30 abr 2021 - 0h04

Cārtārescu

Literatura é teratologia

Há ficcionistas ruins. Há ficcionistas bons. Há gênios da ficção. Depois, há escritores como Cārtārescu. Acima deles, há Dostoiévski.

A edição não é assim tão nova, mas é uma felicidade que a Editora Mundaréu tenha tido a ousadia de publicar o escritor romeno no Brasil. A tradução de Fernando Klabin é corajosa e bem cuidada.

É comum a crítica dizer que Cārtārescu “rompe convenções”. Isso é chover no molhado. Se a literatura não rompesse convenções, não seria literatura. O grande mérito de Cārtārescu é repensar esse “rompimento”. A obra é dividida em quatro partes, que você poderá, inclusive, encontrar por aí em outras línguas: “O Roletista” (um conto longo ou uma novela, que talvez tenha sido o que lhe deu exposição mundo afora), “O Mendébil”, “Os Gêmeos”, “REM” e “Epílogo”. Cada narrativa mais assustadora que a outra, no bom sentido criativo.

Também é meio lugar comum dizer que na obra há a “memória como um personagem”. Confesso que nunca entendi muito bem essa construção: uma cidade ou uma memória como personagem. Mas, enfim, memória, lisergia, loucura, sonho, a fusão entre real e imaginário, etc. Com fusões e passeios desse tipo, você poderá encontrar, por exemplo, uma relação erótica que é descrita como um passeio por um museu, um passeio lisérgico. Ousado, bem feito, imperdível.

Difícil dizer quantas línguas há no mundo. Para isso, precisaríamos partir de uma noção do que seja uma língua. De todo modo, dependendo do autor que você leia, encontrará números assombrosos, como 6.000, por exemplo. Como as línguas estão morrendo, porque andamos matando seus falantes, esse número pode variar ano a ano.

A variedade é grande. Dessas todas, milhares de línguas, apenas 25 foram agraciadas com o prêmio Nobel. Dessas 25, as mais premiadas foram o inglês, o francês e o alemão. Nem podemos dizer com segurança que se trata da língua do conquistador como argumento tácito, haja vista que o alemão não é exatamente uma língua falada em colônias mundo afora, mas inglês e francês, sim (embora as empresas alemãs estejam no mundo todo). Então, se pensarmos em Derek Walcott, Naipaul e Soyinka, vamos perceber que esses premiados escreviam no idioma do conquistador (e nem é culpa deles se assim foram criados; se você pensar em Tagore, vai chegar a conclusão parecida). Mas não se esqueça que tanto o alemão quanto o francês foram línguas de largo uso em grandes impérios, como o austro-húngaro e o russo e hoje são línguas usadas por grupos de grande influência no comitê que escolhe os prêmios. [Nada contra esses escritores, que, aliás, aconselho muito.]

O Nobel já tentou prestigiar línguas não européias, como o japonês, o chinês e o árabe (não vou colocar o turco por uma questão muito particular, o de a Turquia tentar entrar para a comunidade, embora a língua turca não seja falada apenas na Turquia). Mas mesmo quando faz isso — escolhe uma língua “distante” — ou opta por autores que escrevem numa segunda língua, como o caso de Gao Xingjian, cidadão francês, embora chinês, ou o já citado Tagore, que optou pelo inglês embora fosse de expressão bengáli. O comitê prefere línguas próximas e mais conhecidas, preferencialmente se algum de seus membros estuda o idioma a ser escolhido, como o islandês e o finlandês (Láxness, Sillampää). O prêmio não vai longe disso — e como qualquer outro prêmio mundo afora, vive de conchavos, intrigas, “influências” de grupos editoriais (eu mesmo já ganhei um prêmio no Ceará e o prêmio me foi retirado para ser dado a uma escritora local).

Você poderia pensar que o comitê sueco só premia europeus ou línguas europeias. Sim e não. Grande parte das línguas europeias nunca foi escolhida, valendo citar o holandês, o basco, o romeno, o ucraniano, o maltês, o croata, o letão, o estoniano, o lituano, o eslovaco, o galego, o catalão, o búlgaro, o corso, o sardo etc. Isso sem contar as variações. Geralmente, os escritores precisam optar pela língua oficial de seu país ou região para publicar suas obras, o que não quer dizer que não haja escritas em línguas menos divulgadas ou em dialetos (o que ocorre na Itália, na França, na Alemanha).

Se o comitê deseja prestigiar um país, como a Romênia, acaba escolhendo um autor de expressão alemã (Herta Muller). Algo parecido ocorreu com a Bulgária de Elias Canetti, de expressão alemã e depois naturalizado inglês.

A premiação foi criada para divulgar diferentes formas de expressão e mostrar a diversidade. Embora haja grandes escritores ali (Mann, Gide, Kawabata), a premiação é a sedimentação do discurso do opressor. Escolher autores de línguas hegemônicas é mais ou menos como dar o Nobel da Paz para um estadista assassino ou como escolher o filho como embaixador para a maior potência do mundo.

O papo acabou migrando para o Nobel, porque há dois autores romenos que vivem fazendo parte das casas de apostas para essa premiação. Um deles, infelizmente, optou pelo inglês: Codrescu. O outro é justamente o autor da coluna de hoje, Cārtārescu. Outro dia falo do primeiro.

Acho que é a primeira tradução de Cārtārescu para o português.

Capa de Nostálgia, publicado pela editora Mundaréu.

Na introdução à obra, Leonardo Soares vê ecos de Bruno Schulz. Trata-se de uma observação muito perspicaz. O autor de Nostalgia cita constantemente Mann, de quem você verá um acento aqui e ali também. Mas a primeira narrativa remete a um certo Kafka, o Kafka de Um Artista da Fome. Confirme isso com carinho. Professor de literatura numa universidade – o que não garante a ninguém a qualidade da escrita –, ele faz isso como poucos.

Embora o romeno oficialmente seja uma língua latina, a cultura romena é atravessada pela eslava ou pela alemã ou ainda pela húngara. Por isso, o leitor de Cārtārescu vai encontrar laços com autores tão díspares quanto Klima ou Kertész (já escrevi sobre eles). Como se trata de um romancista bissexto, segundo ele mesmo, já que é um poeta, não estranhe ver na introdução a O Roletista a voz longínqua de Yeats.

Mas a melhor maneira de ler Cārtārescu é ler ele mesmo, sem procurar nada. A tradução é bacana, como eu disse lá no começo, embora a revisão tenha deixado escapar uns errinhos aqui e ali. Vamos torcer para que haja outras traduções desse e de outros autores dessa bela tradição literária. Li em outras línguas Solenoide, e o assombro é o mesmo.

p.s.

A Mundaréu tem um catálogo pequeno, mas invejável, com autores chilenos, guatemaltecos e outros, bom para presentear e ter.


Para ir além

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