Não seja um porto seguro de nada nem de ninguém | Plural
31 jul 2019 - 0h34

Não seja um porto seguro de nada nem de ninguém

Jac Fressato tira uma lição de sua visita a um forte com canhões nunca usados

Em 1767, o rei Dom José I autorizou a construção da ‘Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres’ na hoje conhecida Ilha do Mel, no Estado do Paraná.

Havia seis canhões de 12 a 24 libras de calibre, fabricados com o que tinha de mais refinado na arte de fundir o metal. Essas “bocas de fogo” foram alocadas de tal forma na robusta construção que o seu municiamento (ação de abastecer as armas com projéteis e pólvora) era rápido e prático, a ponto de que mulheres (o que era muito incomum na época) e civis pudessem ajudar no momento de “embuchar” (ação de colocar e socar a pólvora no fundo do canhão com uma vara, cuja ponta tinha uma bucha para arrumar o material na cabine de explosão).

Aliás, não apenas o posicionamento das bocas de fogo, mas do próprio forte, demandava um entendimento do que proteger, por que proteger e como provavelmente este setor geográfico poderia ser atacado.

Conhecer as correntes marítimas para facilitar a navegação das pequenas embarcações e dificultar a navegação das grandes, impedindo um contra-ataque de outros canhões do mesmo porte presentes nestes navios.

Ou entender como as correntes de vento passavam entre as frestas de rochas e elevações praieiras para garantir que os ruídos dos disparos demorassem chegar aos ouvidos inimigos ou que atrapalhassem o deslocamento das pesadas e redondas esferas arremessadas pelos canhões contra as embarcações inimigas.

Mas o tempo passou. A Guerra Naval do século XVIII acabou e o forte ficou obsoleto, ocupando certa guarda militar, mas sem armamento, apenas para garantir que os caros e agora antigos canhões não fossem roubados ou vandalizados. Conforme se tornou ainda mais arcaico, o forte ficou abandonado até meados de 1940, quando na Primeira Guerra Mundial, o Brasil montou no mesmo local (Bateria do Morro da Baleia) um mirante com outras que e modernas “bocas de fogo” (canhões Armstrong C-40, retirados do Cruzador Tamandaré). Até onde se sabe, nunca foram usadas pois a guerra não chegou até nossos mares.

Escrevo este artigo exatamente no dia em que visitei este forte, junto com meu filho de 7 anos e às vésperas de meus 40 anos.

Hoje o Forte da Ilha do Mel é um ponto turístico conhecido e visitado. 

Mas que me mais me afetou foi ver como que algo construído para um propósito, dedicadamente estudado para atender este propósito, cumprir este propósito, tornou-se logo depois obsoleto e esquecido.

Sei que o termo “ser um porto seguro” não representa fisicamente ficar parado e apodrecer em meio às rochas. Mas será que não é isso que esperamos quando pedimos para alguém ser o nosso porto seguro?

O que fazer quando nos tornamos obsoletos?

Hoje eu sou útil para meu pequeno filho de 7 anos que junto comigo conheceu pela primeira vez o Forte da Ilha do Mel. Talvez eu cumpra para ele, melhor que meu pai cumpriu para mim a figura de “porto seguro”. Mas quando os riscos e perigos da infância, adolescência e juventude passarem, me tornarei obsoleto?

O entendimento sobre a utilidade de pessoas e coisas, se tornou nos últimos anos absolutamente abstrato. Eu mesmo reconheço que – como um adolescente e jovem em minha época, estudante das tecnologias – usei pouco o conhecimento de meu pai. Me esforço para ser útil para minhas crianças, apesar de me frustrar muito com isso, pois elas têm uma independência muito superior a minha em sua idade.

Apesar de eu ter crescido sem muitos recursos e tendo a sensação de que não tive um porto seguro para aportar meus sonhos e problemas, hoje eu percebi que às vezes um porto seguro nada mais é do que paredes velhas e fortes nas quais você pode descansar sua mente durante uma tormenta.

É bem provável que meu filho passe a vida sem fazer esta analogia ou assim como eu, ache que não teve um porto seguro. Mas eu espero que, no decorrer da vida, ele tenha muitos portos seguros para deitar a cabeça em meio a suas tormentas, pois isso indica que sua viagem está sendo longa e ampla, conhecendo mais e mais terras neste vasto mundo do conhecimento e do viver.

E eu não me proponho de verdade a ser um porto seguro que se torne obsoleto depois que as batalhas da vida ficarem no passado. O mesmo não quero fazer a qualquer relacionamento, pois na hora em que a tormenta passar, só as paredes ficarão e todos irão embora.

Talvez os psicólogos e terapeutas me critiquem pelo ponto de vista. Não chego perto de seu entendimento sobre a psique humana. Mas entendo que, enquanto humanos precisarem engessar a vida de outros seres humanos (seja em casa ou no trabalho) para poderem aportar e zarpar em suas vidas, isso mostra o quanto estamos presos a nossos instintos primitivos de carência e afeto.

Eu confesso os meus. Percebi-os hoje vendo meu passado e futuro no mesmo instante. Cobrando e sendo cobrado no mesmo instante. Mas não sei o quão maduro me sinto para dizer que não quero ser o porto seguro de meus filhos, nem de meus sócios e nem de meus funcionários ou de ninguém.

Neste Dia dos Pais, desejo ser livre para saber como criar um homem livre e esta corrente ser iniciada por longevas gerações de pessoas que têm portos seguros em si mesmas por toda a sua vida.

Então SER HUMANO, livre, conectado e inovador, sabe como responder esta pergunta?

Consegue viver e sobreviver sem um porto seguro?

É um verdadeiro porto seguro que se tornará obsoleto em breve?

Veja se os seus canhões ainda são úteis e durante quanto tempo o serão, pois o dia em que deixarem de ser, apenas suas paredes terão utilidade em dias de tormentas.

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