14 out 2021 - 8h15

O fantasma de Natalia

“A memória talvez seja um dos melhores exemplos de encontro entre real e ficção, porque ela é feita dessa amálgama”

Copo Vazio é daqueles livros de se ler em uma noite. Comecei no fim da tarde e terminei às três da madrugada. Reli com calma em outros quatro dias. Desde então, tenho lido resenhas sobre ele, e descobri que a obra está sendo devorada por muitas mulheres. Entendo.

Contemporâneo, o romance narra a história de Mirela, arquiteta, que se apaixona por um homem que conheceu no Tinder. A escrita de Natalia Timerman é clara, precisa, econômica – e também muito, mas muito atraente.

Psiquiatra com mestrado em psicologia, além de doutoranda em literatura, Natalia aborda um assunto que é tão antigo quanto o relacionamento de duas pessoas, mas agora ganhou corpo virtual: quando alguém desaparece da vida de outro, do dia pra noite, hoje é chamado de ghosting. Dar um perdido, enfim.

Eu detesto americanismo – não sabia que tinha esse nome. Perguntei pra três dos meus quatro filhos se está acontecendo muito, e descobri que “Mããeee, isso acontece pra carambaaaa”.

Natalia entra na cabeça de Mirela de um jeito intrigante. E ela divide os capítulos em tempos diferentes. “Se” e “Depois” – este abre o livro – me pegaram.

Como Mirela resolve esse fantasma que ela estava, praticamente, amando? Ele desaparece sem um porquê. Natalia dá uma ou outra pista, mas a gente fica que nem Mirela, se perguntando o porquê. E Mirela consegue viver com esse fantasma?

Natalia deu uma entrevista muito legal pra mim. Como ela se expressa melhor do que eu, vamos a ela:

Antes de Copo Vazio, você publicou contos pela editora Quelônio, e Desterros, teu primeiro livro. Todos têm como cenário a cidade de São Paulo, onde você nasceu e vive. Você acredita que seria possível escrever ficção em uma cidade imaginária, ou em uma cidade real que você não conheceu?

Desde pequena, sou um pouco ingênua, no sentido de não conseguir confiar nas mentiras que eu inventava e, assim, não conseguir levá-las adiante. A ficção é muito diferente da mentira, mas ambas têm, possivelmente, uma base comum: a invenção. Eu preciso de um pouco de real para usar como trampolim, não à toa meu primeiro livro, a primeira coisa que consegui escrever e colocar no mundo, o Desterros: Histórias de um Hospital-Prisão, é um livro de não ficção. Certamente é possível escrever ficção em uma cidade imaginária ou desconhecida, mas não para mim, pelo menos não por enquanto. Mas tenho a esperança de que um dia eu consiga atingir uma verdade ficcional completamente inventada.

Na mesma linha: qual a importância da memória na tua escrita?

A memória talvez seja um dos melhores exemplos de encontro entre real e ficção, porque ela é feita dessa amálgama. Então, sim, a memória é um desses trampolins nos quais piso e dos quais eu pulo para inventar.

Dizem que todo livro de ficção é, no fundo, autobiográfico. Você concorda? Nos teus dois livros ficcionais tem isso?

Se pensarmos que até o estilo acaba sendo autobiográfico, ou que tudo o que se escreve precisa partir de um atravessamento pessoal, de uma inquietação, de um incômodo, de uma pergunta, então sim, todo livro de ficção tem algo de autobiográfico.

Pedro, a meu ver, é uma obsessão de uma mulher apaixonada. Será que ele existiu? Fiquei pensando isso a certa altura. Você é psiquiatra e psicoterapeuta. Tirou a história das tuas experiências com pacientes?

Copo Vazio é um pouco inventado, um pouco vivido e um pouco roubado de relatos de amigas e de outros da minha escuta clínica. Das experiências com pacientes, tomei os labirintos mentais aos quais o encontro terapêutico me dá acesso, as armadilhas de pensamentos, os segredos que cada pessoa tenta esconder até de si mesma, o inadmissível.

Porque será que as mulheres têm esse tipo de obsessão quando estão apaixonadas?

Não acho que sejam só as mulheres; acho a paixão tem algo de obsessivo, esse estado que tem a mesma etimologia da patologia, esse estado que é impossível de sustentar ao longo do tempo, mas que nos impele, com sua força descomunal, a operar mudanças na nossa vida ― e o casamento talvez seja uma delas, casamento no sentido de viver, morar com outra pessoa. Se pararmos pra pensar, dividir hábitos é algo impressionantemente difícil, algo que exige, então, um impulso que nos faça querer romper com nosso conforto cotidiano, e a paixão, muitas vezes, nos empresta seu vigor para isso.

Natalia, você acredita no amor? No destino? Mirela estava destinada a encontrar Pedro e amá-lo?

Mirela amava Pedro, mas talvez inventasse esse amor: todo amor talvez tenha um instante de escolha, ínfimo que seja, para que então o cultivemos, o deixemos crescer. Acredito que o amor seja uma força enorme, nas palavras de Hannah Arendt, uma das maiores forças apolíticas que existem, e que o destino seja simplesmente o lugar para o qual nos destinamos, não algo previamente determinado, e que na ficção, ou no romance, a gente consiga, como disse Walter Benjamin, enxergar a chama, uma coerência, a organização de um destino, como é impossível fazermos com nossa própria vida.

Mirela encontrou o fim da obsessão com Rui? Você acha que só assim a mulher encontra o fim de uma obsessão? Por que a gente não encontra sozinha?

Não acho que Mirela tenha encontrado o fim da obsessão com Rui, acho que cada fim é instaurado sozinho, sem substituições; Mirela conseguiu acomodar Pedro em sua própria história, sem precisar extirpá-lo da sua vida, até porque não é possível nos desfazermos de nossa história.

Quando você descreve Mirela andando de carro com o pai – a ilusão de que nos outros cada sentimento tenha o tamanho certo (esse parágrafo me pegou de jeito) … depois o desejo de agredir Pedro… só uma mulher seria capaz de escrever isso. Pergunta. Finalmente estamos vivendo uma era onde a literatura feminina está tomando seu papel?

A literatura escrita por mulheres tem, de fato, ocupado um espaço maior nos últimos anos; estamos tomando nosso quinhão do campo literário com narrativas complexas, transbordantes, inclassificáveis, com narrativas que, do nosso ponto de vista, dizem respeito à humanidade inteira.

Que autoras você tem lido?

Tenho lido Giovana Madalosso, Claudia Lage, Natália Zuccala, Julia Bac, Tatiana Salém Levy, Sheyla Smanioto, Lubi Prates, Luiza Romão, Andrea Del Fuego, Conceição Evaristo, Rachel Cusk, Elena Ferrante, Toni Morrison, Micheliny Verunschk, Lilian Sais, Rita de Podestá, Mariana Salomão Carrara, Carla Kinzo, Aline Bei e estou ávida por ler Renata Belmonte, Marcela Dantés, Bernardine Evaristo, Julia Codo.

Quais livros, autoras ou autores que formaram o seu gosto por escrever e ler?

Quando me apaixonei pela escrita de Clarice Lispector, passado pouco tempo da adolescência, tinha medo de ler todos os seus livros e não restarem mais para ler. É curioso que hoje o que me atrai na escrita de Clarice é algo diferente do que me atraía, talvez porque tanta gente tenha se influenciado por ela que a influência tenha saturado meus ouvidos do que antes era próprio e único. O que me atrai hoje em sua escrita é o absurdo, que é inimitável. Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles também me mostraram, respectivamente, uma potência e uma estrutura que me davam vontade de as ler mais e escrever.

Você gosta de filmes, música, artes, dança? Poderia citar os favoritos?

Gosto muito, ainda que tenha menos tempo para desfrutar disso tudo do que gostaria. Pina Bausch, Grupo Corpo, Parasita, As invasões bárbaras, Ferrugem e osso, Nick Drake, Nina Simone, Ana Elisa Egreja, Valeska Soares são algumas das tantas maravilhas que me vêm à mente agora ao escrever.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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