18 abr 2022 - 10h19

Murakami, em três partes

Murakami é um dos poucos escritores “enciclopédicos” vivos e sua escrita é de uma riqueza intertextual e interdiscursiva muito rara

“O único consolo era que aparentemente ele não sentia dor.”

Não era objetivo dessa coluna “repetir” autores, mas há autores inesgotáveis. Afora isso, o livro em questão ganhou relevância pelo belo filme Drive My Car (eu diria que vice-versa). Não é todo dia, afinal, que um autor como Haruki Murakami é traduzido para outra linguagem, no caso, a do cinema.

Já escrevi inúmeros textos sobre Murakami. Já fiz “guias” para ler o autor. Já dei cursos sobre sua escrita. Para quem não me acompanha, posso repetir algumas informações básicas sobre ele: para facilitar leitura, apreciação ou investigação, eu separo seus livros em três grupos. Os primeiros são os “conceituais”, como Caçando Carneiros e funcionam quase como um exercício para os demais; há os mistos, entre os primeiros e os últimos, um tanto conceituais e com investidas no universo íntimo das personagens, como Minha Querida Sputinik, e há os intimistas, como Norwegian Wood. Talvez essa separação ajude a mergulhar um tantinho em sua ficção.

Como toda divisão, é problemática, arbitrária e provisória. Sei. De todo modo, não é de se espantar que leitores deixem de lado Murakami ao começarem a leitura dele por Caçando Carneiros, por exemplo, ou se apaixonem por 1Q84, pelos mesmos motivos que levaram os primeiros a desistirem de Murakami e também por considerarem, na sua vasta produção, obras como Norwegian Wood sem graça, afinal aqui não temos nada do universo “fantástico” dele. Valeria lembrar, claro, que Murakami é um dos poucos escritores “enciclopédicos” vivos e sua escrita é de uma riqueza intertextual e interdiscursiva muito rara.

Os andaluzes árabes, assim como outros povos, chamavam sua própria terra de “al jazira”, literalmente “a ilha”. Veja-se. Não se trata, evidentemente, de uma noção literal de “ilha” e sim uma noção metafórica. Algo similar ocorre na escrita de Murakami. Ele não trata apenas o Japão contemporâneo como uma ilha ou um conjunto delas, mas como “a/uma ilha”. Talvez o mais adequado fosse pensar um adjetivo que pode virar substantivo: seu personagem é “o ilhado”, separado do mundo por condições sobrenaturais (Kafka à beira-mar), por condições sentimentais, geralmente melancólicas (O Incolor Tsukuru Tazaki e seus Anos de Peregrinação) ou vitimados pelo desconsolado mundo capitalista (como esse Homens sem Mulheres). Essa mescla de situações, aliada à descrição de personagens por vezes inusitadas, com pitadas de toda a mística japonesa – dos mitos mais antigos da formação do Japão a seres sobrenaturais do presente – faz das obras de Murakami algo único no planeta.

Caso você pegue um carro e comece a passear pelo Japão, por exemplo, saindo de Tóquio indo para Toshigi ou de Kioto para Hamamatsu (lugar onde muitos brasileiros moram), talvez não encontre aquelas belas imagens dos cartões postais. Sim, a geografia do Japão é linda, e haverá templos fantásticos para o turista visitar. No entanto, no meio do caminho, o viajante verá lojas, postos de gasolina, restaurantes simples, redes de pizzarias, com pratos modificados ao gosto japonês (não muito diferentemente do que os brasileiros fizeram com o sushi e o sashimi, dentre outros pratos).

É esse o universo dos romances de Murakami: há motoristas, atendentes de boteco, funcionários de bibliotecas, trabalhadores frustrados sem formação acadêmica (ou pelo agressivo modo de ensino escolar japonês), pessoas de sexualidade fora do binarismo homem/mulher:masculino/feminino, professores, estudantes. E postos de gasolina de beira de estrada, apartamentos pequenos e “frios”, casas tradicionais sem calor humano, etc. Por vezes, a literatura de Murakami é mais interessante pelo que não mostra, exatamente, do que pelo que ela aponta, mostra, descreve. E evidentemente, nessas estradas sem muito glamour, as pessoas ouvem nos carros música erudita ou Beatles.  A música, inclusive, é uma das chaves para “ler” Murakami.

Em Homens sem mulheres (Onna no inai otoko tachi), a presença dos homens nunca foi tão marcante em Murakami. As narrativas são feitas por homens (geralmente, “um escritor”, esse que pode observar as coisas do mundo e que domina razoavelmente uma linguagem para dar forma a esse mundo), em diálogo com outros homens. Claro que a presença de mulheres é importante, já que as histórias serão sobre relacionamentos homem-mulher, mas as conversas, as descrições, as situações, são, em geral, de homens conversando com homens sobre mulheres: a falta delas, a presença delas, o sumiço delas, o fim do relacionamento com elas, a incapacidade de se relacionar com elas.

O leitor acostumado com Murakami reparará nas longas conversas de bar, nos longos bate-papos após o trabalho, bilhetes, mensagens em celular, etc. Se o leitor for observador, os contos aparentemente simples (se comparados à complexidade de obras como Crônica do Pássaro de Corda, por exemplo) remeterão a situações bastante eruditas. Logo no primeiro conto, uma descrição das verdades do mundo como fosse a própria tinta de Sei Shonāgon. Em outras narrativas, o que poderia ser apenas uma menção à literatura russa (O Tchekhov de Tio Vânia do primeiro conto) ganha corpo na linguagem, e Murakami contorce sua escrita geralmente muito leve de forma a lembrar contistas russos do século 19. Há um longínquo Goethe (digamos, um Werther moderno) e uma referência muito engraçada ou involuntária ao Kitaro, que lá pelos anos 1980-90 compôs umas coisas new age terríveis, uma longínqua Anaïs Nin ou um Tanizaki, quando a descrição é de práticas sexuais. E há Beatles e Kafka, e há o narrador desconhecido (mesmo que distante) do conjunto de narrativas conhecidas como As mil e uma noites, e ainda há menção ao Hemingway que, em 1927, publicou uma coletânea de contos com o mesmo nome: Men without women. Fique à vontade para estabelecer relações ou não. Eu prestaria atenção em especial ao conto “Kino”, porque neste conto alguns aspectos do budismo japonês e do xintoísmo aparecem com força, algo, ao menos no Brasil, pouco investigado na obra de Murakami.

Algo que já escrevi e cabe repetir aqui, sobre Murakami, é a sequência de pistas falsas que ele deixa ao longo de seus escritos. Seja a referência a Sibelius, seja a referência a Lu Xun, às vezes me parece que ele deseja apenas despistar o leitor ou simplesmente mencionar algo que lhe ocorreu num dia enquanto corria e pensava no ato de escrever.

Eu tinha lido alguns contos desse livro em espanhol e em inglês. Agora, temos a versão em português de Eunice Suenaga, pela Alfaguara. Para quem está acostumado com Murakami, acho um bom motivo para se deliciar com os contos. Para quem nunca leu, acho um bom começo. E que se possa comparar o livro (e o universo de Murakami) com a versão para o cinema, que não é a primeira e esperamos que não seja a última.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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2 comentários sobre “Murakami, em três partes

  1. Parabéns , uma vez mais, Benedito Costa. Muito boa a resenha sobre a obra de Haruki Murakami. Sou suspeito pois já li tudo que me caiu em mãos (sobre) do japonês e sinto falta de mais e mais… Aguardo que aqui apareçam novos livros. Vou em busca. Recomendo a leitura deste texto para quem ainda não conhece a obra deste que considero um dos maiores escritores vivos e que, sempre citado, ainda não conseguiu o galardão de Nobel da Literatura. Mas que merece não tenho dúvidas! #pramercer

  2. Acompanho sempre a coluna. Sempre dicas excelentes! Achei o conto “drive my car” muito melhor que o filme. O filme alterou muitos elementos, retirando a força da história. Se um dia puder escrever sobre o livro “O quarto azul” do Simenon. Um dos meus livros favoritos. Abraço!

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