5 mar 2021 - 1h00

Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus

O diário de um estorvo social, o ser a ser eliminado

Bernardo Secchi lembra que Foucault demonstrou que o pobre é como a doença contagiosa… isso para a elite dominante. Expressões como populacho e miseráveis têm livre trânsito na fala das elites, e seja como doença ou como fonte de violência, ele, o pobre, é um problema a ser eliminado. Mas eliminar o pobre quase nunca é resolver seus problemas (moradia, comida, escola, acesso a bens de consumo, saúde) e sim tratá-lo como um estorvo.

Desnecessário dizer que, se os problemas do pobre fossem sanados, ele não seria pobre.

Não é muito diferente para o emigrante, certos estrangeiros viajantes, o nômade ou até mesmo para aquele que resolveu ter uma vida diferente daquela considera normal ou natural. Assim: o pobre é fruto da precariedade das políticas do Estado, notadamente as de distribuição de renda, mas é tido como um inimigo. E inimigo a gente mata, ou despreza, ou carrega para longe do centro, do Centro.

Já Jane Jacobs, na impressionante obra Morte e Vida das Grandes Cidades, narra algo impressionante: num estudo de 1959, Herbert Gans fez um estudo sobre uma zona de cortiços de Boston. Segundo o sociólogo, ali havia não um cortiço, mas “um território de pessoas de baixa renda”. O que mais chama a atenção nesse estudo de Gans não é seu desejo de salvar o cortiço da demolição, algo louvável, mas a constatação de que “ok, são pobres, o lugar é horrível, mas eles não incomodam”. Então, que fiquem lá, mas sem a ajuda do Estado.

E a sociedade precisa dos pobres. Senão, onde ela pisaria?

Então temos provisoriamente uma visão social do pobre: ou ele é o inimigo que deve ser eliminado (daí a matança de moradores de rua, por exemplo, ou viciados) ou ele é um ser que pode continuar ali porque não atrapalha (nas favelas, nos cortiços, nos bairros periféricos, desde que não se mostre muito e desde que possa servir de mão de obra barata, em serviços subalternos).

[Não esqueça que após atear fogo a um cidadão de origem indígena, o jovem disse que pensou estar ali “apenas um morador de rua”. Algo similar já foi dito de travestis e prostitutas, todas mortas “por estarem ali” e serem subalternizados.]

Por esse motivo e por outros, ler Carolina Maria de Jesus é mais que importante; é fundamental.

Os estudos literários quase sempre buscam entender a literatura como uma construção estrutural ou discursiva em que impera uma estética versus um conteúdo. Claro que novas correntes colocam isso em xeque, até as raias do paroxismo, afirmando que qualquer coisa é literatura, o que deitaria por terra os esforços de uns 3.000 anos de reflexões sobre literatura.

Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada sempre sofreu com uma falsa dicotomia. Quase sempre os comentários sobre ele (até mesmo nas edições mais sérias) dizem respeito à “falta” da norma culta/padrão ou os comentários pedem escusas pela edição “que manteve os erros de grafia”. Eu poderia provar por a + b que esses comentários são obtusos: não apenas a obra (se essa é a preocupação) se aproxima da norma culta e da norma padrão, como as desavenças pequenas (como me envergonho de ter de lidar com isso aqui!) com a “correção” ortográfica são mínimas. Inclusive, a lógica dessas supostas “imperfeições” deixa o livro ainda mais coeso. E bonito, embora sua tristeza.

De todo modo, continuam os comentários acerca da linguagem da autora, como se dominar norma culta ou padrão fizesse de um escritor, um escritor. Aí reside a visão mais equivocada da “crítica” literária. Meio que fritar ovos com seixos… Mas enfim: há tanto de mais importante no livro. Há a vida de uma mulher com inúmeras camadas de vulnerabilidade (uso aqui o conceito de Florencia Luna): negra, periférica, mãe solteira, favelada, catadora dos resíduos que a sociedade deixou para trás, alguém sem acesso a tudo o que o capitalismo prometeu e não cumpriu na entrega.

Há várias grandezas nesse livro assustador. Os cruzamentos são os mais variados. Comecei a falar das cidades, mas há ali toda a história da branquitude e da negritude abaixo da linha do Equador, nesse Novo Mundo. Há a situação miserável em que um ser humano pode “viver”, e eu diria que a própria noção de democracia e Estado Democrático de Direito fica ali em xeque-mate. Há o machismo, o ódio de classe, a complexa admiração pelo dono do poder, os mais comuns enfrentamentos humanos, a situação religiosa… ou seja, é um retrato do Brasil.

Penso também haver uma confusão entre “literatura engajada” / “literatura de denúncia” e “literatura” somente nas apresentações do livro. Creio que literatura engajada ou literatura de denúncia não é exatamente a literatura de Carolina Maria. Mas há tanta verdade ali, doída, que, sim, seu relato pungente pode se aproximar de obras que lidam com o engajamento (em favor dos pobres, seja a filosofia de Simone Weil ou a literatura de Graciliano Ramos) ou a denúncia (sejam das obras sociológicas que lidam com a fragilidade da situação da mulher – penso em Rita Segato –, sejam as obras que tentam uma perspectiva a partir do trabalho esteticizante da língua e que descrevem as periferias).

Só não leia esse livro se você aprecia a romantização da pobreza. Ele é tudo, menos isso. Já vi gente usando esse livro para falar do valor da pessoa pobre que sai todo dia de casa para garantir o feijão para os filhos. Deixemos isso para o mau jornalismo e os programas de auditório que usam os pobres para fazer milhões.

Região conhecida como Cracolândia, em São Paulo. Crédito da foto: Jorge Araujo/Fotos Públicas.

Longe de mim indicar leituras prontas para Quarto de Despejo, mas enquanto lia a obra pela primeira vez (é uma obra para se ler várias vezes), pensava na situação das cidades, como comecei acima, e em particular a cidade de São Paulo. A obra é um registro de nossa incapacidade de lidar com a pobreza, ou melhor, de resolvê-la. Um país rico, claro, poderia ser menos desigual. Vizinho de São Paulo, desde criança passo por aquela cidade-mostro, assustadora, um demônio cinza. A primeira lembrança que tenho (eu teria oito ou nove anos) foi a noite de São Paulo, o lixo das lanchonetes jogado na rua. Alguns lugares me chamaram atenção enquanto procurávamos pelo ônibus que nos levaria até uma cidade paranaense. Era possivelmente a Estação da Luz ou algo assim. Havia montes de casca de laranja, ou melhor, laranjas pela metade, empilhadas até o teto ao lado da entrada da lanchonete. O cheiro característico da laranja e o cheiro do podre. E isso misturado com todo o resto, resto mesmo, de pessoas e coisas. Gente andando com malas de mão (não havia rodinhas), puxando crianças, pulando gente deitada no chão, algumas se preparando para passar a noite, pois ali era sua casa. E ratos. Visitei outras cidades assim depois na Bolívia ou no Oriente, mas São Paulo era minha vizinha, meu país, minha gente, meu sangue, meu norte. Carolina é minha irmã. Nossa irmã.

Eu, criança protegida pela antiguidade de um bairro limpo, numa cidade pequena (hoje é o contrário: uma cidade grande e um bairro sujo, um imenso bunker cinza), abismado.

Nunca tinha visto a pobreza de tão perto.

Então, eu penso em Quarto de Despejo como um registro terrível da nossa derrota. Dos anos 1950-60 para cá (e da minha infância para cá, anos 1970), o Brasil chegou a ser a sexta economia do mundo. No entanto, a gentrificação, o descontrole do crescimento das cidades, a falta de planos-piloto para as cidades, a especulação imobiliária, tudo isso ligado à total falta de capacidade de todos os governos de amenizar o sofrimento dos mais necessitados, tudo isso não mudou. Por mais que as cidades tenham se embelezado, como uma redoma que se coloca sobre uma peça de arte ou jardim em miniatura, todo o restante sofre. E já houve planos e planos de limpeza do Tietê e melhorias as mais diversas. Nada. A podridão continua escancarada.

As cidades vão morrendo como as pessoas, mas antes as pessoas. E a morte dos pobres tem sido um projeto, um projeto que tem dado muito certo. A partir de Quarto de Despejo, poderíamos mudar este país. Deveria ser um livro obrigatório.

* A obra a que me refiro no primeiro parágrafo é A Cidade dos Ricos e a Cidade dos Pobres. Os estudos de Foucault estão em Segurança, Território, População e em outros escritos nos quais ele trata do doente, do monstro, do assassino, do viciado etc. Isso é tão forte que o pobre muitas vezes é considerado um “cancro social”, o que prova sua proximidade semântica com a doença, principalmente as doenças que aparecem na pele e são visíveis.


Para ir além

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