14 abr 2022 - 9h45

Lygia, minha casa, meu mundo

A escritora Lygia Fagundes Telles, falecida na semana passada, provoca um turbilhão de sensações e lembra a estadunidense Carson McCullers

Parecia fácil escrever sobre uma autora que sempre foi minha preferida. Olhei meu Instagram: duas fotos dela por ano, em média. Além disso, leio e releio Lygia desde meus 13 anos; dediquei a ela meu livro de contos, de 2021; após a morte dela, fui reler Ciranda de Pedra e encontrei no livro: “Bia. Relido em maio de 2008”.

Errei. Não é nada fácil.

Decidi, então, me deixar levar pelas memórias e impressões que Lygia Fagundes Telles vem imprimindo na minha vida há 45 anos. 

Um mundo visível e, ao mesmo tempo, misterioso. Um olhar feminino. Sentimentos, que sempre me pareceram vir do útero da minha mãe. Descrições tão exatas e tão turbulentas. Cenários que se repetem mas são diferentes. Nomes que me acompanharam a vida inteira. (Lembrei de onde tirei o nome da minha segunda filha). Personagens tão conhecidos, e tão envoltos em névoas – ou nuvens. 

Um tempo que não é bem um tempo, nem uma época, nenhuma determinada década. Como se fora um parênteses no tempo, parado numa bolha. 

Ao terminar de reler pela terceira vez Ciranda de Pedra – edição da Rocco, antes de Lygia migrar para a Companhia das Letras – vi a foto da autora na orelha. Lygia já com seus 50 ou 60 anos, na pose típica dela: um par de óculos, mão no queixo. Cabelos sempre fartos, na altura do queixo. Olhos inteligentes, questionadores. Nariz fino, decidido. Boca desenhada com um meio sorriso. Então me dei conta: Virgínia, personagem principal de Ciranda, é ela.

É ela, eu, minha mãe, e muitas e muitas de nós, mulheres. 

“Também as personagens de Lygia são esquivas, imprevisíveis, não se aceitam reféns de suas tramas perfeitas, preferindo atuar sobre elas, alterá-las a meio caminho. Há nessa obra uma força violenta de vida, constituída em especial pela capacidade invasiva dos seres, sejam eles pessoas, insetos, espectros. Uma força violenta de vida capaz de apagar os vestígios da morte e da indiferença, e por isso a obra há de sobreviver à sua ausência.

(…)

Sentia justa sua opção constante pela ambivalência, pelos jogos de luz e sombra, fonte também do erotismo de suas letras. Era a lição que ela aprendera com Machado de Assis, segundo ela mesma dizia, um mestre dos véus, alguém capaz de escrever com total clareza, de nos convencer de sua inocência, para logo fazer tudo submergir em profundezas turvas, as palavras como vultos sombrios. Nisso Lygia podia ser como Machado, apta a nos subsumir na dúvida por uma vida inteira.”. 

Julián Fuks, em sua coluna publicada pelo Uol. Palavras que eu escreveria, se eu soubesse escrever como ele.

Mais uma vez, Ciranda de Pedra me fez voltar – ou ir, ou ficar – em casa.

Lygia Fagundes Telles é a minha casa.

Lembro de trechos inesquecíveis de As Meninas, de contos que envolvem tapeçarias, casas, cemitérios, formigas, uma barca, sempre o amor…

Selecionei alguns trechos de Ciranda de Pedra:

“Quando já ia saindo, no último instante, vi na caixa o cravo vermelho e não sei por que tive vontade de levá-lo também, era um cravo de um tom violento, profundo”.

“Laura levantou a cabeça. Os olhos borrados sorriam envelhecidos, astutos”.

“Uma velha espreitou pelo vão da porta, que se abriu no estreito corredor. Tinha a cara extravagantemente pintada e a cabeleira ressequida”.

Publicado em 1954, este livro – como toda a obra de Lygia – traz temas espinhosos, como esquizofrenia, adultérios, impotência, lesbianismo, amor, suicídio. 

Lygia sendo Lygia.

Ainda sobre Ciranda. Me fez lembrar de Carson McCullers. Um livro dela, A Convidada do Casamento, traz também a visão de uma garota, quase adolescente, sobre o mundo dela. No caso, um verão em uma cidadezinha do Sul dos EUA, na década de 1930. Frankie Addams, a menina, perdeu a mãe quando nasceu; seu pai é relojoeiro (o pai de Carson também foi) e um homem distante (Virgínia perde a mãe e o pai é frio). Ela, assim como Virgínia, se sente rejeitada, solitária e desconectada das pessoas. 

É uma obra intensa, assim como os outros livros de Carson, que desenha perfeitamente os cenários e esmiúça os personagens. Me lembro do calor, da cozinha, da sombra das árvores, da rua deserta, como se eu tivesse visto um filme.

As duas autoras são ótimas. Mas Lygia é tudo para mim.

Este texto é de responsabilidade do autor/da autora e não reflete necessariamente a opinião do Plural.

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