Releituras musicais no cinema | Plural
4 nov 2019 - 22h24

Releituras musicais no cinema

Às vezes gostamos tanto da segunda versão de uma música que ela passa a ser a original

O universo da arte é algo imersivo e apaixonante, porque todo tipo de manifestação artística tem a capacidade nata de levar seu público a diferentes lugares. Contudo, para apreciarmos uma obra de forma mais ampla, é recomendável que utilizemos alguns referenciais teóricos. Não estou falando de leituras aprofundadas e de largo conhecimento acadêmico, pode ser apenas o saber escolar sobre o assunto, que já será suficiente para que haja uma fruição satisfatória da arte observada.

Um desses conceitos tem relação com a leitura e a releitura de uma obra. A primeira vem da análise e da observação pura e simples, enquanto que a segunda consiste numa criação a partir da obra original. Quanto se trata de música, a releitura passa, essencialmente, pelo universo do arranjo. Uma nova instrumentação, uma batida diferente, um outro tipo de construção harmônica ou uma mudança sensível de andamento, podem ser recursos que o arranjador utilizará para essa releitura.

Releituras no cinema

No cinema são vários os exemplos de releituras musicais, sendo que, em certos casos, essa pode ser a peça principal do filme. Um dos melhores e mais recentes exemplos disso é a animação Sing – quem canta seus males espanta (2016). Nela, o simpático Mr. Moon, um coala que é dono de uma casa de espetáculos, tenta colocar seu teatro de volta no topo por meio de um concurso de novos talentos. A animação apresenta uma deliciosa seleção de canções, todas relidas especialmente para o filme.

Uma dessas músicas que ganharam um novo arranjo é I’m Still Standing, de Elton John. No filme, a canção é interpretada por Jhonny, um jovem gorila que não quer seguir os caminhos do pai, chefe de uma quadrilha de assaltantes. Quem dá voz à personagem e também canta a música é o ator Taron Egerton, que mais tarde viveria o próprio Elton John em Rocketman, filme do qual já falei aqui na coluna PopCorn Music.

A releitura de I’m Still Standing na voz de Egerton é excelente, realmente empolga e me faz pensar em um outro conceito, agora sim mais profundo do que o saber escolar nos apresenta, que é a instância de representação do original. Ocorre que, ao ouvirmos uma música e ficarmos impactados por ela, aquela primeira versão ouvida torna-se a nossa referência de originalidade para a canção.

Exemplo caseiro

No caso do filme Sing, vou exemplificar com um relato doméstico. Meus filhos ouviram I’m Still Standing pela primeira vez na versão do filme. A trilha sonora entrou no hit parade aqui de casa. Achei curioso o interesse pela canção do gorila Jhonny e resolvi mostrar aos dois a versão que, para mim, representa o original. Resultado: nenhum deles gostou.

Fiquei pensando a respeito e entendi o seguinte: a instância de representação do original, para eles, é a versão do filme Sing, enquanto que a original de verdade, raiz, gravada pelo Elton John, é só uma versão ruim da mesma música.

Nothing Hill

Há vinte anos vivi situação semelhante. Assisti ao filme Nothing Hill (1999), estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant. Gostei demais. Vi outras tantas vezes e até comprei uma cópia em VHS e depois outra em DVD (que tenho até hoje).

Pois bem, eu, estudante de música, parti para o piano tirar de ouvido a canção tema, She, na voz do Elvis Costello. É bom salientar que estávamos numa época em que a internet era algo quase inexistente e não havia partituras para baixar, nem tutoriais no YouTube de como tocar determinada música, então a solução era mesmo tirar de ouvido. Estudei bastante e cheguei a transpor para o piano – e mais tarde para o saxofone – até os ornamentos vocais do Costello.

Pouco tempo depois fui apresentado ao falecido Napster, um sistema que permita baixar músicas em MP3. Animado com a novidade, procurei a canção She e a encontrei, mas na voz de Charles Aznavour. Ouvi e não gostei. Até hoje, para os meus ouvidos, a instância de representação do original de She continua sendo – e sempre será – com o Elvis Costello.

No ano passado fui gravar um material musical instrumental com o meu amigo Lucas Franco, um ótimo pianista de jazz. Entre as músicas estava She. Adivinha qual foi a representação do original que adotei na interpretação?

Para ir além

She, em nossa releitura instrumental

She, com Elvis Costelo

She, na voz de Charles Aznavour

I’m Still Standing, na versão do filme Sing

I’m Still Standing, no original de Elton John

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