18 mar 2021 - 1h00

Luta das mulheres, crise hídrica e pandemia

Curitiba passa pela pior seca em 40 anos. Esta situação tem um impacto no cotidiano das pessoas e ainda maior na vida das mulheres

Como feminista e militante da Marcha Mundial de Mulheres, costumo em março – mês de luta das mulheres – debater temas como a violência contra a mulher, feminicídio, direitos sexuais e reprodutivos e o combate à desigualdade de gênero. Mas desta vez, usarei esse espaço para abordar duas crises que vivenciamos neste momento: a crise hídrica e a crise sanitária causada pela Covid-19 e como elas têm impactado as pessoas, especialmente a vida das mulheres. Em uma sociedade desigual como a nossa, a crise hídrica e a pandemia escancararam e agravaram as desigualdades sociais.

Curitiba passa pela pior seca em 40 anos, o rodízio no fornecimento da água acabou sendo a única alternativa para garantir um mínimo de abastecimento para a população. Além deste fenômeno climático, a falta de planejamento e investimentos na rede de captação por parte da Sanepar agravou ainda mais a crise hídrica.

Esta situação tem um impacto no cotidiano das pessoas e ainda maior na vida das mulheres. Em pesquisa realizada no período de 27 de abril a 11 de maio de 2020 (Sem parar: O trabalho e a vida das mulheres na pandemia, SOF e a Gênero e Número), entre as mulheres que identificaram não ter as condições para a prevenção à Covid-19, a falta de água ou o acesso intermitente à água foi destacada.

Quando refletimos sobre a realidade de Curitiba, com mais de 400 ocupações irregulares, em que grande parte das casas não têm sequer caixa d’água, verificamos que o risco de contaminação é potencializado.

“A vida só é possível porque é cuidada: trabalho doméstico, atenção, comida, auxílio, limpeza, água.” (A sustentabilidade da vida no centro da agenda política, Revista da Democracia Socialista, Janeiro 2021). Quando pensamos nestas ações, logo percebemos que no cotidiano de nossas casas ainda cabe, em grande medida, às mulheres dar conta de tudo.

As profissões que têm relação com as atividades domésticas e com o cuidado das pessoas são majoritariamente ocupadas por mulheres: diaristas, trabalhadoras dos serviços da limpeza, enfermeiras, técnicas de enfermagem, assistentes sociais, educadoras sociais.

Diaristas e trabalhadoras dos serviços de limpeza compõem a maioria dos trabalhadores que se encontram hoje na informalidade, muitas delas ficaram sem renda, pois já se encontravam numa situação de precariedade porque não são protegidas pelas leis trabalhistas. A vulnerabilidade só aumentou com a pandemia.

As trabalhadoras que estão na linha de frente, seja na área de assistência social ou da saúde, além de estarem mais expostas ao vírus, têm uma jornada de trabalho mais exaustiva e desgastante e o sofrimento psicológico atinge a maioria destas trabalhadoras.

Na mesma pesquisa citada acima, constatou-se que no período da pandemia 50% das mulheres passaram a cuidar de alguém. Para aquelas que puderam manter seus empregos através do trabalho remoto, a sobreposição de atividades as sobrecarregou ainda mais, atividade laboral, cuidado com os filhos e o trabalho doméstico.

Tanto homens quanto mulheres devem ser responsáveis pelas tarefas domésticas e do cuidado para superação da divisão sexual do trabalho. Certamente, ao mudarmos esta realidade dentro de nossas casas, daremos passos decisivos para que as profissões ligadas ao cuidado das pessoas sejam valorizadas, diminuindo a diferença dos salários entre homens e mulheres.   

Este cenário só reforça a necessidade de continuarmos nossa luta pela redução das desigualdades de gênero e para que possamos conquistar uma sociedade justa, igualitária e que respeite as diferenças!


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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