20 ago 2021 - 8h30

Leite Derramado – Chico Buarque

Trata-se daquele tipo de literatura que é boa pelas coisas que ela aponta, e não pela escrita em si, lembrando – e gosto de frisar isso – que a boa literatura é o encontro dessas duas coisas: o conteúdo e um excelente projeto de escrita

“Se o leite desanca assim de supetão, dizia a ama-de-leite, é porque a mãe perdeu um ente querido, ou padeceu grande decepção amorosa.”

Há muito o que ser dito desse livrinho. Primeiro, que dispensa apresentação do seu escritor. Mas o que seria meio caminho andado se torna um problema. Aqui temos e não temos o mesmo autor de “Ópera do Malandro”. E talvez por isso muitos leitores reclamem da “qualidade” do livro.

Por óbvio que qualquer coisa escrita pelo Chico está acima das coisas escritas pelos mortais comuns. Principalmente se pensarmos num mercado que tem publicado tanta coisa e tanta coisa mediana. Colocando, assim, lado a lado, ou melhor, numa balança, Leite Derramado com a maioria dos jabutis e afins (não que Chico não seja freguês de premiações também) é melhor que a maioria das coisas que tenho visto no mercado das letras. No entanto, é um pouco constrangedor. E explico a razão: não é a melhor coisa do Chico.

Claro que, no começo da leitura, logo a voz do personagem masculino ecoa tantas outras vozes que o Chico construiu ao longo da vida (embora Chico possa ser mais conhecido pela qualidade das vozes femininas, algo que ele fez tão bem). Claro que, logo nas primeiras páginas, você vai encontrar ecos de grandes escritores e nem vou citar quais porque a crítica especializada (existe isso?) já deve ter notado ali de Bruno Schulz a Böll, de Lezama Lima a Graciliano Ramos. Não sei. Quando não se tem muito o que dizer, o crítico lasca lá uma comparação com Kafka ou Joyce e fica tudo por aí. Ou seja, num limbo. Não sei o que Chico leu e, se leu, se tentou homenagear, copiar ou, simplesmente nem uma coisa nem outra: simplesmente escrever permitindo que essas vozes fossem atravessando a sua. Só sei que ele tem uma voz própria e você, ao ler Chico, se não leu os romances dele, vai ficar ouvindo o Chico de incríveis letras que ele compôs ao longo da carreira e ainda aquela voz suave que ele tem ao dar entrevistas.

Mas logo após a décima página lida, a coisa cai. Trata-se de um bom texto, de fato, com referências as mais diversas, de uma mente brilhante como a do Chico, que domina não apenas vocabulário como fatos da história, da literatura, dos discursos sociológico-políticos.

Mas há lugares-comuns como os usados por escritores jovens ou inexperientes. Trata-se daquele tipo de literatura que é boa pelas coisas que ela aponta, e não pela escrita em si, lembrando – e gosto de frisar isso – que a boa literatura é o encontro dessas duas coisas: o conteúdo e um excelente projeto de escrita. Então, muito da produção literária do mercado editorial de hoje traz questões absolutamente relevantes, como a branquitude, o patriarcalismo, a violência de gênero, as dívidas históricas com subalternizados, mas isso tudo – repito, de grande relevância – a Sociologia, a Psicanálise, a Linguística, etc., fazem melhor. Quero dizer… Botei o indicador nos lábios e olhei para a esquerda… O que será que isso significa?

Na minha fantasia de leitor e de crítico, fiquei imaginando o Chico, do alto da sua experiência, após compor preciosidades, escrevendo romances, como quem não quer nada, como passear por Copacabana e tomar uma água de coco num postinho qualquer, o que para um escritor novato seria um desafio sobre-humano. Chico faria o mesmo de olhos vendados e com uma mão nas costas.

Alguns usos da língua nesse livro parecem coisa de uma fala cotidiana (“no ano de mil novecentos e lá vai fumaça”), mas sem a grandiosidade literária que isso poderia proporcionar. Soa como uma brincadeira boba, como uma piada ruim verbalizada depois de umas cervejas a mais com os amigos num bar. O riso que vem é um riso meio amarelo, quase seguido de uma vaia.

Repito: é Chico. Mas isso tudo explica por que tanta gente me disse que “esperava mais”. É Chico: não é Sebald. Ou Dovlátov.

Na orelha do livro, a estudiosa que deu nome, inclusive, a esta coluna, Leyla Perrone-Moyses, faz um resumo do livro: um narrador velho e decante, com a memória confusa, meio entrevado num hospital, narra para um leitor qualquer suas memórias. A professora lembra que esse tipo de narrativa é um sub-gênero literário, típico do mundo moderno. E tece elogios à forma “concisa e precisa” do livro, em que “nada é supérfluo”, sendo o resultado um “texto primoroso”.

Bem, mesmo sendo o Chico, é uma ousadia reescrever a decadência de alguém da elite, já que muitos antes dele fizeram isso com maestria. Penso em nomes como Ángel Atúrias, García Márquez e Graciliano Ramos. De todo modo, é interessante perceber como um gênero literário é forte quando ele percorre o tempo, sem desgastes. Assim como é interessante ler como um escritor como Francisco Buarque de Holanda faz uma leitura disso.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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