12 jun 2021 - 0h48

Música e cinema, um namoro perfeito

Há filmes nos quais a trilha sonora entra na história e vira um cupido

O Dia dos Namorados é uma data comercial, ninguém duvida disso, entretanto, não se pode negar seu romantismo. Tendo em vista que a pandemia insiste em não nos deixar a sós, um bom filme para se ver a dois, debaixo de um cobertor, torna-se um programa irresistível. Foi justamente o que a minha linda Priscila e eu fizemos durante esta última semana, quando revimos ótimas histórias que aqueceram o nosso namoro de quase duas décadas. Por razões óbvias, os filmes que escolhemos têm na música um dos elementos narrativos de maior destaque, por isso resolvi escrever sobre um desses títulos, para talvez inspirar você a formar sua própria lista com base neste critério. Organizei minha análise em dois tópicos diferentes: o primeiro trazendo uma breve argumentação teórica sobre o que pretendo salientar no filme e o segundo apontando alguns detalhes contidos em O Amor Não Tira Férias (2006), disponível no catálogo da Netflix.

Um pouco de teoria

Na página 110 do livro A Formação da Poética Musical do Cinema (Via Lettera, 2003), ao analisar o tema musical de amor que surge no filme O Nascimento de Uma Nação (1915), Ney Carrasco considera que “a articulação entre planos imagéticos e temas musicais gera um resultado ímpar, que só é possível por sua mútua combinação”. No mesmo livro, o autor nos deixa outras pistas que conduzem ao entendimento de que a música e o cinema consistem em duas manifestações possíveis de ser explicadas como sendo partes complementares de um todo, devido àquilo que ele classifica como “polifonia visual”. Note que Carrasco empresta o termo musical “polifonia”, ou seja, a junção de vozes diferentes escritas numa mesma obra, e o ressignifica, inserindo-o a um contexto no qual a música se torna uma dessas vozes e o vídeo a outra, resultando em um namoro perfeito entre som e imagem.

Esta revisão teórica, mais do que breve, veio para explicar o porquê do filme indicado como sugestão nesta coluna. Trata-se de uma obra que tem a música em posição de destaque nesta “polifonia”, porque é por meio dela que a história se concretiza, quase como se fosse uma personagem a mais, um cupido para os casais apaixonados que aparecerão na tela.  

O Amor Não Tira Férias

Jude Law, Cameron Diaz, Kate Winslet e Jack Black formam o elenco deste filme, que tem a trilha sonora composta por Hans Zimmer. Foto: divulgação.

Com o título em inglês The Holiday, o filme conta a história de Amanda Woods (Cameron Diaz), produtora de trailers de Hollywood, e Isis Simpkins (Kate Winslet), jornalista de Londres. Entristecidas, decidem passar o feriado natalino longe de seus problemas pessoais, porque Amanda foi traída pelo namorado e Isis acaba de saber que o homem por quem está apaixonada há três anos vai se casar com uma colega de trabalho. Por isso, anuncia sua casa na internet, conhece Amanda e ambas decidem fazer uma troca de residências por duas semanas. O que vai acontecer é que, na Inglaterra, Amanda conhecerá o charmoso Graham (Jude Law), enquanto nos Estados Unidos Isis ficará encantada pelo simpático compositor Miles (Jack Black).

A música ganha destaque neste filme justamente porque o antigo namorado de Amanda é um compositor de trilhas musicais para cinema, a mesma atividade que Miles desempenha. Logo na cena de abertura existe uma bela tomada voltada a ilustrar o processo produtivo de Miles, que surge compondo o tema musical de uma cena romântica. Na verdade, a música que ele encena compor é o tema principal do filme, “Maestro”, escrito por Hans Zimmer, autor da trilha sonora. Todo o mobiliário do estúdio que Miles tem em casa, com os programas de computador utilizados para compor as músicas, os teclados, cadernos de partitura sobre a mesa, entre outros adereços, dão profundidade e realismo.

Kate Winslet e Jack Black. Foto: divulgação.

Mais adiante, numa cena descontraída dentro de uma locadora de vídeos, aquele lugar do passado onde os casais se dirigiam aos sábados à noite a fim de encontrar um bom filme e que hoje é quase um sítio arqueológico, Miles mostra as caixas dos DVDs nas prateleiras e indica títulos para Isis. Ele faz suas sugestões cantarolando trechos das trilhas sonoras e falando dos compositores. Surgem ali clássicos como E o Vento Levou (1939), Tubarão (1975), A Missão (1986) e Conduzindo Miss Daisy (1989). É um passeio prazeroso e cultural.

Apesar de todas as sacadas de roteiro, vai ser mediante a trilha de Hans Zimmer que a história se completará neste filme. Suas escolhas, tanto do ponto de vista da composição quanto do arranjo, mostram-se pautadas num sentimentalismo que poucas vezes se ouve. Não se trata de uma trilha épica, afinal de contas não há super-heróis em cena, tampouco fatos históricos marcantes, mas sim de uma sonoridade que se parece com um abraço. Você vai notar que em momentos de dinamismo, quando uma decisão está para ser tomada, o piano e as cordas surgem em passagens rítmicas rápidas e de alta densidade, contrastando com as notas longas e os sons pouco intensos destinados aos momentos de introspecção das personagens. Compensa assistir a este filme, principalmente abraçado a quem você ama.

Trilha sonora de O Amor Não Tira Férias.

Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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