"Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch", Alexander Soljenítsin | Jornal Plural
23 ago 2020 - 20h35

“Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch”, Alexander Soljenítsin

Nas Américas, na África ou na Ásia, você encontrará escritores que narram suas experiências próprias com a prisão

Digamos que há um subgênero na literatura que se concentra em narrar memórias do cárcere. E digamos que, se se fala em subgênero, pode-se pensar numa literatura menor. E digamos que a literatura vive dessas comparações de tamanho.

De todo modo, antes de falar de Soljenítsin, talvez fosse bom trazer algumas palavras sobre certa literatura confessional (de uma intimidade sobre a qual voltarei a falar no livro seguinte) que muito felizmente desvia para a literatura de denúncia. E ela é grande, seja vista como uma coisa, seja vista como outra.

Nas Américas, na África ou na Ásia, você encontrará escritores que narram suas experiências próprias com a prisão. Em português, eu sugiro Luandino Vieira e Graciliano Ramos.

Alexander Soljenítsin.

O encarceramento sempre existiu como um meio de apartar uns homens de outros, mas somente no alvorecer do mundo moderno surgiu a prisão como a entendemos hoje. Não que não haja relatos passados sobre certo tipo de cativeiro, físico ou metafórico, mas prisões e presídios são mesmo uma “invenção” moderna, com uma noção própria de “separar da sociedade o sujeito que errou”. Para melhor entendimento disso, claro, Foucault.

Lembrei desse livrinho (e da felicidade de receber os livros do antigo Círculo do Livro, durante anos) por várias razões. Após tê-lo relido, pensei em ler/reler alguns autores eslavos que tratavam de temas semelhantes. Lá na minha adolescência, alguns amigos, apaixonados por tudo que era “soviético” (sim, havia isso em pleno regime militar, talvez até por isso mesmo) não viam com bons olhos o autor de Arquipélago Gulag. Isso se explica: um autor dito “dissidente”, que tinha mostrado as entranhas do sistema stalinista, não devia ser o herói soviete com que os meninos sonhavam. Mal sabiam eles que outros autores, muito antes de Soljenítsin, tinham feito algo parecido, senão com o governo “soviético”, com o governo czarista.

Há muito que ler nesse livro, que para efeitos de uma separação por gavetas alguns chamam de novela. Como a Ubu lançou recentemente uma tradução de O Arquipélago Gulag e outros autores de língua russa têm feito certo sucesso no Brasil, aconselho este livro e também O Pavilhão dos Cancerosos, do mesmo autor. Você pode pensar em duos, como este livro e Um Túmulo para Boris Davidovich, do gênio que foi Danilo Kiš, por aproximação, ou em outro duo, agora por afastamento entre este livro e A Morte de Ivan Ilich, de Tolstói. Há outros autores tantos, eslavos, que você pode ler junto, seja a modernidade de Efroveef e Dovlátov ou a tradição de Tchékhov. Se tiver tempo para ler grandes volumes, veja O Don Silencioso, de Sholokhov.

Danilo Kiš, autor de Um Túmulo para Boris Davidovich.

Se você quer fazer a coisa de trás para diante, comece com A ilha de Sacalina, de Tchékhov. Nesse livro, o autor narra o sofrimento de encarcerados quando lá esteve em 1890. Curiosamente, o livro é entendido por muitos como o início (possível) de uma literatura jornalística. Há vários caminhos para uma pesquisa aí. E, se você gosta de Svetlana Alexievich, vai encontrar as fontes desse tipo de escrita russa. Na sequência, claro, Recordações da Casa dos Mortos, do gênio maior da literatura russa.

Neste pequeno romance — ou novela — a narração de Chukhov permite perceber que, até mesmo nas condições mais desumanas, os homens acabam por encontrar humor ou um sentimento próximo ou de uma família. Seria interessante prestar especial atenção à voz de Tiúrin, que tem vida própria. As experiências de vida ali são similares às que o próprio autor viveu num campo gelado do atual Cazaquistão, entre o final da década de 1940 e o começo dos anos 1950. Com a morte de Stálin, em 1953, Soljenítsin foi libertado.

Stalin mandava para a Sibéria quem fizesse piada sobre ele.

Depois de ter passado pela leitura de alguns autores russos modernos (não os novos autores que surgiram após a quebra da URSS), cheguei à conclusão de que premiações como a de Soljenítsin não eram exatamente uma celebração da literatura russa e sim uma admoestação: queria se mostrar o quanto havia de sofrimento naquele lugar, por detrás da cortina de ferro. De todos os nobéis russo, por exemplo, a maioria trata desse “sofrimento” e por isso as premiações são dadas mais pelo conteúdo do que pela estética, o que não diminui a obra desses escritores. Creio mesmo que a escolha de Alexievich e não a escolha de, por exemplo, Ulitskaia, tenha ainda algum ranço disso. Brodski, então, é o suprassumo, depois de Soljenítsin, do escritor miserável, perseguido pelo sistema.

Nada disso quer dizer — e muito pelo contrário — que a obra desses escritores todos não tenha interesse. Prego mesmo pelo contrário: que mais do que nunca é importante lê-los.

É muito curioso, para mim, ter lido Quarto de Despejo antes de ler Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch. Primeiramente, por se tratar de uma escrita confessional, havendo mais que os aproxime do que os afaste, portanto. Da próxima vez explico o porquê.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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