22 jun 2021 - 21h52

A inflação e o congelamento de preços

Toda vez que o fantasma da inflação começa a assombrar um país, a mesma história se repete e sempre surge a ideia “jenial” entre os governantes de apelar para o congelamento de preços!

Já passamos da metade do ano de 2021. Em março, a taxa básica de juros estava em 2% ao ano e após 6 anos de quedas sucessivas ou estabilidade, o Banco Central em reunião do Comitê de Políticas Monetárias (COPOM) retomou o movimento de alta da taxa SELIC. Este movimento repetiu-se pela terceira vez no dia 16/06/21 elevando a taxa para 4,25% ao ano.

Um dos motivos para que o Banco Central tenha tomado a decisão de aumentar a taxa de juros é para controlar um fantasma que já assombrou a população brasileira anos atrás: a INFLAÇÃO. Quem viveu no Brasil antes do Plano Real sabe do que estou falando… Enquanto hoje estamos discutindo valores de inflação que giram na casa dos 4 ou 5% ao ano, pouco antes do REAL a inflação chegava a assustadores 80% ao MÊS!! Consegue imaginar como era viver nessa loucura? Sim!! Era uma loucura… As pessoas recebiam seus salários e corriam para o supermercado para fazer suas compras do mês todo de uma vez só! Dois ou três carrinhos cheios de compras, pois o que o salário conseguia comprar no começo do mês era quase o dobro do que conseguiria comprar no fim do mesmo mês!!

Toda vez que o fantasma da inflação começa a assombrar um país, a mesma história se repete e sempre surge a ideia “jenial” entre os governantes de apelar para o congelamento de preços! Isso porque uma das consequências da inflação é a perda do poder de compra, que aparece mais claramente na alta dos preços. Entra ano, sai ano e aparentemente alguns governantes não aprendem nada com a história, por isso, antes que essa ideia surja por aqui, quero deixar esse alerta: CONGELAMENTO DE PREÇOS NÃO FUNCIONA!

No Brasil já tivemos essa experiência em nossa história recente quando vivíamos a época da hiperinflação. Pelo menos 4 tentativas de congelamento foram feitas entre os anos 1980 e 1990 e nenhuma funcionou! Por que será que uma ideia tão bem intencionada na teoria, não funciona na prática? Vamos pensar juntos?

Os governos que apelam para congelamento de preços, normalmente começam fazendo o congelamento de produtos da cesta básica… Olha o que acontece: imagine que um governo decidiu congelar o preço do leite. Importante destacar que o preço de um produto não é um valor aleatório, ele é um indicador. O preço traz consigo informações importantes como o custo de fabricação e a taxa de retorno ao produtor. Tão logo o governo determine o valor máximo que um produto pode ser vendido, os efeitos práticos (ruins) começam a aparecer. E não raro os governantes não conseguem perceber a relação entre sua atitude e o que acontece depois.

O primeiro efeito que a população sente é a falta do produto alvo do congelamento. Voltemos ao nosso exemplo do leite: o governo congela o preço do leite, que num primeiro momento pode até estar dentro do preço praticado no mercado, mas com o passar do tempo, o preço de outros produtos (inclusive aqueles usados pelo produtor) começam a subir e, portanto, o custo de fabricação do produto também sobe. Porém o produtor não pode repassar esse aumento de custo para seu produto, no caso o leite. Rapidamente os produtores percebem que não vale a pena focar seus esforços na produção de leite, então desistem desse produto e passam a produzir outros itens. Pronto: a falta de leite começa a ser notada nas prateleiras dos supermercados.

Então o governo se pergunta: por que não temos leite sendo produzido? Percebe que os produtores pararam de produzir leite pois o preço dos insumos para alimentar as vacas subiu. O que ele faz? Congela também os preços dos insumos! Rapidamente (pelo mesmo processo que descrevi sobre o leite) os produtores de insumo deixam de produzir, a escassez toma conta desse mercado, e a solução encontrada pelo governo é congelar o preço de mais e mais produtos. E o resultado é sempre o mesmo: escassez e prateleiras vazias!

Recentemente, em Berlim, houve a tentativa de congelamento dos aluguéis de imóveis antigos, com a nobre intenção de aquecer o mercado imobiliário, pois Berlim recebe uma alta procura por moradia de jovens de toda a Europa. Pouco mais de um ano depois, a oferta de imóveis na capital alemã caiu drasticamente! Os imóveis mais novos que não foram atingidos pelo congelamento receberam maior procura e viram seus preços dispararem! Outro país que é adepto do congelamento de preços como política monetária em diferentes momentos da sua história, inclusive ano passado, é a Argentina, e o resultado é sempre o mesmo!

Você talvez tenha pensado que o congelamento de preços pudesse funcionar se o governo determinasse o congelamento de todos os preços, mas não! Com o congelamento total dos preços, a escassez dos produtos vai acontecer da mesma maneira: produtores não terão incentivos para produzir, empreendedores não terão incentivos para empreender, e a única maneira de solucionar o sumiço dos produtos das prateleiras é com a imposição pelo governo de uma obrigatoriedade de produção. Ou seja, uma intervenção no mercado como essa nos levaria, no limite, a um governo totalmente autoritário! Exatamente como acontece na Venezuela, por exemplo. E esse tipo de intervenção ainda gera um outro problema: o surgimento do “mercado negro”, pois essa passa a ser a única maneira de conseguir algum retorno pelo produto produzido!

Portanto, fica aqui um alerta: preço é um INDICADOR, não um número aleatório! Qualquer tentativa de manipular esse indicador traz consequências terríveis para a economia, para o país e principalmente para o cidadão. Volto então a repetir: Controle artificial de preços NÃO FUNCIONA!


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

2 comentários sobre “A inflação e o congelamento de preços

  1. Ok. A explicação, ainda que pueril, faz algum sentido. Entretanto, o texto ficaria mais interessante se nomeasse alguma tentativa de precificação no Brasil atual, ou seja, por que este assunto veio à baila? Não estamos em um governo liberal em que tal solução não seria sequer aventada? Segundo, seria interessante especificar alguma prática de controle inflacionário que a autora crê que funcione, por que apesar de não ser nos mesmos moldes daquela dos anos 1980, a inflação atual corroi o bolso do brasileiro. Abraço.

  2. Boa materia, e ainda complemento, inflação não pode ser visto como algo “Natural” em uma economia saudável, o Keynesianismo dos economistas nutella é um grande caos pro futuro, porque incentivam esse tipo de pratica, a unica coisa capaz de variar preços é oferta×demanda ou custo de produção…. o problema é que o governo faz isso de um outro jeito, derretendo a propria moeda … ou seja, injetando mais dinheiro em circulação, o que os especialistas apontam como “Ampliação da base monetária para crescimento nacional” afff…. conversa pra gado dormir, e o Eleitor do Ciro Gomes, do Bolsonaro, do Lula, gosta desse tipo de papo fiado…..

    A unica solução pra inflação, e consequentemente estabilização de precos ( que sempre vao variar no mundo por oferta e demanda)…. é uma moeda que o governante não consiga ter controle, que seja escassa, segura, transitável entre individuos, intributável, e que tenha um algoritimo matematico capaz de protegela contra duplicação ou impressão.
    Nesses moldes, a solução se chama Bitcoin, e se vc ainda não confia, não tem problema, de 2008 pra 2021 ele ja valorizou 198,000% em relação ao Real Brasileiro, e tem valor intriseco em todos os lugares do mundo, e valor de transação que ja supera o pib de alguns países… se vc não comprar agora, outro vai comprar, e vc no final vai ver o seu bolso chorar. Ou reclamar de algum governante que fará o obvio ” congelar precos”

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