As performances musicais em Soul | Jornal Plural
6 fev 2021 - 8h00

As performances musicais em Soul

Animação da Pixar é exemplar ao retratar o jazz

Lançada no final do ano passado, a animação Soul, disponível no catálogo do Disney+, é, acima de tudo, um filme sobre música. Não um filme musical, mas sim uma obra que tem a música, especialmente o jazz, como fio condutor. São raros os filmes que retratam performances musicais dos quais eu realmente gostei do resultado. O motivo disso é bem simples: fazem tudo menos o essencial. Falta coerência, porque se os instrumentos aparecem na tela sendo executados de um jeito a música não pode soar diferente daquilo que está sendo representado. Garanto que não é este o caso de Soul, porque a produção foi criteriosa e buscou a consultoria de músicos profissionais e de pesquisadores da área.

Vou falar somente dos 10 minutos iniciais, porque estes já deixam claro que depois virá coisa boa, potencialmente premiável. Joe Gardner é um pianista que dá aulas de música em uma escola de Ensino Fundamental, mas seu objetivo é entrar no circuito dos clubes de jazz novaiorquinos. Sua primeira aparição tem como pano de fundo uma partitura escrita no quadro de giz, da qual fiz uma análise para indicar os elementos que, ao meu ver, denotam bastante cuidado com as questões musicais:

Frame do filme, exibindo a partitura de uma música de Duke Ellington. Crédito da imagem: reprodução.
  1. Temos a indicação de que se trata da parte “A” da música, ou seja, o tema.
  2. A armadura de clave mostra cinco bemóis escritos na partitura, que correspondem à tonalidade da música, Db (Ré Bemol), indicada no lado oposto do quadro.
  3. Ao melhor estilo dos standards de jazz, temos somente o tema escrito, o que confere aquele ar minimalista característico às partituras do gênero, abrindo espaço para improvisações.
  4. Vê-se a indicação de autoria, neste caso de um dos mestres do jazz, Duke Ellington.
  5. Aparece a data da composição, que é um standard escrito em 1942.
  6. Para fechar, vem a indicação de que a progressão de acordes adotada é a famosa 12 Bar Blues (twelve-bar blues), que vai resultar em um dos encadeamentos de acordes mais conhecidos do gênero. Se você observar bem, verá que são apenas doze compassos escritos no quadro.

Como pode ser percebido, foram vários os elementos destacados somente nesta cena, que dura menos de 10 segundos na tela. Então, se para algo tão breve o cuidado foi esse, imagine no restante.

As performances ao piano foram compostas e gravadas pelo pianista Jon Batiste, um dos mais aclamados nomes do jazz na atualidade. A equipe de animação filmou os movimentos das mãos de Batiste e criou as animações a partir dessas filmagens, por isso, a sensação de realismo é tão grande. Isso significa que os dedos estão todos nas teclas corretas e no tempo exato, quase como se fosse o próprio Batiste aparecendo na cena.

O pianista Jon Batiste – líder da banda Stay Human, que se apresenta regularmente no programa de televisão The Late Show – é  quem dá vida às performances pianísticas de Soul.

O realismo nos movimentos vai se repetir ao longo do filme, por exemplo, quando Gardner chega para um teste num clube de jazz, onde uma saxofonista está fazendo seu aquecimento. A digitação que ela faz no sax é precisa, bem como a forma com que sopra a boquilha, isso sem levarmos em conta a representação visual do instrumento. Pode parecer pouco, mas essa riqueza de detalhes faz toda a diferença.

Precisão também na representação visual dos instrumentos.

Essa breve descrição do início do filme tem o objetivo único de aguçar a curiosidade. Posso assegurar que o que virá depois, em termos musicais, seguirá o mesmo padrão. Você verá coisas como a atmosfera dos clubes de jazz, as expressões dos músicos durante os momentos de improviso e de criação coletiva, algumas referências a artistas do gênero, entre outros fatores. A soma de todo esse apuro técnico faz de Soul um verdadeiro masterclass.

Professor x Performer

O filme levanta uma discussão importante, que envolve a carreira do magistério em contraponto à do palco. Não é raro encontrarmos músicos atuando como professores, o que é muito lógico, porque música deve ser ensinada por músicos. Parece óbvio, mas ocorre que estes músicos/professores por vezes são encarados, ou até mesmo enxergam a si mesmos, como gente que não deu certo, porque estão fora do palco, cumprindo demandas educacionais. Seria esse o caso de Gardner? Isso corresponde à realidade? Não estou aqui para trazer respostas a essas perguntas e nem a outras de cunho filosófico que irão aparecer. Indico o filme justamente pelas perguntas que ele traz e não pelas respostas que delas poderão vir. 


Para ir além

Trilha Sonora

Trailer de Soul

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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