4 nov 2021 - 13h32

20 anos de retrocesso

A não reabertura das maternidades públicas de Curitiba faz a saúde pedir socorro

Desde a virada dos anos 2000, Curitiba assumiu uma posição de vanguarda quando o assunto era parto humanizado. Ao criar boas condições para o nascimento dos “curitibinhas”, a cidade fez história e, com seu Programa Mãe Curitibana, rebatizado de Rede Mãe Curitibana – Vale a Vida, inovou no atendimento às gestantes, parturientes e puérperas. O resultado foram décadas de bons indicadores que fizeram da cidade uma referência mundial no atendimento especializado às mulheres. Mas todas essas conquistas agora só existem na lembrança.

Duas importantes maternidades públicas de Curitiba tiveram suas atividades interrompidas pelo plano de contingência em resposta à emergência em saúde pública da Covid-19, num rearranjo que deslocou equipes e a infraestrutura antes dedicada ao atendimento das gestantes para o enfrentamento do coronavírus.

As maternidades foram fechadas com a promessa de reabertura após a emergência da Covid-19. Mas a promessa, que chegou a ser divulgada na campanha eleitoral de 2020 pelo então candidato à prefeitura Rafael Greca, não saiu do papel. Mesmo após a melhora das condições sanitárias da pandemia, Curitiba segue sem suas maternidades-chaves: a unidade Bairro Novo está sob uma reforma que não tem previsão de acabar, enquanto a unidade Victor Ferreira do Amaral segue sem intenção de ser reaberta.

Ao perder suas unidades referência em parto humanizado e atendimento a gestantes de risco habitual, Curitiba regride anos de conquistas. A cidade, que hoje é a capital do Sul do país com o maior índice de mortalidade materna por Covid-19, tem comprometido o acesso aos serviços pré-natais e a realização de políticas de acolhimento e humanização gestacional.

Sob o argumento de que os demais hospitais da rede pública absorveram o atendimento às grávidas, parturientes e puérperas, a Prefeitura desmonta anos de um trabalho de excelência, que em 2017 rendeu uma premiação internacional ligada à ONU. Vale lembrar que já fomos donos de uma marca incrível, quando uma única unidade de atendimento registrou 74% de partos normais. Éramos um feliz contrapondo em um país conhecido pelo alarmante número de cesáreas (o Brasil é o 2.º país do mundo que mais realiza o procedimento) e pelo alto índice de violência obstétrica (1 em cada 4 brasileiras dizem ter sido violentadas durante o parto).

Nosso sistema municipal de saúde pública era motivo de orgulho no quesito parto humanizado. Mas a pandemia, que deveria representar apenas uma interrupção emergencial desse atendimento, virou pretexto para a desvalorização da atenção primária à saúde.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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