Um olhar sobre o novo livro de Joca Reiners Terron | Jornal Plural
20 jan 2021 - 11h00

Um olhar sobre o novo livro de Joca Reiners Terron

[Quando tinha cinco anos, a figurinha preferida do meu álbum era a do leopardo-das-neves. Ele parecia ter uns buracos na pele e talvez por isso…

[Quando tinha cinco anos, a figurinha preferida do meu álbum era a do leopardo-das-neves. Ele parecia ter uns buracos na pele e talvez por isso durante anos eu duvidei da sua existência. Parecia um fantasma, afinal. Creio que fui ler esse livro pela curiosidade sobre o animal e a beleza do título. Sei que isso nada tem a ver com minha análise.]

Quem citou Kafka nos textos críticos sobre esse romance curioso talvez não tenha lido Murilo Rubião. Nada vi de kafkiano no livro, mas diversas passagens de uma literatura fantástico-mágico-absurda lembram Rubião, que nunca mais li após o curso de Letras, quando a leitura era obrigatória. Quem falou em Conan Doyle ou Stevenson… não sei se acertou ou errou, pois o livro é uma mistura mesmo de coisas e talvez esse seja justamente seu ponto fraco: você se pergunta o que é isso, no fim das contas? Mas não confundamos algo importante nas artes. Se você se indaga pelo que está vendo, afinal, num espetáculo de dança, teatro, se você se indaga pelo que lê ao ler um romance “estranho”, talvez possa estar frente a frente com algo novo, que rompe gêneros, discursos, temáticas e enredos. E o rompimento é justamente uma das funções mais importantes da Arte. Dito isso, vem o comentário: não é o caso.

Esta “confluência” de gêneros já foi tentada por tanta gente, de Eco (com muito sucesso), até Jô Soares (com terrível insucesso). Por outro lado, a literatura, se vive de si mesma, vive também de se reinventar, inclusive testando outros gêneros e discursos em sua escrita.

Não interessa localizar para o romance um nicho onde ele ficaria confortável. Há elementos aqui e ali de uma fantasmagoria, de um policial, de uma realidade mágica, mas quando o lé se junta com o cré, o leitor verá que não se trata de nada disso. A impressão que me deu é que faltam algumas amarrações para que tivesse um “sentido”, fosse tal sentido novo ou velho. E se, como crítico, eu preciso de uma localização, de uma bússula, diria que se trata de um romance “de mistério”. (Quando falar sobre A Morte e o Meteoro, eu volto ao assunto.)

Eu li uma “prova antecipada para divulgação”, distribuída a críticos e divulgadores. Encontrei alguns errinhos gramaticais, mas na tal prova justamente consta que o livro “está sob revisão”. Não sei como funciona isso na Cia. das Letras e nem quero saber. Não sei se a revisão é gramatical, de diagramação ou se ainda o texto pode sofrer alterações substanciais… de estilo. Grandes editoras de hoje têm “preparo” de texto. No caso deste romance, as mudanças foram quase imperceptíveis. A parte ruim é que você lê dez autores distintos da Cia. das Letras e todos eles parecem um só. Mas enfim. Prêmios aqui, indicações acolá, elogios discretos – não sei se sinceros – mais à frente.

Estilo e gênero. Palavras complicadas. Mas você pode falar do “estilo” de Terron, seu modo de encontrar, no todo da língua, um modo único de se comunicar com o leitor [leia o parágrafo anterior, por favor], suas buscas e interesses. E pode dizer que se trata de um romance porque sim.

Veja-se: a questão não é discutir verossimilhança. Isso já foi razoavelmente investigado pela Teoria Literária. A estranheza – resolvida na própria escrita – é uma das marcas de Terron e em relação à estranheza as coisas se resolvem. Mesmo que o romance se passasse num mundo paralelo, em outra galáxia, no além, num universo fantástico, internamente ele teria sua coerência. O problema não é esse. É a falta de cuidado mesmo. Ele tem muitos momentos ruins, de uma escrita iniciante (e não é o primeiro livro do autor), errinhos de lógica, o que a todo tempo me fazia lembrar do famoso texto de Eco em que cita os disparates de Carolina Invernizio.

O que há de interesse: durante a leitura eu me perguntava se “a criatura” (aliás, um modo terrível de se referir à personagem) seria uma raposa do mito japonês, por exemplo, que um dia ia mostrar a cauda e tudo se revelaria, ou parte de tudo. Não. Possivelmente, era uma portadora de porfiria severa ou Doença de Gunther (em meu bairro havia uma criança com a doença e ela saía pouquíssimas vezes e se trata de uma doença terrível mesmo). Pensei num tipo de Golem… ou algo mais escandaloso, um demônio sumério… Era o óbvio mesmo. Mas há “um monstro” (já disse que a escolha é nada simpática), a situação “policial” (o narrador é escrivão), um segredo a ser revelado, e um terror light que se resolve muito depressa e você fica ã.

Talvez essa solução muito banal ou muito rápida para o livro seja seu ponto mais decepcionante. Há, porém, uma relação muito rica ali entre pai e filho (os grandes momentos do livro são as descrições dessa relação, algo que tem frequentado bastante a literatura recente, vide meu texto anterior), mas todo o restante cai numa mesmice ou falta de zelo e, de repente, tudo se evapora. Parece o fim de Os Mistérios do Detetive Murdoch, série em que a única coisa boa é a possibilidade de Murdoch exibir seu corpinho de ex-surfista, mas nem isso. Em cada capítulo, a coisa vai, vai, e depois tudo se resolve num estalar de dedos (daqueles quando o som não sai).

Para quem se preocupa ou deseja entender como funciona o mercado editorial, é um excelente começo. Voltarei a este autor e escreverei sobre a necessidade, muitas vezes, de se insistir num determinado nome literário. Há outras obras do mesmo autor e também outros autores da mesma editora, que merecem atenção.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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