18 mar 2022 - 20h31

Prêmios colocam em evidência a literatura africana

Do Camões ao Nobel, prêmios importantes procuram reconhecer a literatura africana, mas seguem presos ao eixo Europa–EUA

Pela primeira vez na história do prêmio Pritzker, um homem negro é homenageado. O maior prêmio da arquitetura mundial já sinalizava mudanças quando, por exemplo, passou a “lembrar” que há importantes arquitetas mundo afora e que a arquitetura é muito mais que o trabalho – obviamente relevante – dos starchitects.

Claro que, mesmo para um prêmio que pode decidir quem e qual país receberá uma honraria, é muito mais visível e vantajoso premiar um sujeito que faz obras faraônicas e de grande efeito, seja um museu no País Basco, seja um prédio espetacular em Dubai. Esse sujeito talvez apareça mais na mídia que aquele homem ou aquela mulher que escolhe materiais locais de um país pobre como Burkina Fasso para resolver problemas igualmente locais, menos “captáveis” pelas diferentes mídias de propagação das notícias. O premiado deste ano foi o arquiteto burquinês Diébédo Francis Kéré.

Literatura africana

De todo modo, várias premiações mundo afora passaram a escolher mulheres e ainda homens e mulheres africanos. Na literatura, tal realidade não é tão diferente da do mundo da arquitetura. Eu diria que nas artes plásticas também…

A seguir, destaco alguns prêmios literários importantes que, no último ano, colocaram em evidência a literatura africana.

Prêmio Camões

O Prêmio Camões do ano passado, uma das principais honrarias para escritores de língua portuguesa, escolheu como vencedora a moçambicana Paulina Chiziane. Presença constante em estudos pós-coloniais e de(s)coloniais e ainda em estudos feministas, a autora de “Niketche” e “O Alegre Canto da Perdiz” nem se considera uma romancista e sim “uma contadora de histórias”. Você pode encontrar essas duas obras, respectivamente, pela Cia. das Letras e pela Dublinense.

O arquiteto Diébédo Francis Kéré. (Foto: Divulgação)

Man Booker Prize

O Man Booker Prize escolheu o romance de um escritor branco da África do Sul, “The Promise”, de Damon Galgut, ainda sem tradução para o português brasileiro. Caso você queira conhecer um pouco do famoso escritor sul-africano, você encontra pela Record o livro “O impostor“, com tradução de Julián Fuks. Aconselho muito.

Já o Internacional Booker Prizer foi dado a um escritor de expressão francesa, que mora e trabalha na França, especializado em relatos africanos, principalmente do século XVIII, David Diop, pela obra “At Night all Blood is Black”, também sem tradução brasileira. Dele, há uma edição em português, “Irmão de Alma“, com tradução de Raquel Camargo, pela Editora Nós.

Edimilson de Oliveira Pereira foi o homenageado com o Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria romance, com “Front“. A publicação é da Editora Nós.

Oceanos

O vencedor do Prêmio Oceanos, primeiro colocado, foi o timorense Luís Cardoso de Noronha, pelo romance “O plantador de abóboras“, publicado em Portugal pela Editora Abysmo. No Brasil, ele será lançado pela Todavia.

Jabuti

O Prêmio Jabuti de melhor romance de 2021 foi para o escritor Jeferson Tenório, com “O avesso da Pele“, primeiro livro dele publicado pela Cia. das Letras. Tenório é um carioca radicado em Porto Alegre.

O escritor Jeferson Tenório. (Foto: Divulgação)

Goncourt

O Prêmio Goncourt escolheu o romance “Les plus secrète memoires des hommes”, do escritor senegalês Mohamed Mbougar Sarr. A Editora Malê publicou dele “Homens de Verdade“, com tradução de Fernando Klabin. O livro vencedor do Goncourt deve sair pela editora Fósforo, mas por enquanto sem previsão de lançamento.

Prêmio Nobel

E o Nobel laureou o escritor de origem tanzaniana Abdulrazak Gurnah. Dele, a Companhia das Letras publicou recentemente “Sobrevidas“, com tradução de Caetano Galindo. A editora já anunciou que publicará mais três romances de Gurnah.

O eixo

Muita coisa se observa dessas premiações todas: a maioria dos prêmios continua indo para homens. A maioria dos prêmios continua indo para autores que, mesmo de ascendência africana, adotaram países do Velho Mundo como base e ainda a língua dos colonizadores. Estamos muito longe de premiações que privilegiem mulheres e homens fora do eixo Europa–EUA e que escrevam em idiomas que fogem à uma dezena e meia de línguas premiadas, por exemplo, pelo Nobel.

José Carlos Libâneo, em “Teorias Pedagógicas Modernas”, faz um comentário muitas vezes mal lido. Ele não nega a importância dos movimentos que incentivam o ensino inclusivo, por exemplo. Mas ele lembra que isso muitas vezes é apenas uma “boa ação”.

Já a pesquisadora argentina Florencia Luna comenta que não adiantam políticas populistas de atendimento ao cidadão marginalizado se o que ele precisa é de um empoderamento efetivo.

Protagonismo

Como eles, não nego a importância da inclusão, da presença da mulher negra e do homem negro em premiações que, de resto, podem significar pouca coisa na realidade brutal em que os homens e mulheres das várias diásporas negras vivem, mas desde que não se tornem elas e eles apenas mais um produto de mercado.

Seria caso de você ler esses autores todos e decidir por si mesma(o). Também é caso de, para empoderar o sujeito vulnerabilizado, realmente lutar para que haja protagonismo desse mesmo sujeito. De todo modo, temos aí muitas sugestões de leitura para os próximos meses.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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