15 maio 2021 - 9h18

Uma ode ao Rivotril

Novo filme estrelado por Débora Falabella tem música de baixo custo e alta eficiência

Já está disponível no streaming o novo filme estrelado pela atriz Debora Falabella. Depois a Louca Sou Eu deveria ter entrado em cartaz no ano passado, mas sofreu atrasos em função da pandemia, chegando a ser exibido nos cinemas em fevereiro, mas por pouco tempo, devido ao agravamento da crise sanitária. Agora, finalmente, é possível assistir a esta produção nacional na segurança de casa. O longa baseia-se no livro de mesmo nome da escritora Tati Bernardi, que discute de forma bem-humorada questões relativas à ansiedade, aos desafios da vida adulta e ao uso de medicamentos tarja preta. O Rivotril, como se verá no filme, tem papel importante nesta narrativa.

O que chama a atenção na parte musical é a eficiência e o minimalismo, que não perdem na essência e na comunicabilidade. A trilha foi escrita pelo compositor brasileiro Berna Ceppas, que tem no currículo outras produções nacionais importantes, como Tim Maia (2014), Dez Segundos Para Vencer (2018) e o recente Boca de Ouro (2019). O músico também trabalhou com a coreógrafa Deborah Colker, no prestigiado espetáculo Ovo, do Cirque du Soleil.

Berna Ceppas é o compositor da trilha musical do longa. Foto: divulgação.

Os créditos do filme dão uma evidência dessa ideia de minimalismo da qual falei, porque aparecem os nomes dos músicos envolvidos. Além de Berna, participa somente o baterista Leo Monteiro, levando-nos à conclusão de que praticamente todo o trabalho foi feito por meio de sintetizadores e instrumentos virtuais, somados à guitarra, ao baixo elétrico e à bateria, que aparecem em dois momentos da trilha, quando se evoca uma sonoridade característica do heavy metal.

No mais, a música é discreta e não se impõe à atuação da protagonista, que vive momentos de euforia e desilusão ocasionados pelo uso de medicamentos. Berna fez uma combinação criativa de timbres que variam entre leads (para concentrar as linhas melódicas dos trechos musicais compostos) e pads (que completam as bases harmônicas e ajudam a enfatizar o humor de cada cena). Quando se trata de um momento de euforia, os sons são mais curtos e intercalados; quando a cena é de tensão, os sons se interconectam e deixam o ambiente confuso, como seria a cabeça da personagem principal naquele instante. A proposta não chega a ser inovadora, afinal de contas sintetizadores são instrumentos eletrônicos do século XX, porém foi bem executada e cumpriu sua função.

Canções

Além da trilha original, o filme conta com as seguintes canções para dar apoio narrativo: “The Flight of the Bumble Bee” (Jean-Jacques Perrey), “Liberar Geral” (Terra Samba), “Wouldn´t It Be Nice” (The Beach Boys), “Terremoto” (Anitta e Mc Kevinho), “Nosso Lugar” (Marco Antonio Souza de Jesus), “A Flor” (Los Hermanos) e Minha Cabeça” (Clarice Falcão), que toca nos créditos do filme, entretanto, mereceria um lugar de maior destaque no desenrolar da história.  

Conclusão

Algumas pontas ficaram soltas, deixando perguntas sem respostas, mas nada tão prejudicial à narrativa. Existem referências a outras obras da cultura pop, como no caso de uma cena de loucura da personagem principal que lembra o mundo invertido de Stranger Things, ideia propagada também por meio da música, devido ao uso dos sintetizadores eletrônicos aos quais me referi anteriormente. Além disso, pode ser um tanto questionável a inclusão da canção “Wouldn´t It Be Nice”, porque esta música é marcante no filme Como se Fosse a Primeira Vez (2004), comédia romântica com Adam Sandler e Drew Barrymore. É difícil ouvir esta música no filme e não lembrar da “pastelônica” cena em que Sandler canta esta canção enquanto segura o timão de um barco.

De modo geral, Depois a Louca Sou Eu consiste num filme interessante e divertido, que nos leva a pensar sobre a angústia de quem lida com problemas psicológicos, sentindo-se completamente só, ainda que vivendo numa megalópole. Fora isso, conforta perceber que, apesar da crise e da indigestão Bolsonaro, o cinema nacional ainda respira.


Para ir além

Trailer oficial

“Minha Cabeça”¸ de Clarice Falcão

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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