Educação, sinônimo de liberdade | Jornal Plural
15 out 2020 - 1h44

Educação, sinônimo de liberdade

No Dia dos Professores, vale lembrar: ensinar é abrir um mundo de novas possibilidades

O dia dos professores é uma das datas mais comemoradas do ano. Não deixa de ser uma contradição, num país que valoriza tão pouco a educação. Alguém mais cínico poderia dizer: o motivo é simples, a meninada ganha um dia de folga. Ou poderia ser porque há tantos professores (dois milhões e meio no Brasil!) e todo mundo tem um parente, um amigo dando aula. Talvez.

Mas tem algo mais. Aliás, o próprio fato de se falar tanto na falta de valorização dos professores (e de se mencionar sempre países em que eles são mais valorizados) mostra que, apesar do cenário triste, existe um reconhecimento da importância da profissão: as pessoas se incomodam de ver que os professores não estão onde deviam. E esse incômodo é pouco, mas é um bom sinal.

O apreço pelo professor tem vários motivos. Mas neste 15 de outubro, queria falar de um deles em específico: queria aproveitar a data para lembrar por que nossos professores são tão importantes nas nossas vidas. E a ideia não é falar daquele professor querido, daquela alma especial, mas sim dos professores como um todo. Da ideia de alguém que ensina. Do professor como alguém que muda nossa vida só por ser professor.

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Frederick Douglass é o ex-escravo mais famoso do mundo. Seus livros se tornaram clássicos da literatura americana e deram início à tradição dos escritores negros no Ocidente. Mas durante muito tempo ele não soube ler nem escrever: seus patrões (seus donos) obviamente não estavam interessados em educá-lo.

A primeira vez que ele teve contato com as letras foi quando pediu que a dona da casa lhe ajudasse a ler a Bíblia. Ela aceitou, e os dois começaram a ter aulas – mas não durou muito. Quando o marido dela soube, impediu que as lições continuassem. O sermão que ele passou na mulher marcou o menino Frederick pelo resto da vida. Saber ler e escrever, disse o dono da casa (e de Frederick), arruinaria o menino como escravo, e ele jamais poderia ser mantido como cativo depois daquilo.

As aulas cessaram, mas Douglass diz que naquele exato momento percebeu que o homem estava certo, e descobriu imediatamente qual era o caminho que o levaria da servidão para a liberdade. Era o conhecimento.

Depois de aprender a ler, sozinho, pedindo ajuda a religiosos, a meninos na rua, a qualquer um que pudesse ajudá-lo, escondido organizou uma escola dominical, para ensinar outros negros. Quando souberam, os donos de escravos invadiram o local e proibiram que aquilo voltasse a acontecer.

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A história de Douglass aconteceu há quase 200 anos. Mas as coisas não mudaram, pelo menos em certo sentido. Pense na menina Malala, no Paquistão moderno, que levou um tiro na cabeça por lutar para que as meninas de sua região pudessem frequentar a escola. Assim como os escravagistas dos Estados Unidos do século 19, os membros do Talebã sabiam que as pessoas sairiam de seu controle se tivessem acesso livre à educação e cultura.

Ditadores em geral sabem disso. Há casos mais extremos, como o de Pol Pot, no Cambodja, que literalmente mandava executar qualquer um que tivesse estudado. Outros são ligeiramente mais sutis. Veja essa história do Cazaquistão recente.

Assim que se separou da União Soviética, o Cazaquistão caiu nas mãos de uma espécie de ditador-senhor feudal que se perpetuaria no poder por décadas. O interesse dele, claro, era dinheiro (não educação) e poder (não desenvolvimento humano). E no caso do Cazaquistão, o que gerava poder e dinheiro era o algodão.

A primeira medida para garantir que os cofres públicos ficassem cheios foi obrigar todas as fazendas do país a reservar uma área para plantar algodão, que seria exportado. Mas restava um problema: nas vacas magras pós-URSS, não havia maquinário para a colheita, e assim a plantação rendia menos. A solução encontrada diz muito sobre o que ditadores pensam da educação.

O governo do Cazaquistão determinou que todas as crianças do país começassem as aulas um mês mais tarde e passassem as primeiras semanas do calendário letivo nas fazendas, colhendo o algodão. Do ponto de vista de quem queria poder, ganhava-se duas vezes: vinha o dinheiro e evitava-se que os alunos aprendessem mais.

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Existe toda uma discussão sobre o conteúdo da educação – se existe ou não uma espécie de doutrinação nas salas de aula. Se você falar que a educação tem um potencial revolucionário, provavelmente é assim que muita gente vai entender: que os professores estão criando uma legião de futuros agitadores. Não é assim, evidente: se fosse, imagine como o nosso país estaria fervilhando de gente nas ruas, com armas nas mãos.

Mas sim: toda educação tem um potencial subversivo. No sentido de que tem a capacidade de mudar as pessoas – e elas, como disse um grande educador, têm a capacidade de mudar o mundo.

Imagine um mundo sem escola, como já existiu por tanto tempo. O que seria repassado de uma geração para outra? Além do básico necessário para a sobrevivência (como fazer o pão, como arar a terra), existe sempre a cultura de uma região: os costumes, as tradições e a história que, seja ou não verdadeira, é imposta de cima.

A escola é onde conhecemos muito mais do que isso, onde conhecemos o mundo, onde ficamos sabendo da ciência, das regras que comandam a física e a química, da biologia e das origens da vida, da luta dos historiadores para descobrir um passado que é sempre mais complexo do que tentam nos vender – e é até mesmo na escola que dominamos a mais revolucionária das ferramentas já criada, a palavra. Aquele conhecimento que tanto tentaram negar a Frederick Douglass e a milhões de outros escravizados.

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O professor, a professora, têm esse papel: de nos libertar das fronteiras do dia a dia, daquele mundo pequeno que conheceríamos caso nos privassem da educação, e mostrar o mundo com suas belezas e suas regras inflexíveis. Na sala de aula, opera-se esse pequeno milagre: desfazem-se mitos, desvendam-se mistérios, constroem-se pontes.

Tudo isso porque algumas pessoas decidiram unir o conhecimento que juntaram (na própria escola, nos livros, no mundo) e acharam que seria um dever civilizatório repassar tudo isso para mais uma geração. Para libertá-los do medo. Para torná-los cidadãos do mundo. Para fazê-los livres. A professora, o professor, são os verdadeiros artífices de nossa visão do mundo.

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O Brasil é ainda um país com muitos analfabetos. É comum que se façam reportagens sobre adultos que aprenderam a ler depois de anos sem conseguir um mínimo de autonomia. O exemplo que as pessoas citam em geral é o mesmo: elas nem mesmo conseguiam ler a plaquinha com o destino do ônibus que estavam tomando. É isso. Mas é muito mais.

A autonomia que o professor nos dá vai mais além. É a autonomia de dizer não a quem quer nos fazer acreditar em fantasias, em mentiras; é a autonomia de saber como queremos que nosso país seja governado; e é principalmente a autonomia de reivindicarmos o direito de vivermos como bem quisermos, sem prestar contas a quem nos quiser impor um único meio como correto.

O professor e a professora nos fazem livres para escolhermos nossos caminhos na vida. Mostram o mundo, mas não para nos prenderem a um jeito de vê-lo. E sim para dizerem em seguida: vai, toma, é tudo teu, você agora é livre.

Esta coluna é uma parceria entre o Plural e o Colégio Medianeira.

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