11 jun 2021 - 7h00

Milton Hatoum

“Um filho emparedado pelo silêncio e pela dúvida pode sobreviver?”

Livro 1

Há duas sobreposições nesse pequeno livro que podem servir como um guia para ele: a linguagem seca (notadamente no começo da obra) que se mistura à nova capital (uma linguagem ela mesma, seca, árida, “concreta”) e ao período // a ausência da mãe e a ligação do pai da personagem central com o militarismo servindo de metáfora para o país. Quantos pais, hoje, não saem às ruas pedindo o AI5…

Nenhum livro que eu tinha lido até então fora tão contundente sobre o golpe de 1964, talvez porque nunca tenha ficado tão claro que o golpe não ocorreu isoladamente — mas sim amparado por juízes da Suprema Corte e pelo cidadão comum. Talvez haja a fantasia de que um golpe ocorra nas cúpulas do poder, mas um golpe se estabelece a partir da mais banal realidade cotidiana.

No começo do meu curso ginasial, tive um professor de Geografia que era apaixonado pelos EUA. Ele havia ganho uma passagem para aquele país e ficara maravilhado com a grandiosidade das plantações e colheitas do chamado “corn belt”. Passava as aulas falando disso. Horas, se deixássemos. Éramos jovens, mas malvados. Ele usava calças jeans de cintura alta e não tinha volume na virilha. Diziam que ele não tinha colhões tampouco cérebro. Mas essa maldade sequer chegava aos pés do que deveria ser realmente censurável: seu discurso conservador, liberal e alinhado ao governo militar, que ele elogiava. Éramos adolescentes, certo? Não precisávamos disso em sala de aula.

Esse exemplo aparentemente tosco tem um propósito. Quero chegar a um ponto importante para se tentar entender o livro de Hatoum: o mal está perto, é nosso vizinho, faz parte de nossas famílias, é a serpente já eclodida do ovo em que não pisamos. Quando vemos, estamos numa prisão, torturados, fazendo ecoar o poema de Eduardo Alves da Costa, “No caminho, com Maiakóvski”.

Mas é pior: não são apenas “eles” que virão invadir nosso jardim e cortar nossas gargantas. Serão nossos pais, nossos irmãos saídos do mesmo ventre, nossos professores, nossos parceiros de caminhada. E não se trata de uma luta entre opostos. O mal se instala como um veio de lava quente na rocha porosa.

Leyla Perrone-Moisés disse que há muitos escrivinhadores e que Milton Hatoum é um dos poucos que podem ser chamados de escritores. Deixe explicar: Leila está preocupada com a alta literatura — e ela tem razão. Quando foi lançado Relato de um Certo Oriente, muitos pensaram que Hatoum seria mais um “grande escritor de um só livro”. De fato, oscilou depois e parecia um escritor de livros medianos, mas a trilogia que se constrói agora é a prova viva de uma grande literatura em português brasileiro, incômoda, forte, triste, sinal dos nossos tempos e um aviso de que estamos muito perto — e perigosamente — do que já ocorreu nos anos 1960.

Martim somos todos nós, órfãos da ética e vítimas da violência.

Livro 2

Hatoum desloca Martim não para o Rio de Janeiro, cidade de velhos poderes estabelecidos, mas para São Paulo, nova cidade de poderes estabelecidos e que se estabelecem. Martim sai da UnB e cai na USP. As escolhas de Hatoum não são óbvias nem descuidadas: tanto na UnB quanto na USP veremos uma elite de estudantes (mesmo aqueles que vivem com muito pouco e chegam a passar fome para poderem estudar), uma elite intelectual, sonhadora até certo ponto, combativa até onde dá, perseguida pelo regime mesmo quando é indiferente e cai de gaiata nas garras das várias polícias do Estado. É curioso observar que essa elite intelectual vive as grandes discussões do momento histórico por que passam, mas não frequentam exatamente as margens. Nada nesse segundo volume mostra as crises negras, femininas (talvez aí um pouco, pela presenta de mulheres), gays. Há muito pouco da luta metalúrgica, tão importante no ABC e no Vale do Paraíba, por exemplo. Não há menção às lutas de indígenas e quilombolas, embora personagens que estudam sociologia ou etnografia decidam morar justamente em tribos indígenas.

Como no primeiro volume, o autor (o narrador, se preferir) mostra que o grande perigo nos habita, está próximo, nos avizinha, nos corrompe ou mata. Uma personagem lésbica é presa pela própria família numa “casa de repouso”, sofrendo torturas similares (não as mesmas) que presos políticos. Seus amigos creem que ela tenha sido levada por militares, mas não. O leitor vai procurando ao longo do livro as cenas de tortura, que demoram a aparecer e são (num jogo muito astuto do autor) descritas com parcimônia. Não é objetivo do livro descrever cenas de sangue e ossos quebrados que já constam de outras obras não ficcionais. Seria interessante pensar que a recusa em descrever cenas de violência extrema seja justamente para apontar como as pessoas viviam nos anos 1970: assim, indo à padaria, vendo jogos de futebol, indo à missa, enquanto pessoas sofriam as piores barbaridades.

Martim desce até os mais profundos infernos pessoais. É um homem em fuga, e mais uma vez consegue fugir, mas nunca encontra o que deseja. Os amigos o descrevem como ser perdido, à procura de algo, de um pássaro azul, de um tesouro, de um passado, de uma pérola no fundo do mar. Mais do que nunca ele sofre com a ausência da mãe, sem saber se ela está viva. Sonha com ela, dormindo e sonha com ela na vigília. Ele a vê em todos os lugares e lugar algum. Ouso dizer, com o risco de parecer um idiota, que sua mãe serve de metáfora para todos. A “pátria-mãe” está em todos os lugares, mas em lugar algum. Crer que a mãe tenha sido morta pelo regime militar é quase uma passagem de um estado mental para outro com significados similares: a mãe foi morta/desapareceu e a pátria foi morta/desapareceu. Todos estão procurando pela mãe, afinal.

Há personagens extremamente marcantes nesse segundo volume, como Ox, filho da elite do café, mas que mora numa república, de sexualidade duvidosa, um tipo de Oscar Wilde abaixo do Equador, o Nortista do primeiro volume, Marcela e Mariela, cada um com sua voz própria e febril a seu modo, dentre outros. Cada um tempo seu “tempo” e seus “problemas” para solucionar.

Se você leu com calma A Poética de Dostoiévski vai ler as vozes todas que aparecem nesse livro não como uma polifonia e sim como algo mono-qualquer-coisa, ditadas e orquestradas pela voz de um único narrador. Você pode reclamar disso, comparar Hatoum com Dostoiévski ou Machado (curiosamente, os críticos dessas comparações nunca pensam em Francesco Colonna ou Kezilahabi…) e se esbaldar com isso. Pode comparar Hatoum, também, com qualquer moderninho que tenta colocar a cara no sol e tentar uma fatiazinha de mercado e se sentir muito importante por isso. A pergunta que faço é “e daí?” Há obras colossais com vozes assim organizadas. As vozes ali estão, extremamente bem construídas. Para que surjam e tenham seu próprio ritmo, o autor lança mão de diários. Pode parece anacrônico, mas o resultado é para lá de interessante. Os moderninhos têm muita poeira para comer. O segundo volume da trilogia é ainda melhor que o primeiro. Usarei um chavão da crítica aqui: “pouca coisa escapa ao olhar atento de Hatoum”. A despeito disso, o que mais me atrai nessa obra não são as pistas que o autor vai deixando como um rastro de miolo de pão; é o contrário: são as faltas. Há pequenos mistérios, deslocamentos das vozes que conversam entre si, alguns buracos onde cair para se tentar sair com uma vela na não, tentando driblar o vento.

Já escrevi sobre a falta que faz um romance (ou vários) que tenha lidado com o período militar de modo tão profundo. Nesse volume, vemos a continuidade da história de Martim, nossa história, e um deslocamento para a Europa, em particular Paris, para onde foram tantos brasileiros exilados.

Romance seguro, estruturado, marcante. Vale muito a leitura. Ansioso pelo terceiro da trilogia. Ler Hatoum é uma obrigação de qualquer curso de Letras e das aulas sobre literatura nos colégios.


Para ir além

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