Teria o Oscar mudado seus critérios de indicação à Melhor Trilha Sonora? | Jornal Plural
20 mar 2021 - 1h00

Teria o Oscar mudado seus critérios de indicação à Melhor Trilha Sonora?

Um dos filmes pode representar mudança paradigmática importante no entendimento do que se deve levar em conta na indicação de uma trilha

Faltando pouco mais de um mês para conhecermos os vencedores do Oscar 2021, vou dedicar meus próximos textos às categorias que fazem parte do escopo de assuntos desta coluna, começando pela de Melhor Trilha Sonora. Os indicados já foram divulgados pela imprensa ao longo desta última semana, mas é importante relembrarmos quais são, nominando seus compositores:

Indicados na categoria Melhor Trilha Sonora

FilmeCompositor
Destacamento BbloodTerence Blanchard, que também compôs a trilha de Infiltrado na Klan (2018).
MinariEmile Mosseri, autor da trilha de The Last Black Man in San Francisco (2019).
Relatos do MundoJames Newton Howard, veterano compositor que acumula oito indicações ao Oscar, tendo entre seus trabalhos mais recentes os derivados de Harry Potter, Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016) e Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (2018).
MankTrent Reznor e Atticus Ross, dupla vencedora do Emmy pela trilha da série Watchmen, da HBO.
SoulTrent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste, considerado um dos melhores pianistas de jazz da atualidade e integrante da banda Stay Human, do programa de televisão The Late Show.

Hoje vou falar sobre os dois últimos títulos desta lista, porque são apostas importantes e que dobram as chances da dupla Trent Reznor e Atticus Ross faturar a estatueta. Vale lembrar que eles estão perto de se tornar um dos poucos EGOTs existentes, premiados no Emmy, Grammy, Oscar e Tony (o Oscar do Teatro dos Estados Unidos). Falta a eles somente o Tony para fechar a conta, o que equivaleria a vencer as 500 Milhas de Indianápolis, o GP de Mônaco e as 24 horas de Le Mans no automobilismo. Não é pouca coisa.

Trent Reznor e Atticus Ross diante do cartaz da série Watchmen, da HBO, que rendeu o Emmy à dupla. Crédito da foto: divulgação.

Ocorre que nesta corrida do Oscar eles têm um companheiro de equipe a mais, o pianista Jon Batiste, também indicado pelo filme Soul, o que pode significar uma dissonância. Outro dia eu conversava sobre isso com um amigo que me lembrou de um detalhe importante relacionado às indicações do Oscar para Melhor Trilha Sonora, de que a academia leva em conta a “underscoring music” e não a “source music”. Isso muda bastante o entendimento quanto à trilha, porque a primeira definição tem a ver com o som extra diegético do filme, ou seja, tudo aquilo que se ouve mas não está presente na cena. A segunda definição é exatamente o oposto, porque se refere ao som diegético, percebido quando a fonte sonora aparece em cena. Por exemplo: a entrada de Darth Vader em Star Wars ao som da “Marcha Imperial”, sem que exista uma banda sinfônica em cena executando a peça, é música extra diegética. Em contraponto, a cena do baile em De Volta Para o Futuro, quando Marty McFly toca guitarra com uma banda e vemos a fonte sonora, que são os músicos tocando, é um exemplo de música diegética. Pode-se entender também que a música diegética é ouvida pelas personagens, enquanto a extra diegética destina-se apenas ao público.

Mas o que esse debate tem a ver com os filmes indicados? Tudo. No caso de Mank, apesar de não apresentar grandes surpresas ou criar temas inesquecíveis, a trilha parece estar totalmente adequada à categoria, devido ao caráter extra diegético. Trata-se de uma partitura interessante, que prioriza o jazz, não utiliza instrumentos virtuais ou sintetizadores para parecer mais autêntica e realmente coloca o ouvinte inserido no contexto da primeira metade do século XX. Quanto à animação Soul, pode haver uma certa confusão de conceitos, uma vez que a inclusão do trabalho de Batiste levanta essa discussão, por ter sido ele quem compôs e gravou todas as performances ao piano da personagem principal, Jon Gardner.

O pianista da Stay Human, Jon Batiste, é um dos indicados pela trilha sonora de Soul. Crédito da foto: divulgação.

Já falei sobre Soul aqui na coluna, porque realmente considero a atuação de Batiste uma das coisas mais bem aproveitadas e inteligentes que ouvi recentemente. Entendo que isso não se deve somente ao músico, mas também à produção, pela grande sacada de filmar as mãos do pianista por vários ângulos, para criar a animação da personagem a partir dos movimentos do músico, dando ao filme um ar realístico que impressiona. Impecável do ponto de vista da performance e também da iconografia, no entanto, é diegético, portanto a pergunta que me vem à mente é: poderia Batiste ter sido indicado na categoria de Melhor Trilha Sonora, que prioriza exatamente o oposto do trabalho feito por ele? Há outras perguntas que também podem render boas conversas, como, por exemplo: que parceria seria essa entre Reznor, Ross e Batiste, sendo que o último compôs uma camada que não está relacionada diretamente à trilha sonora escrita pelos outros dois? Além do mais, é importante dizer que o mérito musical de Soul está justamente no trabalho de Batiste e não na trilha de Reznor e Ross, necessariamente. Se a animação levar a estatueta de Melhor Trilha Sonora terá sido, provavelmente, por conta da atuação do pianista. 

O realismo de Soul ao retratar as performances ao piano deve-se à filmagem das mãos de Batiste. Crédito da foto: divulgação.

Para ensaiarmos respostas a essas perguntas, duas coisas devem estar no radar. A primeira é de que a academia do Oscar pode ser tudo, menos acadêmica, então não há rigor científico entre seus pares. A segunda é de que o cinema e as artes de modo geral têm vivido um tempo de amplas mudanças, dentre as quais está a adoção do streaming entre os meios possíveis de difusão dos filmes, no caso de Mank, a Netflix, enquanto Soul faz parte do Disney+. Se o cinema mudou, por que a trilha sonora premiada também não pode mudar?


Para ir além

Mank

Trailer oficial:

Trilha sonora:

Soul

Trailer oficial:

Trilha Sonora:

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