12 maio 2022 - 12h43

Cicatrizes da escravidão em Curitiba

Mazelas do racismo permanecem na capital mais preta do sul do país, resultado de uma abolição inacabada

Muitas e muitos podem até achar que não, mas em Curitiba também teve escravidão. A primeira imagem que faz registro da cidade é uma pintura do artista francês Debret, de 1827, em que ele mostra um homem negro escravizado construindo o que hoje são as ruínas da Igreja de São Francisco, em um dos pontos mais altos da cidade. Consequência de um estado que abrigou, através do porto de Paranaguá, um dos principais centros de contrabando do país, recebendo negros escravizados e os conduzindo para diversas cidades.

Na capital paranaense é necessário que mantenhamos a memória viva, não invisibilizando diversos pontos que remetem a esse período, como o Pelourinho, local onde a população negra era açoitada em espaço público e a Casa de Câmara e Cadeia que mantinha diversos negros escravizados presos acusados de fugirem de seus senhores, onde atualmente encontra-se o Mercado das Flores e o Paço da Liberdade.

Na Rua XV de Novembro, próximo à Praça Osório, no centro da cidade, existia um jornal local chamado Dezenove de Dezembro que divulgava a fuga de escravizados e ainda anunciava pedidos de compra dessas pessoas. Em um trecho de uma publicação havia escrito: “Precisa-se comprar uma negrinha ou moleque de oito a dez annos; quem tiver dirija-se a esta typografia que indicará a pessoa que pretende”.

Diversos são os locais que marcam as cicatrizes de um período sombrio para a construção da nossa sociedade e mesmo após a dita abolição da escravidão em 1888, as mazelas do racismo permanecem. Uma cidade que comprovadamente tem uma enorme contribuição da população negra, ainda, marginaliza e joga para as áreas periféricas essas pessoas.

Vemos muitas negras e negros nas ocupações urbanas, em situação de rua e em condições precárias de vida, resultado de uma abolição inacabada e é inacabada porque encerra um período de escravidão e inicia um período de falta de políticas públicas, do direito à infraestrutura e equipamentos urbanos, do direito à terra e ainda a falta do direito à vida, e uma vida digna.

Curitiba tem que avançar muito ainda enquanto sociedade para superar o racismo estrutural. Uma prova disso é que somente após 327 anos eu fui a primeira mulher negra eleita vereadora desta cidade. Neste pouco tempo de mandato, vencemos algumas lutas que modificam as estruturas, mas encontramos desafios cada vez maiores e maior é a nossa vontade de continuar reescrevendo essa história!

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

6 comentários sobre “Cicatrizes da escravidão em Curitiba

  1. É isso aí vereadora, ainda e por muito tempo teremos que relembrar essa realidade, que infelizmente, parece que não entra no imaginário do povo. E pior, muitos brancos da elite sabem disso e negam que Curitiba vive o racismo estrutural. Parabéns por estar atenta a isso e se esforçar para romper com essa invisibilidade.

  2. Excelente texto. Não podemos ignorar ou distorcer nossa história. Além de ter sido escravagista, é importante lembrar que aqui houve uma grande simpatia pelo nazismo, o que gerou grupos que podem ser vistos em formação militar em diversas fotos.

  3. É fundamental divulgar estes documentos pra toda sociedade. São histórias macabras que deixaram feridas abertas que não cicatrizam facilmente. Cicatrizes servem de alerta e somente conhecendo o passado podemos construir o presente e planejar o futuro.

  4. Por um protesto pacífico em frente, depois adentrou na Igreja N.Srs do Rosário dos pretos, construida em 1725 pelos pretos que não podiam frequentar outras igrejas o vereador negro Renato Freitas está sofrendo processo de impeachment na Câmara dos Vereadores de Curitiba. Protesto pela defesa da vida e contra a morte violenta de dois negros recentemente.
    Pense nisso neste 13 de maio. Vamos abolir o preconceito e a perseguição!
    Não ao impeachment do vereador!

  5. Na Alemanha Oriental, as igrejas foram usadas para abrigar as pessoas que protestavam contra o muro de Berlim e ele foi derrubado. Dom Paulo Evaristo Arns realizou missas claramente políticas à época da Ditadura, uma delas, para denunciar a morte de Wladimir Herzog, ocorrida na prisão de forma arbitrária, e a democracia foi conquistada. Martin Luther King fazia comício nas igrejas e as leis racistas acabaram. O Padre Lancelot, em São Paulo, tem abrigado pobres nas igrejas, e a oposição está em primeiro lugar nas pesquisas para governador nas eleições de 2023. Aqui, uma manifestação na igreja, símbolo do acolhimento de pretos à época da escravidão, para lembrar a morte de duas pessoas de cor, leva ao impeachment? Mas se a própria cúria metropolitana pede para que Renato Freitas não seja condenado, o que estão julgando? Um ato contra o racismo? Penso que os vereadores deveriam reconsiderar suas posições. Curitiba está mudando, o direito a ter direitos é um mote que também é aceito entre nossos jovens. E eles votam! Aliás, boa parte deles elegeu Renato Freitas. Não dá mais para destilar este discurso autoritário do tipo “aqui mando eu”. Este barulho todo só fortalece nossos Renato Freitas

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