Um herói nacional | Plural
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12 ago 2019 - 17h02

Um herói nacional

Ter heróis é uma função agregadora fundamental para o que faz de um país um país. Os heróis também projetam algo sobre o que somos e o que queremos ser.

O Dicionário Aurélio lista oito significados para o termo herói. Quem recebe a alcunha pode ter realizado grandes feitos, demonstrado grande coragem, mas também que se “destacado pelo proceder escandaloso ou incorreto”. O senso comum, no entanto, nos faz pensar em heróis como aqueles em que devemos nos espelhar, querer emular, pelo exemplo que representam.

Situações de grande crise, momentos graves de ameaça são o fogo que forja os grandes heróis, por separar aqueles que sentam à margem dos que se colocam à disposição da comunidade. Na lista de grandes heróis brasileiros, aqueles que estão inscritos no Livro de Aço do Panteão de Heróis e Heroínas Tancredo Neves, há diversos exemplos do gênero, como Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que liderou a Inconfidência Mineira e Chico Mendes, o seringueiro que deu vida pela defesa da Amazônia.

O Brasil também colocou entre seus heróis nacionais pessoas que projetaram o nome do país no mundo, seja pelo que representam, seja pelo enorme talento e obra. É o caso do escritor Machado de Assis e do “pai da aviação”, Santos Dumont. Ter heróis tem uma função agregadora fundamental para o que faz de um país um país. Muito embora nem sempre sejam unanimidade, são nomes que pertencem ao imaginário nacional.

Os heróis também projetam algo sobre o que somos e o que queremos ser. Por isso a tendência de elevarmos ao posto aqueles que se destacam nos esportes, que demonstram coragem, que tomam para si a luta por um valor que nos define, ou mesmo a defesa da pátria.

Nosso atual presidente costuma chamar de herói o coronel Carlos Brilhante Ustra, que teve uma passagem sem nenhum destaque pelo Exército Brasileiro, nem qualquer ato de bravura na defesa da pátria. Mas que, durante a ditadura militar que começou em 1964, comandou um dos principais centros de tortura do regime, o  Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi) de São Paulo.

Ustra não enfrentava o inimigo de peito aberto, nem tomado de coragem exemplar, e sim violentava mulheres imobilizadas e assistia sessões de espancamento promovidas por seus subordinados. Algumas vezes mandava trazerem os filhos dos torturados para serem eles também agredidos e verem os pais muitas vezes irreconhecíveis sendo seviciados.

A única distinção do coronel, além do uso da técnica questionável da tortura para combater o “comunismo” no país, foi ter sido reconhecido pela Justiça como torturador. Um grande feito num Brasil que ainda tenta reescrever a História para pintar de heroísmo a covardia dos Anos de Chumbo.

Apesar do gosto questionável para selecionar heróis, Bolsonaro de fato revelou nas últimas semanas um: o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Ricardo Magnus Osório Galvão. Engenheiro pela Universidade Federal Fluminense, Galvão tinha uma notoriedade restrita aos círculos de cientistas da área no Brasil e fora.

Mas uma situação grave e incomum colocou o cientista sob os holofotes: o INPE divulgou dados que mostravam grande aumento no ritmo de desmatamento da floresta Amazônica em 2019 e o presidente não gostou. Como todo líder autoritário, Bolsonaro não aceitou o óbvio: sua oratória em prol do extrativismo e contra as reservas ambientais e indígenas estimulou a ação dos desmatadores do maior bem natural do país.

Desde que assumiu, Bolsonaro e seus seguidores têm estimulado um ambiente de intimidação a críticos e opositores. É um governo do Ame-o ou deixe-o, em que questionar a parte torna qualquer um inimigo do todo. A quem desrespeita a regra reserva-se a ação das milícias virtuais, que espalham boatos e ameaçam e o rótulo de petista, comunista, inimigo do país.

É compreensível que muita gente se intimide com a situação. Bons jornalistas, empresas idôneas e até mesmo cientistas têm se colocado à margem do debate político para evitar de se expor. Entre os reitores das universidades federais, que sofreram graves cortes de verbas e correm o risco de não terminar o ano letivo, poucos assumiram a liderança na defesa do ensino público, temendo atrair para si e para a instituição que lideram sanções de grupos econômicos e sociais que atuam para censurar quem não aceita a ordem atual.

Nesse ambiente, Galvão, que não parece ter histórico de militância política, não se intimidou. Foi a público chamar o presidente de covarde por criticar os dados do INPE e acusá-lo de estar “a serviço de alguma ONG”. Bolsonaro queria colar no fato óbvio revelado pelo Instituto – o de que há um aumento no desmatamento da Amazônia – a pecha de ação política ideológica – claro, de esquerda – e com isso desqualificá-la.

Mais do que isso, Galvão sugeriu que Bolsonaro conversasse pessoalmente com ele, de forma a ouvir as explicações sobre a metodologia de obtenção dos dados e como eles não sofrem interferência de ongs ou outros elementos extraterrenos invocados pelo chefe do executivo. O cientista também queria que o presidente tivesse uma atitude digna: a de criticá-lo pessoalmente e ouvir sua defesa.

Bolsonaro, claro, não fez nada disso. Se declarou, pelas redes sociais, é claro, incomodado com a insubordinação de Galvão e o exonerou. Não o encontrou pessoalmente. Tarefa que coube ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

É improvável que Galvão receba qualquer honraria pela atitude louvável de defender a ciência num país em que centenas aplaudem a retirada de uma faixa “Em defesa da edução” da sede da UFPR. Também não sabemos se ele irá, além de perder o emprego, sofrer outras sanções.

Mas certamente suas ações o colocam no rol dos que merecem, de fato, ser chamados de heróis. Num país perdido no tiroteio entre uma suposta divisão ideológica e que navega perigosamente em direção ao autoritarismo, Galvão não deixou de defender o certo e ser justo com o trabalho do Instituto que comandava.

Foi o primeiro a defender de forma tão contundente a metodologia científica. O INPE não foi a primeira instituição do gênero atacada e desmontada por Bolsonaro. Já estiveram sob fogo cerrado o IBGE, responsável pelo Censo, o Inep (que faz o Enem e também produz as estatísticas que norteavam as políticas públicas de educação no país) e as universidades públicas em geral, grandes responsáveis pela maior parte da pesquisa científica do país.

O que nos resta agora é esperar que num futuro não muito distante, Galvão possa ser reconhecido como herói, como em outros momentos históricos o Brasil conseguiu superar crenças limitantes e pôde celebrar a grandiosidade de seu povo. Enquanto isso, que seu exemplo inspire outros, que diante da mentira e da injustiça, não se coloquem à margem e deixem claro que a mentira não pode prevalecer, nem quando sai da boca de nosso maior líder.

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