7 jan 2022 - 8h00

“A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch

Ela fez o que muitos historiadores do universo fora do mundo soviético fizeram ou tentaram fazer. Vale a pena. Por vezes, a leitura fica repetitiva, mas não deixa de emocionar

Quando Svetlana Aleksiévitch começou a pesquisa com mulheres que lutaram na Segunda Guerra, mulheres soviéticas, corria o ano de 1978, o ano em que Karol Józef Wojtyła sentou no trono de Pedro. Ela tinha 30 anos. As mulheres pesquisadas, em torno de 50, 60 anos. O Solidariedade ainda nem tinha sido fundado na Polônia e o mundo ainda rodaria uns bons anos para ver a queda do muro de Berlim e o fim da URSS.

Na Inglaterra, Margareth Thatcher era uma política da “oposição” e no ano seguinte chegaria ao cargo de primeiro-ministro. Dali a dois anos, Ronald Reagan seria eleito presidente nos EUA. No Brasil, o presidente era Geisel, cujo sucessor foi Figueiredo. No Egito, o presidente ainda era Sadat; em Israel, Begin sucedeu a Rabin e 1978 foi o ano da morte de Golda Meir.

Na Índia, o primeiro-ministro era Desai, que seria substituído por Indira Gandhi, novamente, um ou dois anos depois. Foi um ano complicado para a Índia, e para a África, e para o mundo soviético, e para os militares sul-americanos, e para tantos outros lugares mundo afora.

No ano seguinte, a URSS invadiria o Afeganistão e o Xá do Irã cairia pelas mãos dos aiatolás, criando uma terrível instabilidade na região, que chega aos dias de hoje. A presença marcante de armamento ocidental (notadamente americano, alemão, italiano e até brasileiro) numa vasta região da Ásia não seria uma boa presença — e o interesse pelo petróleo tampouco. De lá para cá vimos a região pegar fogo literalmente em alguns lugares, como o Kuwait.

Falo disso tudo porque a guerra realmente não tem rosto de mulher. A despeito da presença de Thatcher e Indira Gandhi, todos os demais líderes são homens… mas os soldados que lutam nas guerras raramente são mulheres… E, se são mulheres, e quando são mulheres, estas acabam sendo esquecidas pela história, seja no campo de batalha ou na retaguarda, montando aviões.

“A guerra não tem rosto de mulher”

Ao menos, esse era ou tem sido o discurso oficial sobre guerras: o de que as mulheres não lutam. As guerras são um resultado de um processo complexo, que envolve homens e mulheres, claro. A jovem Svetlana, talvez sem estudar os movimentos das correntes da Nova História, percebeu que poderia contar a história da guerra por um outro ângulo, o das mulheres.

Ela tinha razão. “A guerra não tem rosto de mulher” porque o discurso da guerra é feito por homens, mas as mulheres estão lá. E o que fica claro a cada página desse livro estupendo é que a guerra é a cara do pobre, do cidadão comum, do indivíduo que não escolheu guerrear, e que invariavelmente morrerá jovem. Homens e mulheres, crianças, velhos, doentes também.

Estado soviético

Em particular, a pesquisa da jovem Svetlana não tinha interesse para o estado soviético. Ninguém queria publicar um livro que não mostrasse a glória de se haver lutado na guerra, assim como ninguém queria falar do sofrimento, da fome, dos assassinatos em massa, do medo, dos estupros, da carestia, do frio e mesmo da presença da mulher, que sempre foi considerada secundária.

Difícil dizer onde está o ponto central do levantamento feito pela autora, porque o livro vira um mosaico ao longo da leitura. Ela mesma conta que teve dificuldade em escolher, dentre tantas narrativas e centenas de horas de entrevista, aquelas que deveriam compor o livro. Optou, então, por semelhanças.

A primeira constatação – a partir de uma intuição e de uma descrição familiar – dizia respeito ao fato de as mulheres terem participado da guerra. Se participaram em menor número que os homens, isso não quer dizer que não participaram.

A segunda constatação foi a de que as mulheres não tiveram papel “secundário” na guerra, ocupando postos, por exemplo, na artilharia pesada.

Uma terceira constatação, eu poderia dizer, foi sobre os discursos sobre a fraqueza feminina: se as mulheres já não eram consideradas aptas para a guerra, mesmo tendo lutado lado a lado com homens, foram vítimas da construção de um discurso diminuidor, apaziguador ou de apagamento, fosse qual fosse o lugar ocupado por elas nas batalhas, no front, nos serviços de comunicação ou nos serviços médicos, fosse em Leningrado ou na Crimeia.

Susto

O leitor talvez não se surpreenda com os relatos do livro da autora que venceu o Nobel de Literatura. Hoje, o acesso a informações semelhantes vem através de outros relatos, de filmes (ficcionais e documentais), do teatro ou mesmo de uma literatura considerada confessional ou de denúncia ou memorialística ou ainda jornalística.

No entanto, o susto é certo e explico a razão. Uma experiência é ver um filme, assistir a uma peça teatral, ler um romance; outra experiência – nem melhor nem pior – é ler relatos de pessoas reais. Esse é o grande mérito do trabalho de Svetlana Aleksiévitch e por isso justamente seu nome foi o escolhido para a láurea mais famosa do mundo literário, “pela sua polifonia de vozes” (deixe Bakhtin por uns segundos num limbo).

Literatura?

Nunca discutirei se a escrita de Svetlana Aleksiévitch é literatura. Mas a questão pode gravitar em torno de: o que ela faz é uma narrativa? E se é uma narrativa, pode ser considerada romanesca? Sim e não. Aqui não caberia analisar isso de todo. Então, algumas pistas.

Como diz Jeffrey J. Williams, a pergunta “o que é literatura” é feita para legitimar nossa vida de pesquisadores e professores. Amo essa ironia britânica. Ele diz isso em paralelo ao que diz, por exemplo, Sullà, para quem uma das maiores dificuldades da vida do pesquisador e investigador da literatura é a definição do que seja, justamente, um romance.

Outros? Brink, Moretti, Pavel, Lukács, Bakhtin, e tantos outros, tentaram uma explicação para o que seria um romance. Talvez um caminho possível fosse tomar o romance como algo “dado”, primeiro, e como um discurso possível, segundo, deixando de lado as tentativas frustradas de discutir o formato de um gênero, pois se pensarmos o que é um romance, temos uma ideia mais ou menos precisa do que seja, mas quando mergulhamos na variedade romanesca vemos que nossa ideia mais ou menos “precisa” necessita de aparos, considerações, ressalvas.

Leia Svetlana Aleksiévitch

Porque ela merece ser lida. Ela fez o que muitos historiadores do universo fora do mundo soviético fizeram ou tentaram fazer. Vale a pena. Por vezes, a leitura fica repetitiva, mas não deixa de emocionar. Ela foge tanto dos estereótipos (de resto, cunhados pelos críticos) de uma literatura “soviética” ou “pós-soviética” (falarei melhor disso com os próximos autores, Sorókin e Ulitskaya).

Quando Svetlana Aleksiévitch recebeu o Nobel, o mundo tinha mudado e queria ouvi-la. Seus escritos começaram a ter um sentido novo a partir dos anos 1990. Ela mesma precisou esperar anos para publicar suas obras. Antes dela, Alexander Soljenítsin, também agraciado com o Nobel em 1970, escrevera sobre os gulags, mas não sob a perspectiva da mulher. E também antes dela o poeta Joseph Brodsky, laureado em 1984, foi perseguido por “vadiagem”. A autora nasceu na Ucrânia, adotou a língua russa, como tantos outros, e tem cidadania bielorrussa.

A partir dessa obra, foi feito o roteiro de “Uma mulher alta [Dilda*]”, levado às telas pelo jovem cineasta russo Kantemir Balagov, aluno de Alexandr Sokurov, que não tem muito a ver com o livro — e explico isso outra hora.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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