Checadores de fatos: um exército em defesa da verdade - Jornal Plural
29 jan 2021 - 10h19

Checadores de fatos: um exército em defesa da verdade

A Rede Internacional de Checadores de Fatos (IFCN) na sigla em inglês, foi indicada neste ano pela primeira vez para o Nobel da Paz. A…

A Rede Internacional de Checadores de Fatos (IFCN) na sigla em inglês, foi indicada neste ano pela primeira vez para o Nobel da Paz. A entidade representa 79 organizações de checagem em todo o planeta, inclusive no Brasil. Alguém poderia pensar: mas por que um trabalho de checagem de fatos mereceria um prêmio como o Nobel?

Nos últimos anos, principalmente desde a posse de Donald Trump nos EUA, vem se falando muito em “fake news”. A discussão começou um pouco torta: Trump na verdade usava a expressão para intimidar a imprensa séria que criticava suas posições. Qualquer um que discordasse dele era um veículo de “fake news”.

Mas a conversa evoluiu bastante nos últimos quatro anos – e de novo Trump tem muito a ver com isso. O ex-presidente americano foi pego centenas de vezes (na verdade, milhares) dizendo mentiras. Jornais chegaram a montar um placar atualizado diariamente com as mentiras dele. Em certo sentido, se tratava de uma nova maneira de governar, questionando tudo que fosse inconveniente naquele momento (não só a imprensa, mas também a ciência e os próprios fatos).

Com o exemplo americano e a facilidade do uso de redes sociais para criar histórias, governos de várias partes do mundo aderiram ao processo das fake news. Nas eleições, candidatos também fazem circular mentiras sobre si e, principalmente, sobre seus adversários (o que custa milhões de reais).

Redes sociais

O crescimento do uso de redes sociais foi um fator fundamental para que esse tipo de notícia falsa se tornasse possível em grande escala, Sempre houve jornais pagos por grupos de interesse para criar versões deturpadas dos fatos, por exemplo. Mas antes da Internet, o alcance desse tipo de publicação era mais limitado. Acabava prevalecendo a história contada pelos grandes veículos – que, embora também tenham interesses, em geral são mais confiáveis.

As redes sociais permitiram a multiplicação das fontes que propagam notícia, a custo quase zero. E o pior é que muita gente não sabe diferenciar entre quais são as fontes mais críveis e quais são aquelas que estão ali apenas com objetivo de confundir.

O Facebook e o Google, os dois maiores gigantes da Internet, passaram a ser cobrados por isso, e reagiram: neste ano, por exemplo, o Google lanou um edital de R$ 3 milhões para agências de checagem de fatos que ajudem a desmentir mitos sobre as vacinas contra a Covid. O Facebook tem feito trabalhos parecidos, com editais frequentes de estímulo ao jornalismo sério.

Mensagens

No WhatsApp e em outros aplicativos de mensagem, a situação é ainda mais delicada. As histórias que circulam lá, muitas vezes plantadas com interesses escusos, circulam sem que seja possível responsabilizar a pessoa que deu origem à corrente. O sigilo dos dados e a criptografia acabam protegendo quem está prestando desserviços.

O resultado é que histórias cada vez mais mirabolantes passaram a ser vistas como verdadeiras, especialmente em países com baixo índice de educação formal. E desmentir esse tipo de notícia é muito difícil, ainda mais num momento em que a própria imprensa passa por uma crise de credibilidade, estimulada por seus detratores.

Checagem

Nesse cenário, os checadores de fatos se tornaram agentes importantíssimos para a garantia de um valor fundamental em qualquer sociedade democrática: a possibilidade de que o cidadão comum tenha o direito de saber a verdade. Tenha o direito de saber se alguém está tentando enganá-lo.

Pense na Covid: no meio de uma pandemia que já custou milhões de vidas, há gente passando para frente mensagens mentirosas sobre a doença e sobre a vacina. Esse tipo de desinformação pode levar pessoas à morte. E embora nesse caso a situação seja mais evidente, há outras possibilidades ainda mais assustadoras.

Recentemente, passou-se a usar a expressão “deep fake” para designar um tipo de mentira muito mais sofisticada. Com as ferramentas que estão sendo criadas, é possível simular de maneira inacreditavelmente fiel os movimentos faciais de alguém e sua voz. Imagine o perigo: é possível “fingir” que o presidente dos EUA disse algo sobre o Oriente Médio, ou sobre a Rússia, sabe-se lá, que ele nunca disse.

Brasil

O Brasil tem hoje uma boa rede de checadores de fatos, com diversas agências confiáveis. Para quem não conhece, fica a dica: o trabalho da Agência Lupa, do Aos Fatos e do Boatos.org é sério e feito por jornalistas confiáveis.

Portanto, se você tiver dificuldade em saber se alguma coisa que está circulando por aí é verdade ou não, talvez o primeiro passo seja dar uma olhada no que essas organizações estão dizendo. É muito melhor do que simplesmente confiar no zap.

Esta coluna é uma parceria entre o Colégio Medianeira e o Plural.

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