26 jun 2021 - 9h00

Juntos Novamente, um filme sem palavras

Curta de animação estabelece diálogos por meio da música e suplanta a barreira da língua

Um filme sem diálogo pode funcionar? Resposta convincente a esta pergunta vem da animação Juntos Novamente, lançada no Disney+, que demonstra ser possível estabelecer uma conversa envolvente mesmo sem as palavras. Neste curta, o diretor Zach Parrish e a compositora Pinar Toprak trabalharam em conjunto para embasar a narrativa por meio da música, da imagem e da dança, promovendo o que o ensino da arte identifica por “artes integradas”.  

O trabalho conjunto da compositora Pinar Toprack e do diretor Zach Parrish é o diferencial de Juntos Novamente. Fotos: divulgação.

O curta conta a história de um casal de idosos que, numa noite mágica, redescobre a alegria de viver e percebe que envelhecer junto de alguém especial é uma dádiva. Com pouco mais de seis minutos de duração, não se ouve uma só palavra, apenas os sons dos efeitos e da música. Todos os diálogos acontecem por meio dos instrumentos, como se estes fossem as vozes das personagens.

Em uma entrevista que mostra os bastidores desta produção, Pinar Toprack (autora da trilha sonora do filme solo da Capitã Marvel, já discutido nesta coluna) revela detalhes do processo de composição e mostra que o trabalho integrado com o diretor, Zach Parrish, foi o fator decisivo para o sucesso da obra como um todo. Ela conta que recebeu de Zach a encomenda de uma trilha musical com elementos do Soul e do Funk relacionados às décadas de 1960 e 70, ao mesmo tempo em que deveriam ser incorporadas sonoridades possíveis de se ouvir nas rádios atuais.

Trabalhar com estratégias de época não é novidade para esta compositora, que no filme da Capitã Marvel (2019) trouxe elementos da década de 1990, quando a trama se passa. Contudo, em “Juntos Novamente”, além desta questão da temporalidade, ela precisou lidar com uma espécie de “mapa de emoções” criado pelo diretor. Ocorre que Zach repassou à compositora um roteiro dos diferentes humores que surgiriam na história, indicando a cada minuto o tipo de emoção a ser representada através da música. O que se percebe é que há momentos de alegria, romance, tristeza e apreensão, tudo isso sendo exibido ao som de instrumentos de base instrumental (como piano, baixo, bateria, órgão eletrônico e guitarra) e outros de cobertura (como trompetes, saxofones e cordas). O resultado é arrebatador, um verdadeiro deleite que nos afeta os sentidos, a começar pela visão, uma vez que a plasticidade das cenas é de uma elegância ímpar, terminando pela audição, que nos revela nuances preciosas da composição.

A transição de humor se dá por meio da música, a exemplo dos diálogos. Foto: divulgação.

Dentre a malha sonora destaca-se o uso de um instrumento em especial, que promove o elo entre o passado e o presente. Falo do órgão eletrônico Harmmond B3, cuja inserção se dá de forma sutil em diversos momentos da obra, servindo como fio condutor entre as passagens de humor que são vistas na tela. As entradas deste instrumento no arranjo diferem em virtuosismo dos improvisos no trompete, das escalas de muitos dedos no piano e das viradas estonteantes da bateria. O órgão, quando aparece, traz notas de longa duração, enfatizando desenhos melódicos que são apoiados tecnicamente nas notas caraterísticas dos acordes que soam no acompanhamento. Além do mais, é ele quem dá sentido aos olhares das personagens, sejam estes introspectivos ou diretos.

Saldo final: será difícil surgir ainda neste ano um curta de animação mais eficiente do que este, pelo menos do ponto de vista da composição musical. A ver.


Para ir além

Entrevista com a compositora Pinar Toprak, que traz detalhes do processo produtivo da trilha sonora de Juntos Novamente

A música completa do filme:

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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