4 set 2021 - 11h38

Tatiana Țîbuleac : O Verão em Que Mamãe Teve Olhos Verdes

O tratamento dado aos personagens, a descrição de suas dores, o encontro consigo mesmo e com o outro, o modo como a escritora coloca frente a frente sujeitos tão distintos e tão iguais, é de fazer o leitor parar a leitura para enxugar as lágrimas e tomar ar. Quase voltei a fumar. Na falta de um cigarro, abri um vinho

“Os olhos de mamãe eram um erro.”

Quando comecei a ler O Verão em Que Mamãe Teve Olhos Verdes, da escritora moldava, eu pensei em outros livros que lidassem com o ódio familiar, o rancor, a dureza nas relações, mas fundamentalmente os que lidassem com a crueldade. Pensei mesmo em escrever algo mais alentado em que colocasse lado a lado Țîbuleac, Elfriede Jelinek (a Jelinek de A Pianista) e a escritora brasileira Ana Paula Maia (qualquer um dos livros dela), investigando como três mulheres em diferentes línguas e países lidavam com a crueldade das relações atuais, sem meias verdades, sem papas na língua, sem escamotear o que de pior pode haver nas relações humanas e no mais escuro da alma.

Mas percebi que a obra de Țîbuleac caminhava num outro sentido. Primeiramente, a crueldade que existe nesse livro precioso tem um caminho bem distinto do das demais escritoras, assim como tem um caminho bem distinto do que um grande número de novas escritoras africanas traz a respeito do que o colonialismo deixou como herança nas vastidões da África. Outro dia escrevo sobre as minhas descobertas tanto no mundo saariano como no universo subsaariano com escritoras.

Aqui, temos uma situação histórica que poderíamos chamar pós-perestroika. A escritora vem de um país que é considerado o mais pobre da Europa, um país de expressão romena, como considerável presença eslava. Ela conta a história de um filho e sua mãe, que partem em férias para a França. No começo, temos uma das descrições mais cruéis que um filho pode fazer a respeito da mãe, mas ao longo do livro a perversidade é amenizada por outros entendimentos. O caminho é humano, doloroso, bonito, cruel, emocionante.

Se eu escrevesse que a história trata de uma viagem de descobertas e que aquele verão mudou a vida do personagem que narra a história, eu estaria mentido e matando a grandiosidade dessa obra. É bem possível que Țîbuleac tenha partido dessa estrutura (que poderia ser considera um subgênero literário, do cinema ou das séries de televisão), mas O Verão em Que Mamãe Teve Olhos Verdes supera qualquer coisa que você já tenha lido nesse sentido. Há muitas obras lindas que tratam da relação entre pai e filho ou entre filho e mãe, eu sei. Poderia citar inúmeras e já escrevi bastante sobre várias. Talvez o interesse aqui seja no “como” a autora moldavo-romena o faz.

O tratamento dado aos personagens, a descrição de suas dores, o encontro consigo mesmo e com o outro, o modo como a escritora coloca frente a frente sujeitos tão distintos e tão iguais, é de fazer o leitor parar a leitura para enxugar as lágrimas e tomar ar. Quase voltei a fumar. Na falta de um cigarro, abri um vinho.

Para fazer multiplicar os elogios a essa obra, ela insere esses sujeitos numa realidade histórica europeia que nos faz perguntar: é esse o continente para o qual muita gente olha mesmo com olhos de fome, inveja ou admiração? É esse o grande legado europeu para o mundo: um mercado onde impera uma indústria farmacêutica, alcoolismo, terríveis relações trabalhistas, um ódio ancestral, o sonho de uma morte poética após uma vida de desgraças pessoais e sociais?

“Os olhos de mamãe eram claraboias de um submarino de esmeralda.”

O que começa com um ódio avassalador passa para um entendimento sobre o declínio, a degradação, a despedida dos corpos. Os olhos verdes da mãe, em que o narrador poderia se afogar em mar de fel, passam a ser a janela pela qual ele pode observar o mundo, afinal devemos ser mesmo uma matriz que cruza pai e mãe, primeiro, e depois avós e vizinhos, amigos da escola e da igreja. E é nesse meio em que criamos todos os monstros que assombram nossos sonhos… ou nossa vigília.

A tradução extremamente acurada é do Fernando Klabin, que já traduziu Cărtărescu e Max Blecher. O lançamento é da Mundaréu, pela coleção Mundo Afora. Não perca por nada os lançamentos dessa editora! Ela é das raras editoras que se preocupa em lançar textos significativos e emblemáticos.

Muita coisa pode chamar a atenção nesse livro, mas o que mais me comoveu – afora a descrição de dois personagens subalternizados – foi a habilidade de Țîbuleac de fugir do lugar comum. Infelizmente, ainda não temos em português Grădină de Sticlă (Jardim de Vidro). Se você lê em espanhol, já há edição nesse idioma. Țîbuleac é um achado raro. 

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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