Os cães detetives - Jornal Plural
14 ago 2021 - 8h30

Os cães detetives

por toda tarde / em busca de pistas

Os cães detetives
em seus capotes negros
nunca desistem —
farejam dunas, em dupla,
pegam a praia de surpresa
siris telepatas

os cães detetives
mordem a neblina da maresia
investigam
gaivotas suicidas
pesqueiros sinistros
matas que meditam
o mar e seu mantra
o estrondo das ondas
sempre outras

elucidam minhas
pegadas na areia
ondas terroristas
surfistas suspeitos
outros cães
por toda a tarde
em busca de pistas

os cães detetives espreitam
o bege sílex das dunas
a queda kamikaze, vertical
dos mergulhões
e nunca se deixam enganar
são cães detetives caiçaras
soltam pistas que as ondas ocultam
quando explodem

cães sem dono, detetives,
dão seu batente na praia
e sabem ser sacanas também
latindo seus enigmas
pressionando vítimas
ocultos pela restinga
ou disfarçados de humanos

os cães detetives se colocam
na pele de sua presa
e não desistem dos siris
acham seus álibis
nos lábios das ondas
única evidência
a praia e seu colar de pérolas
o mar é testemunha

também se divertem
com o vento sul
orelhas
entre as patas
olhos cerrados de espera
quando do dia retraçam as pegadas
os cães negros detectam
a verdade, peixe podre,
se levantam e seguem
até que a tarde se entregue.

***

Estúdio Realidade, editora 7Letras, 2013.

Link para editora: https://7letras.com.br/livro/estudio-realidade/

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

Um comentário sobre “Os cães detetives

  1. Rodrigo é gênio em estado sutil absoluto. Foi marinheiro nas frotas de dom Henrique, náufrago com Bartolomeu Dias na costa da Namíbia, homem da gávea primeiro a avistar os rostos de pedra da ilha da Páscoa. Encoste o ouvido num dos seus livros e ouvirá o respiro do mar, polifloisboio.

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