19 fev 2021 - 9h38

O Que Ela Sussurra, de Noemi Jaffe

Algo impressionante no trabalho da escritora, afora sua infinita capacidade de criar momentos poéticos, é o nó que ela dá ao lugar comum

Lábios cerrados, mil palavras no coração.”*

Desde Zulmira Tavares, nenhuma escritora tinha chamado tanto minha atenção quanto Noemi Jaffe. Nem diria que ela é “da geração” atual, porque haveria um pequeno problema de cronologia (ela é de 1962), embora tenha começado a publicar não faz tanto tempo. Também não posso dizer que ela tem vantagem, sobre os demais escritores do momento, sendo doutora em literatura. Mas fico aqui a pensar se isso não é mais que um detalhe no seu processo de escrita.

Defendi no doutorado a possibilidade de pensar o romance histórico em três etapas (difusas, complexas, mas possíveis): o romance histórico pensado por Lukács, que seria um romance típico do XVIII para o XIX, o novo romance histórico surgido mais ou menos nos anos 1950, com grande repercussão na América Latina, por vezes com raízes no maravilhoso/fantástico, e, por fim, um novíssimo romance histórico, que passa a ecoar a difusão dos modos de pensar a História no século XX: a história vista de baixo, a história dos perdedores, dos subalternos, a história das ideias, etc.. até dissolver-se numa quantidade incalculável de tipos de romance. Hoje eu reveria muitos pontos de dez anos atrás, mas fundamentalmente é isso. Digamos que este romance de Jaffe se insere nesse território, a despeito de nada impedir que alguém vá dizer que se insira em outro tipo de gênero romanesco, o romance de memórias, primo-irmão do romance epistolar e do diário.

Nadejda Mandelstam. Crédito da foto: reprodução.

Aqui temos um romance histórico, poderíamos entender assim: a viúva de Óssip Mandelstam narra parte da vida do casal, principalmente a prisão do poeta, por conta de um poema “contra” Stalin. Com o risco de ter problemas ainda mais graves com os textos de Óssip, a narradora, Nadejda, decora os textos do marido. Mito ou verdade, Jaffe parte disso: uma esposa dileta guarda de memória a obra do marido até que seja/fosse possível publicá-las. Óssip morreu em 1938. Nadejda faleceu em 1980, após ter publicado duas obras fora da Rússia, mas ainda em época de (novas) perseguições, haja vista a obra de Josif Bródski, para citar apenas um exemplo.

Aliás, seria interessante ter em mente esse arco, que vai dos modernos russos dos anos 1920-1930 até os poetas perseguidos no período Krushchov-Brejnev.

O que Nadejda sussurra? Seu sussurro é vário. Ela sussurra a obra do marido, em primeiro lugar, mas esse sussurro é um tanto mais complexo. O livro não trata do poeta, mas da mulher Nadejda. Ela se diz uma “mendigazinha” do marido, uma mulher que se deixou levar pelas vontades dele, sem ressentimento ou receio de escândalo, mas é por isso mesmo que ela se revela uma grande mulher. Nadejda sabe que existe uma História, definida por calendários e acontecimentos, que narra também a história de uma poeta perseguido, mas ela sabe igualmente que existe uma memória, livre da domesticação, talvez ainda mais importante, porque é ali que está uma testemunha ocular.

Quando sussurramos? Numa câmara ardente, num hospital, num templo, quando uma criança dorme, para o amante numa situação de intimidade e prazer, no ouvido do sujeito torturado? Nadejda, então, sussurra tudo isso ao mesmo tempo. Muito para além de sussurrar algo indevido, proibido, cortado, apagado, deslocado de seu espaço natural, ela sussurra toda uma complexidade histórica de um período espinhoso. Afinal, como defender, mesmo dentro da esquerda mais radical, as perseguições stalinistas?

Algo impressionante no trabalho de Jaffe, afora sua infinita capacidade de criar momentos poéticos, fazendo jus tanto à memória afetiva de Nadejda quanto ao trabalho poético da bela poesia de Mandelstam, é o nó que ela dá ao lugar comum – meio absurdo porque por vezes muito machista – na ideia de que haveria uma grande mulher por detrás de todo grande homem. Só por desmistificar esse dito, a leitura já valeria a pena. ( E como não amar uma autora que inicia o livro com uma citação de Pizarnik?: “E quando é noite, sempre/ uma tribo de palavras mutiladas/ busca asilo em minha garganta/ para que não cantem eles/ os funestos, os donos do silêncio”.

Então, o título ganha ainda mais sentido. Além de belo, e nada ingênuo, ele mostra a grandeza de uma mulher, que não tem anteparos, muletas, escoras, bases. De todo modo, não podemos negar que a história negligencia sistematicamente o pensamento e as obras das mulheres. Então, se “O que ela sussurra” é um resgate, que belo resgate. Em verdade, Nadejda não precisa ser resgatada de nenhum lugar: ela não necessita do nome do marido. Ela mesmo deixou duas grandes obras, que não ganharam tradução no Brasil (não encontrei traduções). Mesmo a obra de Mandelstam também não é largamente divulgada no Brasil. A primeira vez que deparei com ela foi nos anos 1980-90 com algumas traduções dos irmãos Campos, e muito recentemente tenho encontrado algumas versões, portuguesas ou brasileiras de poemas dele.

Óssip Mandelstam. Crédito da foto: reprodução.

Jaffe é afeta aos detalhes, à memória, ao poético. Em outras obras suas, você, leitor e leitora, vai encontrar o mesmo cuidado. Há algumas cenas extremamente tocantes, como a descrição de um ovo, um simples ovo, que ganha uma dimensão enorme no todo da obra. Outra habilidade rara é a inserção de personagens históricas num cotidiano muito natural, caso da poeta Anna Akhmátova, amiga do casal.

E o mais incrível: Jaffe fala de um casal eslavo em pleno regime stalinista – e o tempo todo pensamos nos perigos que nos rondam, no perigo próximo, que está entre os amigos, os vizinhos, os parentes. Sua narrativa poética tem a vertigem dos abismos.

A propósito, as obras publicadas em inglês por Nadejda Mandelstam são Hope Against Hope e Hope Abandoned. Seu prenome [Наде́жда] é “esperança”, em russo. Jaffe, então, traz mais uma camada de sentidos a esse belo romance.

*Uma corruptela de Rumi aqui.


Para ir além

O Que Ela Sussurra, Noemi Jaffe. Companhia das Letras, 192 páginas.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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