2019, ambos nas listas entre os melhores do ano.

O que você quiser chamar de jazz

O gênero sempre viveu e sobreviveu de fusões. É o que surpreende no jazz. É o que você vai ouvir aqui. As oito inglesas e o som multiétnico, multicultural do NÉRIJA. Os grooves do afro pop, do ethio jazz, do r&b e do rap também estão no coletivo NUBIAN TWIST, com a participação do lendário maestro etíope MULATU ASTATKE (75 anos). Na opinião desse colunista, o melhor jazz da playlist. Mais ingleses, o nu jazz do THE COMET IS COMING. E mais África, com KARL HECTOR & THE MALCOUNS, baseados na Alemanha. BRAD MEHLDAU, vigoroso e ousado, tentando conversar com os anjos pela voz.

Little Simz / Crédito da foto: divulgação.

Tomo a liberdade de incluir aqui (os puristas que me perdoem) também o hip-hop e o novo rap, cada vez mais, felizmente, encharcado de referências ao jazz. LITTLE SIMZ é o nome artístico da rapper, cantora e atriz britânica Simbiatu ‘Simbi’ Abisola Abiola Ajikawo, que se apresentou em São Paulo na edição do Popload Festival no mês passado. Outro MC e rapper inglês, o compositor, diretor e produtor musical  Joseph Junior Adenuga Jr, mais conhecido como SKEPTA. O norte-americano TYLER, THE CREATOR, Tyler Gregory Okonma, que além de rapper é produtor musical, produtor de videoclipes e designer, lançou Igor, seu melhor disco até aqui. JAMILA WOODS, cantora, compositora e poeta americana de Chicago, formada em Estudos Africanos, Estudos de Teatro e Performance, lançou seu segundo álbum em 2019, o ótimo Legacy! Legacy!. Soul, neo soul, r&b, hip-hop, jazz. A faixa escolhida para a playlist BEST OF 19 faz uma homenagem a MILES DAVIS.

A música que vem de outro mundo que é o mesmo mundo

SARATHY KORWAR nasceu nos Estados Unidos, mas se criou em mais dois continentes além da América, na África e na Ásia, e trabalha na Europa, em Londres. É compositor, líder de banda, baterista, percussionista e produtor. No seu segundo disco de estúdio e na faixa escolhida, “Mumbay”, conta com a participação do rapper indiano MC MAWALI. Invenção, beleza e caos. Ao mesmo tempo, é música devocional indiana, mística, pop e militante. O arranjo de SARATHY KORWAR acompanha muito bem todas as nuances da faixa. 

Sarathy Korwar / Crédito da foto: Guia Fotografia Fabrice Bourgelle

O supergrupo LES AMAZONES D’AFRIQUE, formado no Mali em 2015, com estrelas internacionais que talvez você não conheça, algumas antológicas no circuito mundial da música pop africana como Kandia Kouyaté, Angélique Kidjo, Mamani Keita, Mariam Doumbia, Nneka, entre outras. São todas cantoras-compositoras, produtoras, artistas africanas que têm repercussão e voz na mídia, militantes e feministas que têm lutado por melhores condições para as mulheres africana em algumas sociedades locais injustas, atrasadas e, na maioria das vezes, cruéis contra as mulheres. “Smile”, faixa escolhida entre os dois singles lançados nesse final de ano pelo coletivo LES AMAZONES D’AFRIQUE é libertadora em diversas direções. Traz NIARIU, a mais nova integrante do combo, e o maior nome feminino do rap do Mali, AMI YEREWOLO.

O fato é que não temos mais música desse ou daquele lugar. Fiz questão de dar os nomes de vários artistas que se destacaram em 2019. Seus nomes e sobrenomes dão uma boa ideia de que a melhor música, hoje, é híbrida, misturada com as origens de seus criadores e com o que de melhor eles ouviram em seus países de origem ou nos lugares que escolheram para viver. É um dos movimentos mais interessantes e criativos na música pop que se faz hoje.

O grupo de amigos talentosos

Cantores e cantoras, compositores e compositoras que participaram de uma mesma cena, norte-americana, a partir do final dos 1980 e início dos 1990. Country music, Punk rock, Pós punk e mais uma direção para o indie norte-americano em uma de suas inúmeras variações, agora denominada alt-country – ou country alternativo. Amigos e amigas, todos e todas talentosos e talentosas, que se conhecem, fazem turnês juntos, participam dos discos uns dos outros. RYAN ADAMS. JESSE MALIN, com a participação de LUCINDA WILLIAMS. JENNY LEWIS e o seu melhor disco solo, desde que era vocalista e compositora da banda com a qual se lançou, que já era boa, a Rilo Kiley.

Jenny Lewis / Crédito da foto: divulgação

Quem faz música boa sempre volta ao THE BEST OF

Artistas que voltam na playlist porque nunca deixaram de lançar música boa e inventiva em suas próprias discografias, sempre propondo um som novo, criativo e instigante. MIKE SCOTT e THE WATERBOYS, desde os anos 80. LAMBCHOP, praticamente um projeto pessoal do músico, cantor e compositor norte-americano Kurt Wagner. BECK, que também participa do disco póstumo de LEONARD COHEN. THE NATIONAL e “I Am Easy To Find”, lançado em um incrível curta-metragem. O disco tem a participação das cantoras Lisa Hannigan, Sharon Van Etten e Gail Ann Dorsey nos vocais, fato inédito na carreira da banda. HISS GOLDEN MESSENGER e STURGILL SIMPSON. BON IVER, LÔ BORGES e CÉU. LÔ BORGES, além do seu ótimo disco desse ano, “Rio da Lua”, lançou um single no mês passado com Samuel Rosa (Skank), “Dínamo”, que não entrou aqui porque o THE BEST OF só permite uma faixa por artista. WILCO, e Jeff Tweedy ainda lançou mais um disco solo esse ano. THE DELINES, pare tudo e ouça mais uma vez.

Quem faz música boa e nunca esteve no THE BEST OF

NICK CAVE & THE BAD SEEDS. Ghosteen, álbum duplo, é belo, triste e intenso, como tudo que Nick Cave fez depois da morte de seu filho de 12 anos, em 2015. Na direção contrária, o músico argentino EMMANUEL HORVILLEUR também faz pensar, mas em ritmo de festa e dança. Horvilleur era um dos principais artífices, cantor, compositor e instrumentista de uma banda que teve repercussão relativa no Brasil nos anos 1990 e enorme sucesso na Argentina e América Latina, Illia Kuriaky & The Valderramas. Foi a banda onde também começou o guitarrista, cantor e compositor Dante Spinetta, filho de Luis Alberto Spinetta. Segundo o algoritmo do Spotify, Luis Alberto Spinetta foi o músico que mais ouvi em 2019. Nesse caso, o algoritmo está totalmente certo.

PARA IR ALÉM

As listas de 2014, 2015, 2016 e 2017 ainda estão lá, na minha conta do Spotify – Sérgio Menezes.

BEST OF 2014

BEST OF 2015

BEST OF 2016

BEST OF 2017

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