17 fev 2021 - 7h32

Lugar de mulher é onde ela quiser

Quando recebi o convite para um espaço de coluna no Plural comecei a pensar em temas que são de interesse público, mas antes de aborda-los, resolvi estrear com uma breve apresentação

Confesso que nunca me imaginei ocupando uma cadeira no Legislativo. Filha de uma professora primária e de um alfaiate, as conquistas na minha vida sempre foram fruto de muita dedicação.

Já na adolescência, mesmo sem ter o entendimento, à época, do porquê das desigualdades sociais, isso já me causava uma grande indignação. Na minha opinião, todas as pessoas deveriam ter as mesmas oportunidades. Havia outra questão que me incomodava muito: por quê as tarefas domésticas eram consideradas como uma obrigação das mulheres?

Depois, entrei na universidade, o grande sonho de minha mãe, que fez todos os esforços para que seus filhos tivessem esta oportunidade.

Comecei a trabalhar como servidora no município de Curitiba em 1985, como professora das séries iniciais do ensino fundamental. Sempre tive a convicção de que como professora poderia fazer a diferença na vida de crianças e adolescentes.

Logo veio o envolvimento nas mobilizações e greves da categoria. Participei em um primeiro momento do movimento sindical como representante de escola e, mais adiante, ocupei a direção do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac).

Participar dessas mobilizações contribuiu muito na formação de minha consciência política e me fez compreender que a desigualdade social é um dos pilares do sistema capitalista. Além disso, quando ingressei na rede municipal estávamos no auge da reabertura democrática, momento de muito mobilização social. Na educação, iniciava-se a construção do currículo básico de Curitiba, os diversos cursos ofertados pela Secretaria Municipal de Educação levavam à reflexão sobre o funcionamento da sociedade e importância do conhecimento para que nossos estudantes construíssem sua autonomia, se tornassem cidadãos críticos e lutassem por seus direitos.

Esse processo me levou a participar também da vida partidária. No meu partido e no movimento sindical me deparei com as disputas pelos espaços de poder e o machismo tornou-se mais evidente. Compreendi que não se limitava a subordinar as mulheres no interior dos seus lares e sobrecarrega-las com as tarefas domésticas e com o cuidado com os filhos(as), idosos(as) e doentes. Ia muito além disso. Significava também que nos diferentes setores da sociedade são os homens que ocupam os espaços de poder, os cargos ou funções de maior destaque. Mesmo nos sindicatos ligados à educação, onde a ampla maioria da categoria é feminina, geralmente os homens ocupam as presidências das entidades.

Outra indignação se manifestava de forma mais concreta: mulheres não são valorizadas por esta sociedade, precisam se empenhar muito mais que os homens para serem reconhecidas. Aos poucos vinha se moldando a mulher feminista, que desabrocha na militância junto à Marcha Mundial das Mulheres.

Em meio a tudo isto, outras indagações coletivas me surgiram: por que o Legislativo, na Câmara Municipal de Curitiba, os vereadores geralmente representam setores econômicos ou famílias? Por que não eleger um servidor ou servidora para representar nossa categoria? Mais um desafio a ser enfrentado; uma servidora da educação ocupar este espaço.

Em 2004, me candidatei pela primeira vez ao cargo de vereadora pela decisão de um coletivo de servidoras e servidores, uma campanha militante, com pouquíssimos recursos, o projeto coletivo se transformou em realidade. Já como vereadora, percebi a misoginia e o machismo que marcam a política e o parlamento, consciente também da luta diária de uma mulher, representante da classe trabalhadora.

Representar a categoria das professoras e professores, lutar por uma educação pública de qualidade para todos e todas e por políticas públicas que reduzam as desigualdades sociais, me levou a absorver também as pautas de gênero, de raça, LGBTQI+, população em situação de rua, entre outras. Além disso, a compreensão que o direito à cidade é o guarda-chuva que abrange todas estas demandas. Construindo assim um mandato coletivo, articulado com vários movimentos sociais.

Depois de cumpridos quatro mandatos e em cada dia de trabalho e luta na Câmara Municipal, minha convicção cada vez mais se reforça: que o lugar de mulher é onde ela quiser e, especialmente na política, pois é a política que define a vida das pessoas.


A coluna PoliticAS reúne semanalmente, em formato de rodízio, textos das vereadoras eleitas de Curitiba.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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