23 jul 2021 - 8h00

O último gozo – Bernardo Carvalho

“E talvez não seja fortuito que os velhos percam primeiro as datas e os nomes, tornando as narrativas impossíveis”

O livro começa com duas ironias: uma dupla negativa do destino (a pandemia e uma separação inesperada) e certa situação acadêmica em que alguém achincalha um livro escrito pela personagem principal (se é que a podemos chamar assim), sob pseudônimo, na juventude.

Como Carvalho une essas duas situações? Dizendo que o mundo conhecido termina ali. E termina mesmo: se nossa vida é linguagem, uma linguagem que tenta dar conta do nosso presente e do nosso passado, o mundo conhecido finda. A partir dali, o presente como o conhecemos muda completamente: partimos dali para um futuro com ares de fim-do-mundo. Nesse aspecto, como já disse várias vezes, o autor se aproxima de Bolaño, Murakami e Houelebecq.

Veja-se: o mundo termina no momento de um flerte. A traição consumada ou não ecoa o encontro fundamental entre dois seres: o começo do sexo e o fim do Éden. Essas pequenas e grandes ironias, esses jogos superpostos são algo comum na escrita de Carvalho, assim como a repetição de dados e certos “deslizes” estudados que fazem com que sua escrita se aproxime da imensa (e fraca) quantidade de livros publicados nos últimos anos. É um truque sério. Aliás, nenhum outro livro seu traz tantas charadas desse tipo. O Último Gozo do Mundo, aliás, é uma grande charada. Uma charada feita aos pedaços.

A socióloga (digamos, essa personagem principal), grávida, decide escrever um texto sobre o paradoxo da internet: um palimpsesto do tempo momentaneamente congelado. Mas isso, como outros elementos do livro, são “esquecidos”. De paradoxo em paradoxo, de contradição a contradição, não há exatamente alternâncias, e sim uma corrente. Longe de um romance, distante do conto, léguas da novela, esse escrito ficcional de charada passa a ser uma metáfora do nosso tempo.

Veja-se: paradoxos e contradições: isso não é incomum na obra de Carvalho. Morte/vida; passado/presente. Suas obras máximas tratam disso, com ênfase em Nove Noites. Mas nenhum outro “romance” dele tocava na testa dos textos do jovem Carvalho, lá de trás, quando sua escrita beirava o conceitual.

Aqui você ficará na dúvida se está no campo semântico do futuro do pretérito ou o pretérito do futuro.

Como disse acima, Carvalho tem algo comum com Murakami e Bolaño: não digo que são iguais ou mesmo similares, mas os três se tocam em alguns pontos de interesse. O universo paralelo que, por vezes, coloca o leitor em dúvida: o que lê é realismo? Em Carvalho como em Bolaño isso fica tão sútil que pode passar despercebido. Neste O Último Gozo há um futuro próximo, já pela página 20, e as estranhezas vão aumentando cada vez mais.

Não era uma reclamação minha (muito pelo contrário), mas eu sempre pensei que os contos do começo de carreira de Carvalho eram mais ousados em termos de criação literária. Aqui, ele dá, então, as mãos para o Carvalho lá de trás. É isso muito bom.

É bem curioso que o dono da Companhia das Letras tenha reclamado de Simpatia pelo Demônio. Ele não deve ter reclamado aqui das relações heterossexuais… o que é preocupante. Parece que traições são comuns e naturais nessas relações. Por sorte nossa, Carvalho passa ao largo do lugar-comum.

Ela, a socióloga, sai atrás de um oráculo. Este esquece tudo e as pessoas lhe contam o passado em troca das predições. Seu pai esqueceu o passado e ela, temerosa, conta o passado para o filho na esperança de que ele a salve também. Então, numa mudança dramática de cenário, a tensão entre passado e futuro passa a ser o centro das atenções do leitor.

Esse jogo de espelhos não é incomum em Carvalho, assim como o deslocamento. As pessoas vão até o fim do mundo para encontrar aquilo que talvez esteja no seu quintal. Um Maeterlinck dos novos tempos, talvez, a procura de um pássaro azul ou de um tesouro que está enterrado no quintal. Aqui, no entanto, queremos entender nosso bizarro presente: um governo genocida.

“(…) restava decifrar a charada intrincada de uma série de atos irrefletidos e inconsequentes que apenas ela conhecia, sem ter consciência deles.”

Em dois textos recentes do Bernardo Carvalho crítico, ele comenta que a literatura não pode ser uma fôrma. Tampouco a literatura pode se deixar levar por modismos e por uma lógica pré-estabelecida. Então, este romance será a prática dessa fala. E não vai agradar leitores acostumados à facilidade.

Da fragmentação daquele mundo que termina com as negativas do destino, a personagem dita “principal” pega a estrada. Bem, estrada = busca; viagem = procura. Mas as coisas começam a complicar, textualmente mesmo. Nem vou dizer que o narrador deixa um caminho de pão ou joga ao leitor possibilidades de interpretação. Ele que faça seu caminho sozinho.

O ex-marido some, um sujeito com quem essa protagonista tem uma relação desaparece, aqui e ali fragmentos da relação com o pai e a mãe surgem como flashes e ao menos quatro personagens surgem sem, no entanto, haver o mesmo peso para suas respectivas narrativas. São quatro ou cinco mistérios a ser resolvidos.

Mas há uma cena que pode passar despercebida, muito interessante. No meio do caminho, a protagonista para o carro e observa um grupo de pessoas que grita para um vale. Grita “canalha”, para o nada, em coro e com vontade. Sua “ação” é essa: gritar. De repente, essa situação absurda ilumina o livro todo.

Muita tinta já foi derramada em se tratando do romance moderno e, de resto, do contemporâneo. Rancière, por exemplo, comenta que esse romance anti-aristotélico é um encadeamento de lugares e não de tempos. Esse romance daria ênfase ao trivial, ao “marginal” e não mais à lógica clássica grega.

Bem, Carvalho não inventou isso, mas leva essa condição ao paroxismo. Numa época pandêmica e de genocídios variados, resta saber se as pessoas preferem acreditar em videntes ou em gritos vazios para um vale, algo semelhante ao que se faz nas mídias sociais…

P.S.: escrevi este texto no celular, na estrada. Vou deixar do jeito que está até para fazer eco a este inusitado (e provocativo) texto do Bernardo Carvalho.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Os comentários feitos em textos do Plural são moderados por pessoas, não robôs, e não são publicados imediatamente. Não publicamos comentários grosseiros, agressões, ofensas, acusações sem provas nem aqueles que promovem tratamentos sem comprovação científica.

Últimas Notícias