Quarentena, dia 6 - A geladeira vazia | Jornal Plural
27 mar 2020 - 11h08

Quarentena, dia 6 – A geladeira vazia

Depois que passar o fim do mundo eu torço muito para que as pessoas lembrem da importância do mercadinho da esquina

As empanadas congeladas chegam ao fim. Na última leva, percebo que a maionese também está acabando. Estranho, não lembro quando foi que comprei essa maionese. Olho a validade, maravilha. Agora sim que vou para o hospital, pegar corona tentando tratar uma intoxicação, não acredito que sou tão burro. Julho de 2019. Uma verificação mais apurada mostra que há outros itens na mesma condição.

É hora de comprar coisas, não tem o que fazer. Pensar que faz tão pouco tempo que vi um anúncio de um escafandro barateza na internet. Minha mulher não deixou comprar, disse que eu nunca usaria e seria mais uma tralha parada no canto. Sem escafandro, optamos pelo mercado de bairro que entrega em casa.

Um amigo, estagiário em uma multinacional de Curitiba, me conta que, preocupado com a saúde, mandou um e-mail para o RH perguntando se a empresa não vai atender o decreto estadual que determina a quarentena de empregados não essenciais. Diz que está animado para continuar trabalhando de casa e que a companhia prega uma gestão muito humanizada. O único problema são os dois ônibus que precisa pegar para ir até o local de trabalho.

No rádio estão falando sobre o último discurso do presidente. Muito sensato, como sempre. Me lembra o tipo de coisa que eu dizia quando tinha cinco anos de idade e era pego no flagra fazendo algo errado. Na Internet, descubro que aparentemente a Rede Globo e o PT foram até a Europa e mataram milhares de pessoas para desestabilizar o governo brasileiro. Ah, malditos comunistas, infiltrados em todo canto.

Depois me deparo com a incrivelmente ética fala do ricaço curitibano que considera normal o sacrifício de umas sete mil pessoas desde que seja garantida a continuidade de seus lucros.

As compras chegam e recebem um banho de álcool. O rapaz da entrega conta que o mercadinho está sobrevivendo assim, que as vendas diminuíram demais, que se não fosse pelos pedidos para entrega o mercado podia acabar fechando.

À tardinha, o amigo estagiário me mostra o e-mail de resposta do RH da empresa que prega uma gestão humanizada: a empresa não vai mais precisar dos seus serviços, não precisa mais vir a partir de amanhã.

Depois que passar o fim do mundo eu torço muito para que as pessoas lembrem da importância do mercadinho da esquina.

E principalmente da postura dos grandes empresários.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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