5 fev 2022 - 9h30

Liudmila Ulítskaia – Meninas e Mentiras de mulheres

Em seus livros, a escritora russa investiga o universo feminino

“Os filhos de Rebeca, como diz o Gênesis, começaram a brigar ainda no ventre materno.”

Já escrevi aqui mesmo neste espaço sobre a dificuldade de se escolher o que ler primeiro de um autor. Se escolhemos uma obra da juventude, corremos o risco de perder o interesse. Se escolhemos uma obra da velhice, corremos o risco de perder certo verdor e coragem juvenis. E há, claro, primeiras obras que dizem mais que as posteriores.

Não saberia dizer por que motivos justamente a Editora 34 escolheu Meninas. Há obras de mais interesse no caso de Ulítskaia. De todo modo, aqui não temos nem uma escritora jovem, tampouco um escrito da maturidade. Ela começou a escrever com certa idade e com muita propriedade.

No começo, a leitura parece não fluir bem e nos contos posteriores o leitor verá a grandeza da escritora russa e minha insistência em indicá-la como leitura.

Creio que algumas considerações devam ser feitas sobre ela e sobre Meninas. Como bem observam Danilo Hora e Arlete Cavaliere, o leitor que procura por autores russos (ou soviéticos) talvez precise de algum tipo de bússula. Como todas as literaturas do mundo, é complicado e temeroso fazer um mapa totalizante da literatura russa moderna. De todo modo, é importante saber que, para os teóricos russos, fala-se de uma literatura pré-soviética, de uma literatura soviética, de uma literatura pós-moderna e de uma literatura russa contemporânea (que pode vez ou outra se confundir com a anterior). Lógico que, como todas as classificações, esses nomes são móveis e discutíveis. Por exemplo: quando se fala em literatura “pós-moderna russa”, não estamos falando do mesmo pós-modernismo da Europa ocidental e dos países que copiaram esse modelo – ou esses discursos sobre o pós-moderno – europeu.

Caso você procure por listas de autores russos que você “deve ler”, talvez não encontre Ulítskaia entre os “autores pós-modernos russos”, e isso se explica porque muitos críticos russos condisseram sua escrita convencional e ainda com ecos da literatura clássica russa, aliás um dos seus grandes méritos.

Em outras listas, vai encontrar o nome dela ao lado do de Venedikt Yerofeiev, por exemplo – e caso você compare os dois vai dizer: “ué!”. Yerofeiev tem muito mais a ver com a tal literatura “pós-moderna russa”, embora também não esteja lado a lado com autores que marcam com força essa designação, como o caso de Valdímir Sorókin. Caso particular, também, é o de Sergei Dovlatov, que ora aparece como um crítico da literatura tradicional russa, ora como um dos seus principais herdeiros. Ainda sobre autores modernos russos, muito possivelmente você encontre nomes como Shishkin, Vodolazkin (sem tradução para o português) e Petruchévskaia (já traduzida).

De todo modo, Danilo Hora tem razão em dizer que Ulítskaia é uma das mais importantes vozes da literatura russa do século XX. Tendo nascido no final da Segunda Guerra, ela acompanhou as mudanças pelas quais passou a União Soviética e a Rússia em particular e isso fica muito claro em seus belíssimos trabalhos. Em particular, eu chamaria a atenção para o modo como a autora tratou da situação da mulher na Rússia.

Aqui, em Meninas, temos um bom exemplo disso. Daí eu considero um bom começo para adentrar seu trabalho de escrita literária. Trata-se de um livro sobre meninas. São seis contos curtos, que dialogam entre si quase que como um romance. Nos textos, meninas de classes variadas terão um encontro com o sexo (o seu e o oposto), com as outras, com a pobreza, a riqueza, a morte, a distância. Sobretudo, um livro sobre a vida.

Digamos que aqui todas as coisas começam com meninas. E depois a autora caminha para a vida adulta. É como se toda a obra dela fosse um grande romance de formação. Há um projeto aí. Para esclarecer um pouco mais, na segunda parte falo com mais vagar sobre Mentiras de mulheres.

“Era aquela mesma palavra que às vezes ela descarregava nele como um machado.”

Mentiras de mulheres

Não vai aí nenhuma análise psicanalítica, mas talvez os mentirosos compulsivos vivam num mundo de hipérboles. É nesse universo de linguagem exagerada, levada ao extremo do sentido das coisas, que se encontra — ou se vê — Gênia, de início, justamente uma estudante da linguagem.

Mas há mentiras de outros tipos, pequenas ou grandes, algumas necessárias à sobrevivência ou à convivência. Nem sempre entendemos o mentiroso, nem sempre percebemos o quanto precisamos mentir, nem sempre a mentira é um pecado dos mais graves.

Nas seis narrativas desse livro, há diversos tipos de mentirosos: a compulsiva Irene no primeiro, que “mata” quatro filhos nunca existidos; a adolescente Nadia, que inventa um irmão, talvez por necessitar de atenção, talvez por necessitar ser admirada ou ainda se esconder, não se sabe; a menina Liália, que inventa um amante (em verdade ele existe, mas a relação só há em sua imaginação); a erudita idosa que inventa ter escrito poemas de consagrados poetas, como Tsvetáieva; as prostitutas russas que trabalham na Suíça e que precisam inventar um passado que explique ou embeleze o presente; e as mulheres que não precisam inventar nada, porque cada uma de um modo vive as mentiras que escolheu para si, seja a família, a religião, o trabalho, as relações com o outro.

A literatura de Liudmila Ulítskaia é uma literatura de investigação do universo feminino. Em verdade, este livro se chama Сквозная линия (algo como “através da linha”, “ao longo da linha”) sendo que as traduções para as demais línguas europeias preferiram “mentira”, “lies”, “mensonges”. Isso provoca uma certa confusão de entendimento sobre a obra. Parece que a autora fala de mentiras típicas de mulheres — e não é nada disso. Analisando pessoas simples, de vários estratos sociais e de várias origens do ex-império soviético, Ulítskaia investiga como a mentira faz parte de nosso cotidiano, intensamente, vivamente, humanamente.

É justamente essa análise do indivíduo comum que levou alguns críticos a compará-la a autores como Gógol e Dostoiévski, ou seja, dentro de certa tradição da literatura em russo (veja a explicação que diz acima, sobre os cortes temporais da produção russa do século XIX para o XXI). A comparação é bem justa e ainda leva em consideração certa ironia típica da autora, entre o cômico e o trágico, algo típico nos dois autores clássicos citados e presente ainda em escritores modernos. Por isso, sugiro a leitura de Dovlátov junto ou separado.

Muito difícil definir o projeto desse livro. São narrativas que podem ser lidas isoladamente. Então, tratar-se-ia de contos. Juntando-os, temos uma novela, na forma tradicional de uma definição. No entanto, nada impede que tenhamos em mãos um romance. A escolha não é exatamente uma novidade no mercado literário, mas o como a autora constrói o caminho percorrido por Gênia, isso, sim, é de se verificar. Um livro sensível, bonito, recheado de referências sutis, e que cobre um vasto painel histórico russo. Sem querer, o leitor terá percorrido desde a década de 1910 até os tempos da perestroika.

p.s. A tradução brasileira ficou ao cargo de Irineu Franco Perpétuo. Já a edição portuguesa ficou ao cargo de Nina Guerra e Filipe Guerra. O leitor brasileiro vai estranhar alguns usos tipicamente portugueses, mas nada que atrapalhe a leitura. Caso tenha interesse por outros livros da autora, há excelentes traduções em espanhol e inglês. Apenas tenha paciência com a grafia do nome dela, que varia, na latinização, de país para país.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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