“Pain quotidien” (Pão de cada dia) | Jornal Plural
9 abr 2021 - 10h58

“Pain quotidien” (Pão de cada dia)

Sempre me questionei sobre qual é o “número unitário” que explica esta expressão ou qual é o volume básico deste “pão nosso de cada dia”

A primeira vez que escutei este termo foi há mais de trinta anos. O ambiente era religioso, por mais óbvio que seja. Mas somente eu posso dizer o quão profundo é esse termo em minha vida.

Quando eu prestei atenção nesta frase bíblica, eu considerava apenas o que minha mãe dizia ser o certo e neste caso eram as palavras de Jesus Cristo, ensinando-nos a pedir e ficar feliz com o básico, ou seja: o pão nosso de cada dia.

Vou ser bem sincero e feliz em dizer que isso me perturbou, mesmo aos 8 anos de idade; e, sim, pelo resto de minha vida.

Sempre me questionei sobre qual é o “número unitário” que explica esta expressão ou qual é o volume básico deste “pão nosso de cada dia”. De quais dias estamos falando? De quão nosso se trata ser este pão?

Filosófico isso? Espero que não. Uma das minhas incompetências é filosofar.

Certa vez, ‘um ser’ glorioso me fez lembrar deste termo. Usar minha história é mais eficiente e menos arriscado porque são meus os direitos autorais, então lá vai história: sou descendente de imigrantes, bisneto de italianos.

“Era um homem lindo, forte e muito inteligente.”

Foi como descreveram meu avô paterno durante o velório da madrinha de meu pai, quem o criou desde os 14 anos, depois que aos 67 anos este meu avô descrito acima faleceu.

14 anos antes da adoção de meu pai por esta madrinha, este meu avô Pedro resolveu ter outra família no momento da vida que era para apenas cuidar de seus netos, aos seus 53 anos. Minha avó paterna tinha 17 anos quando casou com este “lindo e experiente” homem.

Uma certeza absoluta impera nesta história: muito amor se carrega no carbono de todos nós, herdeiros desta saga.

Fazendo a relação direta ao tema: meu avô fez questão que meu pai e minhas tias tivessem padrinhos católicos. E confiou neles os cuidados de suas crianças quando faleceu. Esses padrinhos, por sua vez, ensinaram o quanto vale o “pão de cada dia”. Ensinaram a esses netos de imigrantes, dos cidadãos do mundo, pessoas sem medo, que sempre questionaram o quão “nosso” seria esse pão de cada dia.

Meu pai, por sua vez e preso em seus medos, me ensinou que o “quanto” deste termo é relativo. Ele sempre defendeu que a geração de riqueza cria um lastro invisível de consequência muito desgastante.

Assim, é melhor se contentar com este básico mesmo: cada um sabe o que é o SEU pão de cada dia.

Eu continuo com a dúvida dos valores unitários por trás deste termo. Sou um homem sem medidas e sem restrições. Sou um homem sem medos. Mas eu tive uma lição de um ‘novo olhar’ para este termo.

Conheci um espírito milenar, no corpo de um homem de 27 anos, administrador de empresas por formação, falador fluente de 3 idiomas, pai de uma menina de 4 anos e esposo de uma veterinária. Em poucos minutos, ele me deu uma lição sobre imigrantes. Em poucos minutos me lembrou de coisas que há muito tempo eu não dedicava tempo para pensar. Ele, um sábio, inteligente, bonito e novo homem, um cidadão do mundo, me mostrou em suas ações que o pão nosso de cada dia está dentro de nós e não em nossos sonhos ou expectativas dependentes de alguém, nem mesmo de um ser divinamente caridoso!

O nome dele? Steve Pain Quotidien. Um Haitiano que deixou seu país 6 anos antes da tragédia, se formou na Europa e hoje trabalha como garçom no restaurante que fui jantar nesta abençoada noite, deste encontro, no centro de São Paulo, capital. Sua esposa (veterinária) trabalha na cozinha deste mesmo restaurante.

Então, sem me aprofundar em todos os temas que este maravilhoso encontro permitiria explorar e, de forma ativista, discorrer, quero apenas perguntar: SER humano, livre, conectado e inovador o quanto vale o seu “pão de cada dia”?

Fique bem, se proteja e, por favor, se preocupe de proteger aos outros, também.


Para ir além

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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