7 maio 2022 - 9h00

“Cavaleiro da Lua”: uma trilha de personalidade para um herói que tem múltiplas

O egípcio Hesham Nazih criou o som preciso para transmitir as complexidades da mente perturbada do protagonista

Sempre quando converso sobre arte, seja nas aulas que ministro ou mesmo nos ambientes informais, costumo dizer que o artista é um indivíduo que passa o tempo todo fazendo o seguinte trânsito: lança mão de algo subjetivo, como um sentimento ou ideal, e dá a isso contornos formais por meio da objetividade de uma linguagem artística, transformando aquilo que outrora estava no campo da subjetividade em uma obra de arte.

No caso da trilha musical para um audiovisual, essas camadas de subjetividade consistem numa verdadeira polifonia, sobre a qual o compositor precisa debruçar-se a fim de abstrair leituras que lhe permitam traduzir, por meio de critérios sonoros, aquilo que se vê na tela. Quando o trabalho ocorre de modo satisfatório, chega-se a um resultado como o que se ouve em “Cavaleiro da Lua”, a mais recente série do Universo da Marvel, que teve seu sexto e derradeiro episódio veiculado na última quarta, pelo streaming da Disney.

Trilha

Para escrever as obras que integram a trilha incidental, a Marvel escalou Hesham Nazih, compositor egípcio de 49 anos que tem feito um trabalho interessante, fora dos circuitos convencionais da grande indústria cinematográfica. Em suas escolhas musicais para esta trilha, Nazih parece ter bebido da fonte certa: o alemão Hans Zimmer, vencedor do Oscar em 2022 e que, em 1998, compôs a trilha da animação “O Príncipe do Egito”, até hoje uma das minhas favoritas.

O que há de semelhante?

A exemplo de Zimmer, Nazih não economiza no uso dos metais graves e das trompas; carrega sequências de acordes que se alternam tendo as cordas como fio condutor; explora uma sonoridade coral na qual o coro não se destaca por meio da letra da canção, mas sim por efeitos que se somam à orquestra; utiliza a percussão (tímpanos, pratos, entre outros) encaixados com os ataques dados pelos metais graves e pelos contrabaixos; pratica com perfeição a permutabilidade entre os modos maior e menor, o que confere dinamismo e cria um discurso musical eloquente para caracterizar as divindades egípcias inseridas à narrativa. A principal diferença reside no fato de que ele, Nazih, carrega a bagagem cultural de um egípcio, algo que não se adquire da noite para o dia.

Um hino cristão

Surpreendeu o uso de um tradicional hino da hinódia cristã sul-americana, “Mas Alla Del Sol”, composição de Emiliano Ponce e que toca no final de um dos episódios. Com arranjo e interpretação de Manuel Bonilla, este hino faz menção ao paraíso conforme a concepção teológica dos adventistas do sétimo dia. Conta que “além do sol” existe um lugar, para onde os salvos irão, cuja beleza não se compara a nada que exista na Terra.

A série valeu-se dessa concepção do “Céu” narrada pelo hino e criou uma imagem de um campo de juncos, presente na mitologia egípcia, iluminado por uma forte luz do sol, daí o trecho do refrão, em espanhol, como sendo um leitmotiv para isso. Criou-se, assim, uma espécie de salada teológica que pode irritar a alguns e passar desapercebida para outros. No entanto, compreendem-se as razões para a escolha: primeiro por conta da temática e da associação visual feita ao sol; segundo, por ser um hino cantado em espanhol, tendo em vista que o protagonista é da Guatemala.

Saldo

Salvo alguns problemas no ritmo da narrativa, que deixam a história um pouco sem controle em certos momentos, acelerando coisas que poderiam ser mais bem explicadas, a série é envolvente e mostra um herói perturbado. O protagonista tem múltiplas personalidades e não se pode definir por completo se o mundo no qual habita é real ou inventado por sua mente. Ligada intrinsicamente à mitologia egípcia, começa a ser contada em Londres e termina no Cairo, ao pé das grandes pirâmides do complexo de Gizé. Do ponto de vista musical, é excelente; do ponto de vista audiovisual, parece que faz parte de uma espécie de “segunda divisão da Marvel”, apesar da atuação de Oscar Isaac no papel principal, cujas mudanças de expressão facial, ao alternar entre as personalidades do “Cavaleiro da Lua”, impressionam. Em suma, não tem muito do Egito que ainda não tenha sido mostrado pelo filme “A Múmia” (1999). O que isso significa? Que não tem nada a ver com o Egito Antigo, é uma produção estadunidense e ponto final.

Para ir além

Trilha sonora de “Cavaleiro da Lua”:

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